Por que o conteúdo abaixo saiu da página “Liberdade”, e virou um post

No início de março de 2016 a Fundação Florestal (instituição que gere os parques estaduais do Estado de São Paulo e várias outras unidades) publicou uma portaria sobre observação de aves. A publicação é um marco para os birdwatchers, porque apesar da observação de aves ter se popularizado no Brasil há mais de 10 anos, e de termos milhares de fotógrafos, um site como o Wikiaves.com.br, um dos principais sites mundiais sobre aves, com mais de 1,5 milhão de fotos postadas e mais de 23 mil usuários cadastrados, com fotos e dados sendo usados inclusive em relatórios oficiais de espécies ameaçadas, na prática não tínhamos nossa existência reconhecida, e em vários casos éramos até proibidos de fotografar. O Brasil é o pais com a maior biodiversidade do planeta, um dos países com a maior diversidade de aves, temos todos esses fotógrafos em ação, mas nossas principais instituições nem têm páginas nos seus sites para falar de fotografia de natureza.

A publicação dessa portaria aconteceu graças a um trabalho conjunto de birdwatchers e do Núcleo de Negócios e Parcerias para a Sustentabilidade da Fundação Florestal, liderado por Carlos Beduschi e Mauro Castex. Graças a esses contatos pacientes, generosos, compreensivos foi possível evoluir um diálogo, em meio a um cenário de tensões diversas. É uma publicação que aconteceu em tempo recorde: nosso primeiro contato foi em julho, pela Ouvidoria, que respondeu e prometeu uma reunião até final de setembro, que realmente aconteceu. A expectativa era de termos uma portaria em dezembro, mas esse prazo mudou a pedido de alguns birdwatchers. Incidentes em parques estaduais, em que pessoas voltaram a ser proibidas de fotografar, demonstraram a necessidade de haver a publicação imediata de uma portaria transitória. Essa é a publicação do dia 2 de março, e pode ser lida neste post.

Nossa luta pela liberdade para fotografar e divulgar a natureza brasileira, e pela mudança da mentalidade da gestão dos parques, a favor do uso público começa uma nova fase. Usaremos a publicação da Fundação Florestal como força de argumento em outras instâncias de gestão. Nosso objetivo é que em pouco tempo as pessoas parem de sofrer proibições ou exigências descabidas, como dizer que para fotografar natureza é preciso retirar uma autorização todos os dias na administração do parque, em horário comercial. E também acabarem os casos em que um segurança diz “seu equipamento é profissional e você não pode fotografar”.

Acompanhe o assunto no grupo público do Facebook (Não) É proibido fotografar.

Algumas imagens da campanha de 2014. Quase todas estas fotos são do grande Ciro Albano, só a do beija-flor-de-gravata-verde é minha (só explico isso para o caso de você essa foto no meu material e não pensar que roubei uma foto do Ciro :) )

 

 

Em vez de formulários e controles, vamos incentivar a divulgação da natureza

Os órgãos responsáveis pelas áreas naturais no Brasil (ICMBio, Fundação Florestal, secretarias municipais) têm seguido uma postura antiquada, de controle ao invés de parceria com a população.

Alguns parques têm gestores esclarecidos, que incentivam a fotografia, mas em vários outros os gestores ou ignoram a divulgação que poderiam ter, ou complicam e até proíbem a fotografia. Exigem autorização por escrito assinada pelo diretor, os parques não divulgam em seus sites as fotos feitas pelos visitantes, você não pode publicar um livro que tenha fotos dos parques públicos sem aprovação e pagamento de taxas, você não pode produzir uma camiseta com o nome do parque, você não pode publicar no seu blog (!) uma foto feita dentro do parque sem assinar dois formulários.

As piores historias de pessoas proibidas de fotografar costumam acontecer em parques estaduais. E não é um problema de leis antiquadas, e sim de novas leis.

