Algumas vezes recebemos presentes inesperados, sem saber porque. Aconteceu comigo no aniversário do ano passado.

Saíra-douradinha (Tangara cyanoventris) Gilt-edged Tanager

 

Fotografar passarinho dá trabalho e às vezes é muito frustrante. Depende de paciência e, muitas das vezes, de sorte.

O sítio de minha família, em Martins Soares – MG, é um local muito interessante, pois tem diversos habitats com várias espécies de aves concentradas em uma área pequena. Em pouco mais de 20.000 m2 já registramos mais de 100 espécies. Algumas vêm e vão, ficando sumidas por muitos anos, outras são figurinha fácil, podendo ser encontradas a qualquer momento.

Há lá uma família de anumarás (Curaeus forbesi) que vai e vem todo ano. Um casal de sofrês (Icterus jamacaii) chocou em um ninho de joões-de-pau (Phacellodomus rufifrons) no final do ano passado e pelo menos dois filhotes escaparam. Sempre há alguma surpresa me esperando quando apareço para fazer umas fotos.

Sexta-feira passei por lá e os terreiros estavam cheios de café secando. Lavadeiras, bem-te-vis, furnarídeos em geral gostam muito desse período porque a umidade existente nas cerejas do café atrai vários invertebrados que fazem a festa. Até os quero-queros se aproveitam da fartura.

Enquanto eu me divertia com essa turma que está sempre por lá, um bando de saíras-douradinhas (Tangara cyanoventris) pousou no grande ipê-amarelo que tem logo ao lado de um dos terreiros. Ele estava completamente sem folhas e repleto de botões prestes a explodir. Era fácil vê-las nos galhos, mas como o ipê é uma árvore muito alta, não consegui boas fotos pois, além de tudo, elas não paravam quietas e logo voaram para outras árvores mais distantes onde sumiram entre a folhagem. Fiquei aborrecido por não terem descido um pouco e me dado chance de conseguir fotos melhores, mas esse é um dos fatos-da-vida de quem quer pegar passarinho. Eles não costumam dar muita colher-de-chá.

Terminei de registrar as espécies que havia ali em volta dos terreiros e resolvi fazer a ronda na estrada que leva ao cafezal. Logo depois de se atravessar a ponte sobre o córrego, passa-se entre algumas árvores altas e a lavoura. Ali sempre se acham alguns bichos interessantes.

Aproveitei a sombra das árvores e me sentei um pouco, esperando por algum beija-flor, ou o teque-teque, ou a tietinga que estão sempre por ali.

Para minha surpresa, sem aviso, vi-me envolto em uma roda-viva azul e amarela. O bando das saíras veio forragear exatamente à minha volta, pousando em galhinhos baixos, a menos de 1 m de mim, num vai e vem constante, pegando lagartas e borboletinhas em todo canto. Foi um dos momentos mais bonitos que já vivi nessa busca por passarinhos. Como presente de aniversário, não podia ser muito melhor.

As fotos que consegui, na confusão e emoção do momento, estão aí.

Daniel Esser

28/07/2011