(…) Pode ser que para algumas pessoas uma viagem como esta não seja um modelo de observação de aves ou que não tenhamos dado a seriedade necessária a tal evento, mas devo dizer que para nós que participamos, ocorreu da melhor forma possível! Não estamos em nenhuma disputa para ser o melhor fotógrafo ou o top-lifer no Wikiaves, queremos mesmo é fotografar a nossa natureza em todas as suas manifestações, admirar suas criaturas e, acima de tudo, poder fazer tudo isto na companhia de amigos sinceros e divertidos, pessoas que sempre iremos querer como companheiros em qualquer ocasião.

Tietinga (Cissopis leverianus) - presença obrigatória nos comedouros

Tietinga (Cissopis leverianus) – presença obrigatória nos comedouros

 

Esta é a terceira postagem que faço sobre o Parque do Zizo, localizado em São Miguel Arcanjo – SP, mas é a primeira vez que fico hospedado no local pois nas vezes anteriores optei pelo day-use. Por isto mesmo é que tenho o dever de relatar esta experiência impar e altamente recomendada!

Vamos começar esclarecendo algo muito importante sobre o clima local, afinal as pessoas podem se desanimar ou até se frustrar com o fato de que lá chove bastante (e chove mesmo!), mas este tipo de floresta é conhecida em inglês como “rainforest” ou na tradução literal “floresta chuvosa” e é exatamente isto que dá ao local suas características únicas de Flora e Fauna, portanto vá para lá sabendo que chover no local é NORMAL!

Vencido este aspecto inicial você estará pronto para se maravilhar com uma avalanche de informações, imagens e descobertas que lhe aguardam em cada minúsculo ponto do local, mas também na imensidão do mesmo, pois saiba que você esta em um dos poucos locais no país que ainda abrigam florestas de Mata Atlântica primária.

A proposta dessa viagem surgiu como a primeira atividade oficial do GRIFOO para o ano de 2013 e sua aceitação foi unanime no grupo, afinal haviamos visitado o local em julho de 2012 e mesmo fazendo apenas um day-use, com chuva e frio que nos obrigaram a permanecer nos comedouros apenas, tivemos uma experiência que marcou a todos.

Definida a data, feita a proposição e esta aceita pelo grupo, definimos então que contrataríamos os serviços de um guia profissional e especializado no local. Optamos pelo excelente Octavio Campos Salles que além de grande fotógrafo e guia experiente é também um profundo conhecedor do local, portanto altamente recomendado!

Ouso até afirmar que a contratação de um guia é algo imprescindível! Pois por conhecer as trilhas e as espécies que ali habitam ou frequentam, as chances de avistamento de aves relativamente raras é muito maior.

 

DIA 22 DE MARÇO – A CHEGADA

Combinamos com o Chico e com o Octávio que chegariamos na sexta-feira por volta de 15hs e que já estariam nos aguardando no estacionamento da reserva com a mega-blaster-super Veraneio 4×4 para o transporte das malas e equipos., além de alguém que porventura não quisesse fazer o trajeto até a sede a pé. Mas todo mundo optou pela descida caminhando e lá foi o Chico com as malas – e preciso aqui fazer uma nota sobre isto – vocês precisavam ver a mala do Elvio!

Ou ele iria ficar lá por uns 45 dias ou então estava levando algum hóspede clandestino lá dentro… O fim de semana já começou com boas risadas!

Ainda não estava chovendo neste dia e pudemos fazer o percurso sem grandes problemas – menos o Dú Nyari que levou uns 47 escorregões e sagrou-se campeão nacional de ski-bunda, modalidade barranco escorregadio!

Chegando na pousada, cada um escolheu o seu quarto ficando 2 pessoas em cada um. Recebemos as recomendações básicas sobre estar hospedado na floresta (anfíbios e aranhas são comuns, portanto mantenham as portas fechadas) e você acaba tendo a 1ª constatação de que esta em um local totalmente preservado e distante da “civilização” quando começa a procurar pelo interruptor para acender a lampada do quarto, mas o que você encontra é um candelabro de parede com…UMA VELA!

O quarto é bem simples, rústico até, mas as camas são muito confortáveis, lençóis limpos e perfumados (interessante que não tem aquele cheiro de mofo, característico de locais muito úmidos), um banheiro com uma ducha fortíssima, usando aquecedor a gás e só! Não precisa de mais nada!

No item banho tenho um comentário importante para fazer! A água é muito forte, com boa pressão e ao ligar a água quente você apanha um pouco até equilibrar a temperatura da mesma. Logo de cara já tive uma experiência traumática, pois estava frio e a água pelando de quente, sendo que fiquei fora do chuveiro aguardando que a mesma esfriasse. Neste momento bate aquela rajada de vento e aquela “mardita” cortina do box gruda em minha região posterior… e tava mais gelada que coxinha de rodoviária! Resultado: pulei na água que estava queimando e voltei pra cortina gelada e grudando na buzanfa… uma cena ridícula. Ainda bem que ninguém estava vendo.

