Um lugar com mata preservada, onde você consegue ótimas fotos mesmo debaixo de chuva e neblina pesada.

 

  • Texto e fotos: Vinicius Pontello
  • Câmera: Nikon D700 e lente Nikkor 300 f/4 e teleconverter 1.4
  • Texto originalmente publicado em: http://correndotrecho.wordpress.com/
  • Enviado em março de 2012.
  • Mais posts sobre Intervales e arredores, clique aqui.

“E quando o mar não está pra peixe?” Foi este o tema que achei mais apropriado pra relatar minha passagem pelo Parque do Zizo. Este é um Parque Particular situado em Tapiraí, mas o acesso é por São Miguel Arcanjo – ambos em SP – bem próximo aos famosos Parques Estaduais Carlos Botelho e Intervales, na Serra de Paranapiacaba. O Zizo possui 300ha de Mata Atlântica, mas o que mais chama a atenção por lá é o grau de conservação do lugar, é impressionante. Já visitei alguns outros trechos deste tipo de Floresta, mas lá é diferente!

Comecei a odisseia logo num sábado cedo e de feriado com o Sergio Coutinho rumo a São Bernardo do Campo. Lá nos encontramos com o Mathias Singer, que eu ainda não conhecia, e seguimos pra São Miguel Arcanjo. Sendo feriado era certo que iríamos pegar transito na Rod. Castelo Branco, dito e feito! Até que se chegue nos arredores do Zizo é tudo muito comum, muito pasto, muito eucalipto e alguma lavouras e, até então, bastante sol. Mas logo que começamos a sair de floresta de eucalipto e nos aproximar da Mata Atlântica vimos uma grande névoa/cerração e uma queda boa de temperatura. Tamo chegando!!!

A Mata Atlântica é conhecida internacionalmente por Rainforest (do inglês rain/chuva e Forest/floresta) e o termo técnico da biologia que a determina é Floresta ombrófila densa. Ombrófila é de origem grega e significa “amigo da chuva”. Ou seja, este tipo de ambiente possui uma precipitação de chuvas bem distribuídas ao longo do ano e um período seco muito curto.

Tietinga: Desde que vi uma foto que o Marigo fez deles, passei a ser alucinado pela espécie.

Tietinga (Cissopis leverianus)

Foto feita ao lado da janela dos quartos da Pousada. Repare, ao fundo da foto, quanta cerração.

Jacutinga (Aburria jacutinga)

A expectativa para o feriado de novembro de 2011 era de observar muitas aves diversas, além de vários outros bichos. Mas o tempo não foi nosso grande aliando, afinal se alguém estava interferindo e querendo algo a mais éramos nós. Mesmo sabendo que o ambiente é característico de dias nublados e chuvas, a esperança era grande.

Logo após o almoço fomos percorrer uma trilha mais tranquila, por onde o Octavio Salles – nosso Guia – já tinha ido dar uma sondada no que estava rolando. As trilhas lá são fantásticas, as árvores são imensas, paira uma luz tênue e mágica, é tudo muito denso e úmido. Pelo fato da temperatura ter caído naquele dia, via-se que a Mata estava quieta e assim seguimos para uma outra trilha onde havia um mocó (esconderijo) instalando. Nele, Octavio e Guilherme Ortiz desenvolviam uma pesquisa observando um casal de maria-leque-do-sudeste e seu ninho.

Ver esta espécie era um desejo muito grande e a viagem já teria valido a pena só pelas oportunidades que tive de observá-la e registrá-la. Como se não bastasse, a fêmea se sentia muito confortável com a nossa presença por ali, se alimentava e construía o ninho normalmente e alguns instantes chegou a se aproximar bastante, cerca de 3 ou 4 metros. Já o macho ficava no outro lado do riacho e sempre era visto dando mergulhos no ar, caçando insetos. Sem contar o pula-pula-ribeirinho que o tempo todo ficou no entorno do mocó, quase que entrando dentro dele… simpático por mais de metro!

Ainda tivemos a oportunidade de ver várias outras aves, como a jacutinga, caneleiro, pimentão, saíra-sete-cores, sanhaçu-de-encontro-amarelo, araçari-banana, enferrujado, choquinha-de-garganta-pintada, verdinho-coroado, viuvinha, miudinho, irré, limpa-folha de-testa-baia, capitão-saíra, capitão-castanho, tietinga, tiê-preto, anembé-branco-de-rabo-preto, alguns beija-flores e um macuco correndo na estrada!

