Após alguns meses de reclusão na cidade, ter contraído dengue e sua difícil recuperação, comecei a apresentar a Síndrome de Abstinência de Caminhar pelo Mato. Os sintomas clássicos começam com profunda irritação a gosto musical duvidoso, e na fase avançada culminam em ideias mórbidas do que fazer com seus vizinhos e os equipamentos sonoros deles…

Diante desse quadro sinistro resolvi aproveitar o feriado de Páscoa e tirar um dia para fazer uma trilha na mata, além de conhecer um local novo para mim.

E aproveitando minha estadia em Araçoiaba da Serra, optei por conhecer pessoalmente a Trilha dos Tucanos em Tapiraí (distante apenas 78 Km do local onde me encontrava). Digo pessoalmente porque já os conhecia pelo Facebook e também, pelo fato de alguns amigos do GRIFOO terem visitado o local recentemente.

Resolvi fazer esse passeio sem grandes pretensões ornitológicas e, desta forma, convidei a minha esposa e um casal de amigos (Alessandro e Viviane) para me acompanhar. Lembrando que eles não são (ou eram?) observadores de aves e seu interesse maior é por Botânica, em especial as orquídeas.

ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE O LOCAL

A Pousada está localizada no município de Tapiraí / SP, na serra de Paranapiacaba. O acesso se dá pela rodovia SP 79.

Ao chegar no km 164,5 desta rodovia (entre as cidades de Tapiraí e Juquiá), você deve encontrar uma placa indicando a entrada para a Cachoeira do Chá e também para a pousada. A partir deste local o acesso é por estrada de terra e percorrendo algumas dezenas de metros, existe uma bifurcação. Neste local existem novas placas indicando a rota para a Cachoeira e o desvio para a pousada.

Na ocasião em que estivemos lá, o acesso pela estradinha de terra estava bem cuidado e não tivemos grandes problemas para chegar (apenas os inconvenientes de estarmos com um carro baixo), e em poucos minutos chegamos a entrada da pousada.

Logo na chegada já fomos recebidos com muita simpatia pela proprietária do local, a Patricia, e seu filho Pedro, de apenas 10 anos, que mesmo com a pouca idade já é um grande conhecedor do local. Fomos informados que o Marcão, seu marido e também proprietário do local, havia saído para buscar novas provisões, pois novos hóspedes iriam chegar ao longo do dia. Optamos pelo day-use com almoço (R$ 50 na ocasião) e, como não estávamos interessados apenas em aves, recebemos como guia o jovem Pedro, que nos guiaria pelas trilhas e também mostraria algumas preciosidades do local, entre elas o local do ninho da maria-leque-do-sudeste (nesta ocasião já estava abandonado, mas no início do ano deu um mole!!!).

TRILHAS, RIACHOS, PLANTAS, INSETOS E MUITA VIDA!

O grande guia Pedro, lembrando quais aves foram avistadas em cada ponto da trilha. Seguimos pela trilha que levaria ao local do ninho e depois seguiríamos pela Trilha da Juruva. No caminho começamos a nos encantar com a diversidade de plantas e flores que encontrávamos. Bromélias floridas que atraiam diversos beija-flores, estavam por toda parte. algumas fixas em árvores a dezenas de metros do chão. Muitas borboletas (gigantescas) que voavam tranquilamente, próximas as copas dessas árvores.

Algumas centenas de metros distante da sede, a trilha se divide em duas e seguimos em direção à Trilha do Macuco, em busca do local de avistamento da maria-leque. No início dessa etapa a trilha é bem larga e aos poucos vai se estreitando, até chegar a uma área belíssima onde um pequeno riacho se divide entre as pedras, formando pequenas quedas d´água. Vale a pena parar por aqui e aproveitar deste espetáculo.

Novamente na trilha, chegamos ao local onde nosso grande guia anunciou ser a localização do ninho da maria-leque, mas infelizmente não tivemos a sorte de encontrá-la, restou “apenas” poder contemplar a beleza desse local.

Um pouco mais à frente encontramos uma nova bifurcação e seguimos em direção à Trilha da Juruva. Um trecho levemente inclinado e logo estávamos em uma área de mata mais fechada, o que era bom pois já estávamos próximos do meio-dia.

Nosso guia começou a apresentar sinais de cansaço e optamos por voltar, mas quero deixar registrado que ficamos muito felizes em ver uma criança, nos dias de hoje, se dispor a caminhar pelo mato, conhecer as aves e animais, sentir-se orgulhoso em poder colaborar e guiar as pessoas e, principalmente, ficar algumas horas longe do computador e dos games. Merece os nossos parabéns pela disposição e determinação.

UM POUCO SOBRE AS AVES

É claro que eu não conseguiria ficar imune as aves, principalmente em um local privilegiado como este.