Bom… mas voltando a nossa chegada, equipamentos em mãos e corremos para os comedouros, afinal já estava um pouco tarde e não daria para fazer nenhuma trilha, talvez algo nas imediações da sede e uma corujada ao anoitecer.

A noite chegou rápido e o maravilhoso cheiro da comida sendo preparada fez com que permanecêssemos nas imediações da cozinha, com a desculpa de que estávamos cansados da viagem. Logo o jantar foi servido e os últimos vestígios de civilização desapareceram – parecíamos lobos atacando uma presa. Mas foi só neste dia, depois a coisa melhorou e ninguém mais mordeu as panelas e lambeu os pratos na mesa.

Saímos então para corujar nas imediações da pousada, em busca da corujinha-sapo, do caburé-miudinho e da murucututu-de-barriga-amarela, mas apenas esta última respondeu ao play-back, respondeu mas não deu as caras…

Voltamos a sede e mesmo com os protestos de alguns marmanjos que não se conformavam em perder a novela, ficamos sentados sob um céu que se alternava entre estrelado e nublado, conversando e contando histórias, rindo e se conhecendo melhor, fortalecendo laços e criando novos amigos.

Todo mundo cansado e vamos nos recolher imersos em um silêncio fantástico – bom… não no meu caso, pois no meu quarto tinha uma motoserra ligada durante toda a noite! Pensei até em dormir lá fora, mas resolvi não participar da sessão de acupuntura com os milhares de pernilongos do local.

 

DIA 23 DE MARÇO – MUITA CHUVA

O dia amanheceu completamente diferente, com uma garoa constante e uma neblina leve cobrindo os morros que nos cercavam. Após um lauto café da manhã, ficamos em um dos comedouros aguardando alguma melhora no tempo, afinal tínhamos conosco um OTIMISTA nível pró-master, o Gustavo, que esperava ansiosamente pela chegada do Sol para que pudesse usar o seu protetor solar.

Não demorou muito para que diversas espécies de aves começassem a chegar e a garantir belíssimos registros.

Benedito-de-testa-amarela (Melanerpes flavifrons)

Benedito-de-testa-amarela (Melanerpes flavifrons)

Saíra-militar (Tangara cyanocephala) - verdadeiros bandos chegam nos comedouros

Saíra-militar (Tangara cyanocephala) – verdadeiros bandos chegam nos comedouros

Tangarazinho(Ilicura militaris) - chegou a poucos metros do comedouro

Tangarazinho (Ilicura militaris) – chegou a poucos metros do comedouro

Quando a chuva dava uma pequena trégua o Octavio – sempre atento ao menor ruído vindo da mata que nos cercava – soltava um play-back e logo tínhamos também alguma espécie que não frequenta os comedouros, mas que chegava bem perto, em locais tão abertos que ninguém acreditava.

Ficamos por alí até a hora do almoço e após uma nova e deliciosa refeição aproveitamos a pequena trégua na chuva e resolvemos fazer uma trilha curta, em busca principalmente da maria-leque-do-Sudeste.

Infelizmente não tivemos muita sorte em encontrá-la e na volta acabamos criando uma nova modalidade audio-visual para atrair aves, fizemos uma fusão entre cosplay e playback, ou seja eu me disfarçaria de maria-leque-do-sudeste e o Gustavo faria o som… cantando a tal da “música” lek-lek-lek!!!

Neste instante pude ver através do olhar triste do nosso competente guia o seguinte pensamento: ” O que eu estou fazendo aqui com estes caras???”

Eu fazendo "cosplay" enquanto o Gustavo cantava o tal do "Lek-lek-lek". Acabou ficando como o registro de uma nova espécie, o "Mario -leque-do-Nordeste". Foto: Dú Nyari

Eu fazendo “cosplay” enquanto o Gustavo cantava o tal do “Lek-lek-lek”.
Acabou ficando como o registro de uma nova espécie, o “Mario -leque-do-Nordeste”.
Foto: Dú Nyari

Acabou ficando como o registro de uma nova espécie, o “mario-leque-do-Nnrdeste”.

A chuva não parou mais e desta forma não pudemos tentar uma nova corujada, ficando apenas em mais uma animada conversa à luz dos lampiões.

Em determinado momento a conversa estava até que em um bom nível, quando inesperadamente o nosso amigo Gustavo solta a pérola de que vem da cidade de Santa Barbara D´Oeste, local onde “chove peixes”.

Aquele momento de silêncio profundo e alguém resolve confirmar se é isto mesmo que ele disse… e ele confirma!!! Disse que saiu em todos os jornais e noticiários locais que um avião de carga havia deixado escapar parte de uma carga de sardinhas e cavalinhas congeladas e que estas haviam caído em cima de casas e pessoas em um bairro daquela cidade. Bom… teve gente que caiu sentado de tanto rir e começaram as “estórias” mais absurdas possíveis.

