(…) E, por fim, a última lição que tomei desta aula de passarinhar foi que até uma máquina com zoom mediano pode tirar algumas fotos legais. Nesses anos todos em que ouvi a Clau falar de sair para fotografar animais e aves eu pensava: “Ah, um dia, quando eu tiver uma máquina bem legal, também sairei por aí tirando foto de animais”. E até a semana passada eu nunca tinha feito isso exatamente por achar que ainda não tinha a tal máquina bem legal. Claro que não é o ideal, longe disso, sei que o Parque Villa-Lobos, com a luz que estava e com as árvores ainda jovens e baixas, foi o responsável por tornar a minha máquina OK para o trabalho. Mas, foi muito legal saber que eu também posso fazer parte disso tudo.

Canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) Saffron Finch

 

  • Texto e fotos: Tatyana Ferlin
  • Passeio no Parque Villa-Lobos em maio de 2012

Dia desses fui a São Paulo reviver os tempos de estudante. Falando assim até parece que terminei a graduação na década passada; imagine, foi apenas há 2 anos. Mas, entre comidinhas gostosas que não se vê no interior e filmes no cinema que só me chegam dublado, pude rever os amigos que deixei ali. E um deles, uma, na verdade, é a Claudia.

A Clau, e é assim que vou chamá-la até o final deste texto, me ensinou coisas muito preciosas ao longo dos anos. Há uns 16 anos ela me mostrou e ensinou a usar um scanner de mão; há uns 5, me mostrou como uma banheira com água quente é tudo o que precisamos em um dia ruim; e, na semana passada, me ensinou como passarinhar.

Definitivamente não foi para isso que nos encontramos. Íamos simplesmente passear pelo parque Villa-Lobos e conversar sobre a vida. E fizemos isso muito bem nas primeiras horas. Somente quando paramos para nos refrescar e hidratar é que a história toda começou. Comecei mostrando à Clau minha máquina-fotográfica, que está sempre comigo na mochila, uma modesta Sony HX-5 com 10x de zoom ótico. Ela me disse que, apesar de ser uma máquina bacana, o seu zoom não era o suficiente para alcançar as aves nos topos das árvores ou em distâncias maiores, limitando-a, apenas, a aves muito próximas.

Assim que retomamos o passeio a Clau me sugeriu que tentasse tirar algumas fotos com a minha máquina. Ela me mostrou a árvore, me mostrou a ave e, depois de algumas tentativas focando o tronco ao invés da ave, saiu essa foto do sabiá-laranjeira:

Nada mal, não é?

O mais legal da primeira vez é que, quando você finalmente consegue encontrar uma ave e ela sai bem “posuda” na sua tela de LCD, e você sabe que foi você quem fez o click, você se sente também muito “posuda”. Pelo menos eu me senti. E para aqueles que já são passarinheiros e esqueceram como é “finalmente conseguir encontrar uma ave” eu vou explicar.

Há uns 3 anos uma outra amiga, Nathália, tendo sido recém passarinhada pela mesma Clau, olhou para uma árvore da minha cidade, Penápolis-SP, e disse: “Olha que bonito, Taty, toda essa quantidade de aves nessa árvore. Dá vontade de buscar a minha câmera e fotografar tudinho”. Bem, eu olhei para a mesma árvore que a Nathália, e, devo dizer, vi algo mais ou menos assim:

 

 

Enquanto, aposto, a Nathália via algo mais ou menos assim:

Mas, tendo alguém como a Clau ao meu lado me apontando a direção, dizendo para onde olhar e o que fazer, fica mais fácil acreditar que as aves estão ali. Sim, acreditar, pois ver ainda não foi possível. Claro, quanto topávamos com uma árvore sem folhas e nela havia um bem-te-vi com o peitão bem amarelo, aí sim eu podia vê-lo. Como esse daqui:

E, como toda marinheira de primeira viagem, eu olhava ao me redor e só pensava em: “penas, bicos, bicos, penas, onde vocês estão?” e não conseguiria enxergar ou buscar nada além de algo que lembrasse uma ave. Já a Clau, muito acostumada com todo o ambiente em que esses bicos e penas estão, me chamou a atenção para uma orquídea muito bonita no alto de uma árvore. Pois, obviamente, não só de aves se faz uma árvore:

Outra coisa legal de aprender a passarinhar é que não é só para cima que devemos olhar, muitas vezes, o jeito é ajoelhar e mirar a sua câmera para o chão. Por uns bons minutos eu segui um casal muito simpático de aves. Mas, no começo, confesso, estava um pouco tímida. A Clau me disse “ajoelhe”. E então eu coloquei apenas um joelho no chão. E então ela insistiu: “Não, não, ajoelhe como se fosse pagar promessa”. Ok. “Isso, agora vá atrás deles ajoelhada”. E o orgulho me bateu novamente, pois descobri que ainda sou capaz de andar ajoelhada por uns bons metros. Aliás, ficar ali, tão perto dos passarinhos era tão divertido e agradável que eu nem me lembrava que estava mesmo de joelhos e muito menos carregando a minha mochila como a Clau bem registrou:

Aliás, esta foto aí em cima é uma outra boa mostra da visão daqueles que não são passarinheiros. Não tem nada ali a não ser mato e algumas flores. É o que eu diria neste exato momento. Mas olha essa beleza que estava por ali:

Não é mágico? Não é surpreendente? Eu achei.

