Texto e fotos: Claudia Komesu

As aves, o clima

“Dá pra lembrar que a gente já passou tanto frio, naquela estrada para a Pedra do Baú?” — perguntei para o Rafa (Fortes) — mais uma vez, meu guia em Ubatuba. Era difícil lembrar disso. Fim de outubro, mas parecia janeiro. Uma sauna. Suando das roupas grudarem na pele, pernilongos e mutucas sem trégua, e grandes silêncios na mata.

Mas o sofrimento só valoriza os troféus. Passei o feriado em Ubatuba, na região da Folha Seca, e trouxe pra casa as fotos da galinha-do-mato Formicarius colma inteirinha!; o sabiá-cica de costas mas inteiro e não apenas vislumbres como da outra vez; o gavião-bombachinha-grande, senhor da floresta; e a fêmea do sabiá-una.

A caçada ao Formicarius colma

Além dos troféus em forma de fotos, fica a memória do safári. O mais emocionante foi a caçada à galinha-do-mato. O Rafa ouviu o canto, entramos numa área de mata escura mas relativamente limpa. Elas estavam tão perto que consegui uma boa gravação. Penduramos meu gravador num galho, e de repente aparece o bichinho, uma sombra negra e vermelha passeando entre os galhos e folhas. Cochichando“ele vai sair ali”, “foi pra lá”. Após uns 15 minutos de esconde-esconde, nosso camarada sobe em cima de um galho, no aberto, e pára. Tirei umas 15 fotos, tremendo muito da adrenalina (estava sem o tripé, e minha lente não é VR), pensando se eu estava com as regulagens certas, se ia sair tremido, e por que o Rafa não estava fotografando.

O Rafa estava a um passo pra direita, mas o suficiente para ter troncos e galhos tampando a visão. Numa demonstração de sangue frio e profissionalismo, quando eu comecei a fotografar ele não deu um passo, para não correr o risco de assustar a ave. Essa galinha-do-mato é uma ave especial, que dá baile em todo mundo, tínhamos passado o feriado falando que fotografá-la no aberto era algo digno do Edson Endrigo, e quando o bicho apareceu e parou, o Rafa foi capaz de não se mover.

Sei que ele é meu guia, e eu o cliente, mas não sei se eu teria sido capaz de ficar imóvel, sabendo que o bicho estava lá, parado, a um passo da câmera. Por isso fiquei muito contente quando, mais tarde, ouvimos de novo o canto da ave, fomos atrás, o casal passou na nossa frente, e o Rafa conseguiu fotografar. Eu não consegui focar, mas o Rafa conseguiu uma ótima foto.

Hotspot inusitado

Quando você vai para a Folha Seca, assim que entra na estrada de terra, logo tem uma pequena ponte de madeira. A uns 15 metros dessa ponte, do lado direito, um casal de sabiá-unas fazia um ninho. Paramos ao ver o macho, mas logo a fêmea apareceu. Foi o Rafa que avisou “a fêmea! Tem pouquíssimas fotos dela”.

Eu estava lá, tentando uma foto na escuridão do dia nublado, quando ouço algo que nunca imaginaria ouvir naquela estrada com casa próximas, carros, bicicleta, gente “é o sabiá-cica!!”. O Rafa tinha chamado o Celeus flavescens, e quando eles vieram, junto passaram duas aves diferentes. Ao olhar com o binóculos, o Rafa se deparou com o sabiá-cica, um casal. Passaram alguns minutos com a gente, interessados no playback, Só consegui uma foto de costas, o Rafa conseguiu pegá-lo de frente. Coisas da vida.

A Elisa, a Dina Bessa e o marido estavam com a gente. Engraçado é que eu acho que devemos essa visão do sabiá-cica ao marido da Dina. Ele não é passarinheiro, então se demorou um pouquinho mais no café-da-manhã (a Dina apressando ele), mas com isso, saímos do hotel uns 10 minutos mais tarde do que sairíamos normalmente. Talvez se tivéssemos passado um pouco antes, não teríamos topado com o os sabiás-cica.

Mais tarde, na volta do Jonas, pedi para pararmos lá e tentar chamar o sabiá-cica. Nada. Mas eis que passa, voando bem baixo, um gavião-de-cabeça-cinza. Inacreditável. Chamamos muito no playback, ele respondeu duas vezes longe, mas depois silêncio. Já tínhamos desistido dele e, é claro, naquele momento em que os dois estão distraídos, pegando remédio ou comida dentro do carro, o bicho passa de volta, voando tão baixo como na primeira vez, e segurando um ramo na garra. Olhamos bastante em volta, mas não conseguimos achar o local do ninho.

Os amigos

Tive o prazer de conhecer a Eli (noiva do Rafa), a Nara (mulher do Reinaldo Guedes) a Elisa (que só havia visto de passagem no Avistar), a Dina Bessa e o Bessa – marido, a Janaína e o Luiz; o Amarildo; o Márcio Toledo; o Luiz Rondini – só de oi e tchau; a Leila Sil, o Delano. Encontrei o Marcelo e a Dri, o Dimitri, o Carlos Rizzo, o Rick e a Elis, o Emerson, o Reinaldo, o Rodrigo e a Pri. Não sei se esqueci de alguém.

Chegamos tarde ao churrasco no Palmito na Brasa, e meu vício ainda me obrigou a fazer um pequeno passeio pelo terreno porque havia um fiapo de luz, por isso não pude conversar muito com o pessoal, que já estava debandando. Não pude conversar muito, mas o clima do encontro era de total descontração. Pessoas que você só falou por e-mail, ou nunca falou. Estão todos lá, papeando, totalmente à vontade pelo simples fato de que todos gostam de aves. Um grupo de iguais, sem nenhuma desconfiança. Saí de lá com uma certeza: um encontro de passarinheiros é um encontro de amigos.