A esta altura eu já podia ver também a cara do Chico pensando:” O que eu estou fazendo aqui com estes caras?”

Se alguém quiser saber o que REALMENTE ocorreu clique aqui e veja a matéria divulgada.

 

DIA 24 DE MARÇO – O FINAL DA AVENTURA

Após mais uma noite tentando dormir com uma serraria inteira dormindo na cama ao lado, acordamos com o tempo um pouco melhor, embora ainda nublado parecia que a chuva iria parar e alguns pedaços de céu azul já podiam ser vistos entre as nuvens.Tomamos o nosso café da manhã rapidamente e logo partimos para a Trilha do Passarinheiro onde o Octavio iria também aproveitar para inspecionar a armadilha fotográfica instalada no local, a poucos metros de uma arvore com várias marcas de garras de uma onça parda, assídua frequentadora do local.

A árvore com as marcas de garras da Onça-parda. Foto Dú Nyari

A árvore com as marcas de garras da Onça-parda. Foto Dú Nyari

A trilha estava um pouco escorregadia – devido as chuvas constantes – para ser percorrida com um tripé nas costas, além de uma teleobjetiva que já pesava 36 quilos a esta altura, portanto não me importei muito em conseguir fotografar todas as espécies que cruzaram o nosso caminho (assim que possível vou comprar uma 100/400mm para estas ocasiões).

A foto oficial do grupo em plena trilha. Foto: Octavio C. Salles, com a câmera do Dú Nyari

A foto oficial do grupo em plena trilha. Foto: Octavio C. Salles, com a câmera do Dú Nyari

Fomos acompanhados pelo Chico que nos falou sobre algumas melhorias previstas no local, entre elas a construção de uma nova ponte de pedras, estilo romana e a melhoria no acesso até a sede. Por um lado vai facilitar a vida de muita gente, mas por outro vai por um fim a uma das etapas mais emocionantes da viagem… a subida até o estacionamento a bordo da Veraneio 4×4 – ou então como aconteceu comigo anteriormente em um episódio que já se tornou lenda entre os habitantes locais e é contado nas escolas da região para assustar as crianças que não se comportam, fazer este trajeto agarrado ao banco do velho trator (quando estiver por lá, peça para ver as marcas dos meus dedos na chapa metálica do assento).

De volta a sede encontramos um comedouro lotado e enquanto aguardávamos o almoço aproveitamos para melhorar alguns registros de espécies já fotografadas, mas como sempre fomos contemplados com novas espécies que ainda não tinham aparecido. Quem resolveu dar as caras por lá foi um gaturamo-verdadeiro, seguido por alguns guaxes que até então pareciam estar um pouco tímidos.

Guaxe (Cacicus haemorrhous)

Guaxe (Cacicus haemorrhous)

Gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea)

Gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea)

Tietinga (Cissopis leverianus)

Tietinga (Cissopis leverianus)

Almoço pronto, todos se sentando e já dando aquele sentimento de que “amanhã é segunda-feira” – o mesmo que todos sentem quando ouvem a musiquinha do Fantástico – quando ouvimos um som diferente daqueles que até então frequentavam os comedouros e logo fomos avisados pelo Octavio da aproximação de tiribas-de-testa-vermelha. Agora era um olho no comedouro e outro no prato (sério gente, o Gustavo furta mistura do prato) e não demorou muito para que largássemos tudo e corrêssemos para as câmeras, pois algumas destas aves fantásticas haviam se aproximado e estavam esperando o melhor momento para descerem ao comedouro.

Tiribas de testa vermelha (Pyrrhura frontalis) - um show da Natureza

Tiribas de testa vermelha (Pyrrhura frontalis) – um show da Natureza

E foi isto caros amigos, fechamos a nossa aventura com chave-de-ouro, ou quase… faltava ainda aquele momento tão aguardado por todos… a subida até o estacionamento!

Alguns disseram que preferiam subir a pé pois ainda tinham muita energia para queimar, outros alegaram razões fratulênticas para não entrar no veículo e outros ainda admitiram estar apavorados com a ideia e desta forma fomos apenas eu, Elvio e o Octávio juntos com o Chico e muitas malas (inclusive a do Elvio que ocupava 43,6 % do espaço interno da Veraneio).

Pode ser que para algumas pessoas uma viagem como esta não seja um modelo de observação de aves ou que não tenhamos dado a seriedade necessária a tal evento, mas devo dizer que para nós que participamos, ocorreu da melhor forma possível! Não estamos em nenhuma disputa para ser o melhor fotógrafo ou o top-lifer no Wikiaves, queremos mesmo é fotografar a nossa natureza em todas as suas manifestações, admirar suas criaturas e, acima de tudo, poder fazer tudo isto na companhia de amigos sinceros e divertidos, pessoas que sempre iremos querer como companheiros em qualquer ocasião.

E o Parque do Zizo é um local ideal para isto!

 

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