E esse mesmo belo casal de canários-da-terra-verdadeiros (uma pena que na foto acima só apareceu o macho) que persegui pelo chão me deixou chegar bem pertinho enquanto se refrescavam numa sombra de árvore:

E falando em me aproximar das aves, não sei se vocês já viram aquele filme do Rob Reiner chamado “Stand by Me” (Conta comigo) de 1986. Passou muitas vezes na Sessão da Tarde. Conta a história de 5 garotos, um deles o finado River Phoenix, que passam o fim de semana em uma floresta em busca do corpo de um menino que havia saído de casa para buscar amoras e nunca mais voltou. Bem, no filme há uma cena em que os meninos invadem um ferro-velho. E é de conhecimento de todos de sua cidade que neste lugar há um cachorro monstruoso chamado Bocarra que, dizem, foi treinado para arrancar certos pedaços íntimos dos intrusos. Finalmente eles encontram o tal Bocarra e descobrem que ele está mais para um vira-lata mediano do que um monstro assassino. E ao descobrirem isso o narrador diz: “Bocarra foi a minha primeira lição sobre a grande diferença entre mito e realidade”.

Então, o ato de me aproximar das aves “foi a minha primeira lição sobre a grande diferença entre mito e realidade”. Gosto muito de duas coisas: pescar e assistir aos diversos programas da Discovery Channel. E tanto na pescaria quando nos programas em que as pessoas têm que sobreviver na selva ou acompanhar um grupo de leões, você deve ser mexer muito devagar e fazer o mínimo de barulho possível. Oras, pensei eu, passarinhar é a mesma coisa.

Fazia pouco barulho, colocava um pé cuidadosamente à frente do outro, encostando primeiro o calcanhar e depois, lentamente, o resto do pé. Prestava atenção aos meus movimento de braço e à minha respiração, estava quase me sentindo o Pai Mei (do Kill BiLL) da arte de se aproximar das aves sem assustá-las.

Bem, eu planejei e pus tudo isso em prática todas as vezes que a Clau me dizia para ir a algum lugar enquanto ela ficava para trás me observando. Até que, muito tempo depois, a Clau foi comigo me mostrar uma árvore e a realidade me apareceu: pisadas firmes, diretas, fortes em cima daqueles gravetos e mato seco, nada de frescuras.

Sabe aqueles livros de como se tornar um detetive que falam para você colocar migalhas de pão ou sucrilhos em frente a sua porta para que, caso chegue alguém, você o escute? Então, estes livros também não vão servir para você aprender a passarinhar pois pouco importa que a ave o escute se aproximar. E faz todo o sentido não é mesmo? A ave está lá em cima muito bem segura e distante do chão. Numa floresta ou num parque, algo fazendo barulho lá embaixo é a coisa mais natural que pode existir. Agora, alguém que se esgueira silenciosamente, e, quando a ave percebe, está aos pés de sua árvore, bem, isso parece muito mais perigoso. Mas, na hora foi bem engraçado. Ela tomou a minha frente, fez todo aquele barulho e eu pensei: “Horas de Man vs. Wild em vão”.

E, por fim, a última lição que tomei desta aula de passarinhar foi que até uma máquina com zoom mediano pode tirar algumas fotos legais. Nesses anos todos em que ouvi a Clau falar de sair para fotografar animais e aves eu pensava: “Ah, um dia, quando eu tiver uma máquina bem legal, também sairei por aí tirando foto de animais”. E até a semana passada eu nunca tinha feito isso exatamente por achar que ainda não tinha a tal máquina bem legal. Claro que não é o ideal, longe disso, sei que o Parque Villa-Lobos, com a luz que estava e com as árvores ainda jovens e baixas, foi o responsável por tornar a minha máquina OK para o trabalho. Mas, foi muito legal saber que eu também posso fazer parte disso tudo.

A semente foi plantada, e agora, aqui na minha Penápolis, eu vou continuar esse hobby tão divertido. Infelizmente, com o mês de junho e o frio se aproximando, tivemos por aqui muitas manhãs nubladas, mas, já pude ver, novamente, um tucano sobrevoar a minha rua. Assim que tiver fotos legais prometo fazer um novo post.

Muito obrigada, Clau! :o)

Abaixo estão mais algumas fotos tiradas no dia.