A área encontra-se no maciço florestal de Paranapiacaba, sendo a predominância de Mata Atlântica, e acredito que algumas árvores daqui são centenárias. Acho que isto dá uma noção do que podemos encontrar por aqui. Dessa forma, combinei com o nosso guia para que ele levasse as meninas de volta a sede e eu seguiria, juntamente com o Alessandro, um pouco mais atrás, fotografando as aves do caminho.

Poucos minutos depois, com muito silêncio nas trilhas, comecei a ver movimentos nas árvores e logo consegui dois lifers para mim: limpa-folha-ocráceo e arapaçu-escamado-do-sul.

Além desses pássaros avistados, pudemos ouvir uma verdadeira sifônia de sons e chamados, mas meus conhecimentos nesta área são limitadíssimos e não saberia identificar nenhum deles… Bem, quase nenhum! Em determinado ponto da trilha, já bem perto da sede, ouvi um som conhecido, bem próximo de nós e a alguns passos da trilha. O som era inconfundível… Tratava-se de um macuquinho (Eleoscytapolus indigoticus).

Conhecia o som, pois havíamos tomado uma surra deste sujeitinho, em nossa viagem a Reserva Salto Morato, no Paraná. Ficamos por mais de uma hora tentando avistá-lo e não conseguíamos, parecia coisa de lenda da floresta… Mas ali naquele local, ele parecia estar bem perto. Nessa hora eu estava sem nenhum artefato para play-back e achei melhor voltar depois, caso encontrasse algo que pudesse ser usado.

O aroma da cozinha já nos alcançava na trilha e resolvemos almoçar, para depois podermos continuar as trilhas…Que ilusão a minha! Nossos anfitriões nos aguardavam com uma suculenta feijoada, com tudo o que se tem direito neste prato altamente light e que deixa todo mundo animado após a sua ingestão!

E o Marcão já estava de volta a pousada, portanto foi a deixa para podermos conversar e nos conhecer. Realmente são pessoas muito simpáticas e atenciosas. Alguns amigos do casal também foram chegando e a conversa se prolongou por um bom tempo.

Aproveitei a pausa de meus companheiros de viagem e fui fazer algumas fotos dos beija-flores nos bebedouros e de algumas aves que começavam a procurar os comedouros. Acabei conhecendo pessoalmente o Marco Cruz, que acabava de chegar e iria ficar hospedado por ali. Coincidentemente, ele havia fotografado o macuquinho nesse local, mas em um lugar diferente daquele que eu havia ouvido.

Já que ele tinha um bom play-back, fomos juntos conferir a minha dica e demos sorte… Até demais. Nem bem havíamos colocado o aparelho entre as folhas e o nosso amigo passou por cima deste, bem no aberto, mas nós nem tínhamos empunhado as câmeras. Resultado: Começamos novamente, mas dessa vez ele não apareceu em local tão aberto. Faz parte!

De volta aos comedouros pude fotografar algumas espécies comuns nesses locais, mas também um tico-tico-do-mato, que calmamente se alimentava de quirelas. Parece que este comportamento não é muito usual desta espécie.

Mas faltava ainda percorrer uma outra parte da trilha e chegar até uma árvore enorme que existe no interior da mata. Portanto reunimos o que restava de forças e seguimos pela mata, através das indicações de nossos amigos do local. Passamos pelos chalés que são usados pelos hospedes e aproveitamos para conhecer a estrutura dos mesmos. São chalés simples, bem arrumados e que acomodam até 4 pessoas. O valor do tarifário pode ser combinado com os proprietários.

Seguindo adiante existe um belo lago (cheio de bromélias também) e logo acima a trilha se reinicia. Um comentário sobre as trilhas: Todas estão em excelente estado de conservação e manutenção. Talvez em parte pelo fato do local ser novo, mas também pelo cuidado dispensado pelos proprietários. As descidas e subidas possuem degraus com madeira, dando assim maior segurança na caminhada, principalmente quando se carrega alguns quilos de equipamento nas costas.

Seguimos as orientações que nos haviam passado, mas infelizmente não alcançamos a tal árvore, pois um trecho da trilha havia desbarrancado. Parece que alguma árvore caiu com o mau tempo e levou junto tudo o que estava no caminho.

Devido ao horário avançado, não poderíamos percorrer a trilha pelo sentido contrário, optamos então por voltar e continuar a observar a paisagem.

De volta à pousada, já estavam nos esperando com aquele café quentinho e um saboroso bolo de milho, muito bom para recompor as energias e seguir viagem.

Fica a vontade de voltar a esse local incrível, hospedar-se nos chalés… Promover um curso de Fotografia, quem sabe? A única coisa que podemos afirmar é que recomendamos o local com louvores. Seus proprietários são novos no ramo, mas estão com muita vontade de fazer dar certo, abertos a sugestões e principalmente, cheios de simpatia. Abraço aos novos amigos.

 

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