Maria-leque-do-sudeste (Onychorhynchus swainsoni) – Fêmea

De fato a chuva e a cerração intensa não colaboraram muito para que saíssemos nas trilhas, rolando mais fotografarmos o que pintava no entorno da pousada, como o caneleiro e o enferrujado que faziam ninho por ali. Mas também foi uma ótima oportunidade de explorarmos outras muitas coisas que ocorrem naquele ambiente tão rico, como foi o caso de alguns anfíbios, répteis e mamíferos.

Maria-leque-do-sudeste (Onychorhynchus swainsoni) – Macho

Numa das trilhas que começamos a fazer, vimos uma grande movimentação na copa das imensas árvores. Era um enorme bando de mono-carvoeiros ou muriqui-do-sul que se alimentavam. Penso que o bando devia ter mais de 20 indivíduos, que alcançam cerca de 1,5 metros de tamanho, sendo ele o maior primata do continente americano, habitando exclusivamente a Mata Atlântica. Como sabemos, hoje resta cerca de somente 7% do que havia da Mata Atlântica e espécies como o Mono-carvoeiro tem alto risco de extinção pela destruição e a fragmentação do habitat, que leva ao isolamento das populações e gerará problemas relacionados com a consangüinidade, isso sem contar com o risco de que ainda são caçados (!!!??). Embora nosso encontro não tenha sido tão breve, não foi fácil fotografá-lo, pois o bando se movia relativamente rápido pela copa de árvores bem altas. Conseguimos identificar a “trilha” que faziam pela mata e os acompanhamos por um bom trecho. O momento foi mágico, daqueles de tirar o fôlego e vermos nossa pequenez neste mundo tão doido e egoísta que construímos.

Mas já que o Mato não tava pra Ave, em função do mal tempo, decidimos procurar algumas coisas interessantes no entorno da Pousada. Começando a anoitecer os anuros começam a fazer sua cantoria, e o laguinho logo ali perto seria um prato cheio para encontrar alguns. Com o cenário não seria necessário se preocupar, pois o laguinho é densamente rodeado de helicônias e lindas bromélia, algumas delas com coloridas inflorescências. Eu e o Serginho estávamos doidos pra testar algumas fotos usando nossos flashes remotamente.

Minha expectativa era encontrar a famosa e fotogênica Phyllomedusa distincta, ou perereca-das-folhagens. Mas desta ai nem sinal, nem som, já que seu canto é bem característico. No vai-e-vem da procura a mais encontrada foi a Dendropsophus elegans, ou perereca-de-moldura, em função de seu padrão de manchas. Seu nome cientifico faz menção ao seu habito arborícola e pela sua vocalização bem presente. Mas o mais bacana: achamos, por engando, uma Bothropoides jararaca, ou jararaca. Penso que ela estava por ali em busca de alguma rãzinha que desse mole. Ficou todo tempo na mesma posição, pacientemente esperando para ser fotografada e depois ir se alimentar.

Veja, logo abaixo, algumas destas fotos da rã, do lagarto, da jararaca, do enferrujado e do caneleiro.

Enferrujado (Lathrotriccus euleri)

 

Perereca-de-moldura (Dendropsophus elegans)

 

Jararaca (Bothropoides jararaca)

Caneleiro (Pachyramphus castaneus)

Não consegui identificar a espécie.

Outro bicho muito bacana que vimos e fotografamos foi um lagartinho que pensou estar camuflado em uma palmeira jovem na beira da trilha. Acho que ficamos uns vinte minutos fotografando e ela sempre na mesma posição, jurando que não estava sendo vista. Bacana foi acompanhar um pernilongo muito pequeno e quase transparente que fazia sua refeição nas costas do réptil, quando terminamos a “sessão” o bichinho estava quase estourando de tanto sangue. No Zizo, tem muitas atrações além das Trilhas e da Mata propriamente dita. Os comedouros lá são muito bem frequentados, ainda mais na época de baixa oferta de alimento na Floresta. O Chico e suas Irmãs que recebem muito bem os visitantes, e fazem um rango muito bom, além das inúmeras histórias que contam e que enriquecem muito mais aquele lugar. O chuveiro á gás posso dizer que é um bom e importante atrativo para aquele que não dispensa um banho quentinho antes de deitar. Enfim, o que não faltarão são motivos para voltar a aquele lugar.

 

 

Mais passeios no Parque do Zizo

 

Mata Atlântica (+)