Segundo consta, a Petrobras, à procura de petróleo, abriu uma série de pequenas estradas por dentro do Raso da Catarina. Em 2011 eu e o Stephen Jones, montados na caçamba de um trator, entramos uns 15 km por essas estradinhas para fotografar as aves típicas da Caatinga.

Choró-boi M (Taraba major) Great Antshrike

 

O Steve já tinha todo o esquema com um sitiante – o sujeito tinha a voz tão parecida com o cantor Elomar que perguntei se não se conheciam – dono de um sítio que faz divisa com o Raso e que conhecia bem a região, pois deixava seu gado pastando dentro da Caatinga. Conversando com esse sitiante descobri que ele havia trabalhado muitos anos em São Paulo nas metalúrgicas do ABCD, fez uma poupança e voltou para sua terra: o trator, a casa e o sítio demonstravam a pujança dele diante da pobreza dos habitantes da região.

Lugar fascinante e perigoso é o Raso da Catarina. Lugar de histórias de volantes e cangaceiros. Há uma passagem em Grande Sertão: Veredas que menciona o Raso da Catarina exatamente para falar de um lugar onde os jagunços penavam com sede e com fome em suas andanças e fugas.

A areia é fofa demais e não deixa rastros. Os cenários são muito parecidos e é difícil estabelecer referências. Eu e o Steve tomamos todos os cuidados por que qualquer descuido e você se perde no labirinto. Na Caatinga em poucas horas se fica desidratado.

Corre uma história na região que um engenheiro de São Paulo que foi trabalhar na Hidrelétrica de Paulo Afonso era um caçador de fim de semana e resolveu correr atrás dos bichos da Caatinga. Em uma das vezes que foi caçar não voltou e foi achado alguns dias depois morto com o corpo todo arranhado – a Caatinga também é conhecida pela quantidade de espinhos de sua vegetação.

Como disse Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso.

Mas esse dia maravilhoso em que conheci o Raso da Catarina e consegui fotografar uma série de aves típicas terminou mais inclinado para o João Grilo de o Auto da Compadecida do que para o Riobaldo de Grande Sertão: Veredas.

Já no caminho de volta passamos por um vilarejo em que a grande atração é um restaurante em que o prato principal eram os bodes que ficavam pendurados ao lado da churrasqueira para serem estripados ao gosto do cliente e ao sabor das moscas. Aos finais de semana as famílias e amigos da vila se reúnem em evento social para comer um bodinho. Não me esqueço do Steve – o inglês mais nordestino de que já se ouviu falar – perguntando para mim: Luiz vamos comer um bodinho?

Eu e o Steve, branquinhos e vestidos com roupa de camuflagem nos tornamos o centro das atenções do lugar. Bebemos uma boa cerveja e comemos um bode como só se pode comer no sertão nordestino. Acho que nunca agradeci corretamente por essa experiência única: Obrigado Steve!

Alguns registros desse dia foram o tuim (Forpus xanthopterygius), o chorozinho-da-caatinga (Herpsilochmus sellowi), o choró-boi (Taraba major), a choca-barrada-do-nordeste (Thamnophilus capistratus), choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus), o rapazinho-dos-velhos (Nystalus maculatus), etc.