O Decreto Estadual 25.341/1986, que rege os parques estaduais diz:
“As atividades desenvolvidas ao ar livre, passeios, caminhadas, escaladas, contemplação, filmagens, fotografia, piqueniques, acampamentos e similares devem ser permitidos e incentivados, desde que se realizem sem perturbar o ambiente natural e sem desvirtuar as finalidades dos Parques Estaduais”.

A Portaria da Fundação Florestal, a FF 175, publicada em 2012 diz:
“Art. 13o – A utilização de imagens das Unidades de Conservação sem a devida autorização ou em desacordo com os termos da autorização concedida, configura além de infração administrativa, crime ambiental com base nos artigos 40 c/c 52 e 68 da Lei no 9605 de 12 de fevereiro de 1998, e portanto seu infrator fica sujeito às penalidades cabíveis.”

 

Essa postura inibe a divulgação dos parques, e impede o aumento da percepção da riqueza e importância dessas áreas.

Pessoas comuns querem ajudar na divulgação dos parques, mas a postura de burocracia e controle impede qualquer iniciativa.

Sabemos que não é fácil sair do controle e passar para a liberdade e incentivo à criatividade, mas os sucessivos golpes que as áreas naturais sofrem porque nosso governo tem compromisso com mineradoras, empreiteiras, grandes produtores, mas não com o futuro do país, exigem uma mudança de peso.

Senhores gestores e responsáveis pelas instruções normativas que atualmente amarram com correntes de ferro a divulgação das áreas naturais: sabemos que vocês querem tanto quanto nós a valorização da natureza brasileira. Estamos do mesmo lado e somos aliados na divulgação. As unidades de conservação precisam em caráter de urgência de aumento de visibilidade, de promoção, de mais visitações, de patrocinadores. E os fotógrafos amadores e profissionais podem e querem ajudar.

Desamarrem a fotografia, a produção de livros e de produtos. Sejam racionais. Reescrevam a lei de forma que a maioria das atividades seja permitida (em vez de proibida), deixem a cobrança de taxas reservada a eventuais projetos com grandes patrocinadores, nas situações em que há muito dinheiro envolvido faz sentido combinar uma taxa que leve em consideração os ganhos de ambas as partes. Em todas as outras se há lucro é muito pequeno, ao exigir controle e taxa vocês impedem as iniciativas.

É errado buscar controle total. O povo brasileiro é criativo, divertido, talentoso, e há muitas pessoas que conheceram a natureza, se apaixonaram por ela e querem divulgar e defender. Mas precisamos que vocês nos libertem.

Não basta que a fotografia seja tolerada. Queremos uma mudança da postura da gestão, queremos ajudar a divulgar. Reconheçam a existência da internet, das redes sociais, das auto-publicações usem isso a favor dos parques. Incentivem a fotografia. Divulguem as fotos bonitas dos visitantes nos seus sites. Permitam que as pessoas façam livros e revistas divulgando o nome do parque. Além dos fotolivros, há serviços como o ISSUU.com, com milhões de leitores (Exemplo de publicação: http://issuu.com/claudiakomesu/docs/tanqua).

Imaginem quantos pequenos projetos de divulgação da natureza, pagos do próprio bolso do fotógrafo amador, podem surgir graças a essa tecnologia – se vocês desburocratizarem. Deixem que as pessoas criem pequenos produtos com o nome do parque – toda divulgação é válida, e se o projeto resultar em algo bonito, façam uma parceria com o criativo para vender na lojinha ou no site do parque. Mas sem burocracia, e sim de uma forma que incentive. E entendam: não existe nenhum fotógrafo no Brasil que ficou rico vendendo fotos de natureza. O ganho é pequeno e cada vez menor, devido à concorrência por parte dos amadores – que cobram bem mais barato ou até dão a foto, e bancos de imagem, cada vez mais baratos ou até gratuitos. A cobrança da taxa pelo uso comercial da imagem só impede que a natureza seja divulgada de forma profissional e ampla.

Na maior parte da Europa e dos Estados Unidos as taxas são pra as grandes produções de filmes ou comerciais de TV. Não se cobra taxa de um fotógrafo que queira fazer um livro ou vender uma foto se ele não está usando o parque de forma diferente de um visitante comum praticando seu hobby de fotografia.

Onde se cobram taxas? Na África do Sul há taxas para filmagem e fotografia. Qual a diferença com o Brasil? Eles recebem muitos pedidos de uso dos parques para filmagens e produção dos livros. O governo apoia o ecoturismo, as unidades de conservação lá são bem mais conhecidas e visitadas por pessoas do mundo todo. A biodiversidade é muito menor, não existem lugares desconhecidos. Provavelmente o ganho com as taxas, inclusive de livros, é significativo, mas há revezes. Os profissionais não fotografam mais nos parques públicos, e assim cresceu a fama de que nos parques públicos da África do Sul não há situações interessantes, e sim nas reservas particulares x e y, ou em países como a Tanzânia e Quênia – amplamente divulgados com fotos espetaculares. A gestão também enfrenta problemas de divulgação de alguns parques, a ponto de, por exemplo, promover um concurso de fotos feitas nos parques áridos, que depois resultou em um livro, para aumentar a visitação nesses lugares. Um parque como o Kruger ainda mantém muita visitação, mas perdeu bastante status ao optar por taxar os profissionais e assim impedir a circulação das imagens que encantam as pessoas.

Em New Orleans, neste ano, a prefeitura decidiu taxar fotografias em parques públicos municipais, pensando principalmente em fotógrafos de casamento. A medida foi recebida com muitas críticas, mas comparando com o Brasil, nem é preciso explicar as diferenças entre um parque municipal com noivas e as unidades de conservação no Brasil, ou a diferença entre foto de book e foto que divulga a natureza do local.

Hoje há uma disputa acirrada pelo tempo e dinheiro das pessoas, e a concorrência é a nível global. Ser escolhido como destino é cada vez mais um privilégio. Ser autoritário e burocrático é a escolha errada, só isola as unidades de conservação. Façam a escolha certa: reconheçam que esse modelo de controle é antiquado, e criem mecanismos para atrair talentosos e criativos, criar entusiasmo – em vez de repelir e frustrar quem poderia ajudar.

O momento é de mudança. A situação das unidades é crítica, e as redes sociais ajudam a propagar as novidades. Vocês podem mudar de postura e criar um novo tipo de relacionamento com o público e com quem pode ajudar na divulgação. Basta querer.

 

Links de notícias

06/maio/2014: os 100 funcionários da Serra da Capivara foram demitidos porque não há verba para a folha de pagamento. Todos os parques sofrem com falta de recursos: http://www1.folha.uol.com.br/dw/2014/05/1450106-parques-nacionais-brasileiros-sofrem-com-falta-de-recursos.shtml (obrigada, Davi Pasqualetti)

02/set/2013 “Fotografar a natureza pode servir como uma ferramenta essencial para a educação ambiental, mas também uma arma para denúncias e trazer à luz a necessidade de preservação de áreas em risco de degradação”, disse a ((o))eco, Gustavo Pedro de Paula, presidente da AFNATURA, associação de fotógrafos da natureza. http://www.oeco.org.br/noticias/27546-fotografia-de-natureza-pode-ser-uma-arma-contra-crimes-ambientais

09/maio/2014: “Tourism is an undisputed generator of national wealth, corporate income and local employment. Managed sustainably, it can benefit people and the planet alike”, said United Nations Secretary-General Ban Ki-moon. http://www.birdlife.org/worldwide/news/world-migratory-bird-day-2014-spotlights-pioneering-sustainable-tourism-initiative (obrigada, Tatiana Pongiluppi)

“Through his photographs he has touched countless people with a sense of that mystique and a realization of the importance of preserving the last remaining wilderness lands. This inspirational legacy of Adams ‘ art constitutes his major significance as an environmentalist”. http://www.anseladams.com/ansel-adams-the-role-of-the-artist-in-the-environmental-movement/

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