O tempo não ajudou muito, mas é sempre bom estar no meio de uma grande extensão de Mata Atlântica, tendo a oportunidade de ver araçari-poca, corocochó, sabiá-una, surucuás se alimentando do fruto do palmito. O local também tem marias-pequenas amestradas, que descem ao som do playback. E dois lifers que eu não esperava: o trepador-sobrancelha e o tropeiro-da-serra.

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Surucuá-grande-barriga-amarela. Temo que foi o barulho das nossas câmeras que o fez derrubar o frutinho do palmito. Ainda bem que não era o último.

 

  • Saída em grupo guiados pelo Adrian Eisen Rupp. De 26 a 28 de julho de 2013.
  • Em Iporanga – SP, Petar – Parque Estatual Turístico do Alto do Ribeira. Estada na Pousada da Diva
  • Texto e fotos: Claudia Komesu. Câmera: Nikon D800 com lente Sigma 50-500 VR e Nikkor 300 f4.

Cheguei do Pantanal no dia 24/07 à noite. Durante minha viagem tinha sido aniversário do meu pai e da minha irmã. Uma pessoa normal tentaria passar o fim de semana com pelo menos um dos dois. Passarinheiros malucos pedem perdão pra família e vão viajar.

Foi assim que, a convite da Dina Bessa, ingressei no passeio no Petar. O grupo tinha a Dina, o José Elias – marido da Dina, a Silvia Linhares, a Hideko Okita e a Rosemarí Julio. O guia era o Adrian Eisen Rupp.

Iporanga é uma das cidades mais famosas no mundo passarinheiro brasileiro. É o lugar onde, uns meses atrás, um casal de gavião-de-penacho decidiu fazer um ninho numa borda de mata. Acho que todos que foram, e se dispuseram a ficar pelo menos algumas horas, conseguiram fotos muito boas. Eu não fui porque… porque tenho lá minhas peculiaridades.

O filhote do gavião-de-penacho já deixou o ninho, mas é um lugar com muitas oportunidades. Uma mata grande, extensa. Para você ter uma ideia, há uns dias atrás um dos moradores de Iporanga viu um gavião diferente, fotografou com o celular, mandaram a foto pro Adrian: era um gavião-pato. O dono da pousada onde ficamos, o Junior, foi correndo lá para fotografar, registrou, e postou no Wikiaves como gavião-pato. Mas estava errado: nesse meio tempo o gavião-pato tinha ido embora, e o gavião que ele viu e fotografou era um jovem gavião-de-penacho. Perto de Iporanga, na cidade de Eldorado, sabem de um outro ninho de gavião-de-penacho, mas num local não tão fácil como o que ficou famoso.

A viagem da ida demorou. Teoricamente são 4h de estrada, mas levamos 7h graças a um acidente na Regis. Chegamos à noite e fomos corujar. A corujinha-sapo até respondeu, mas nada de querer chegar perto.

No dia seguinte fomos para o parque. Logo no começo da trilha, muitos palmitos com frutos. O Adrian explicou que infelizmente só nos locais turísticos é possível ver aquela festa de aves se alimentando. Nas regiões mais afastadas os palmiteiros reinam. A administração do parque queria abrir uma trilha para mochileiros que passava por uma dessas matas, os palmiteiros ameaçaram de morte.

Por isso, por favor, não compre palmito, não coma nada com palmito nessa região. Só compre palmito se você tiver certeza de que veio de uma plantação. Mas em lugares como essas regiões de Mata Atlântica, geralmente vem de coleta ilegal que é uma tragédia para muitos bichos.

O Adrian contou que guiou um casal um tempo atrás. Pararam pra comer um pastel numa beira da estrada, e a moça pediu um pastel de palmito. Adrian: “toda vez que você come um pastel de palmito, dois araçaris caem mortos no chão”.

Fomos caminhando devagar pela trilha. Logo no começo, corocochó, araçari-poca. Mais pra frente, surucuá-grande-de-barriga-amarela. O tal casal de marias-pequenas amestradas. Eu já havia visto essa ave em Intervales, e sei que vê-la no aberto, no limpo, com luz, é uma oportunidade e tanto. A Rosemarí animada o tempo todo puxou um coro de “ah, que fofinho”, quando viu a maria-pequena bem linda no visor da câmera. Olhei pra cara do Adrian “Você já guiou grupo de mulheres?” “Já guiei a Silvana e a Celuta” “Não, grupo mesmo, várias mulheres” “Não”, e acho que sorri do tipo “se acostuma”.

O Adrian era muito gentil, mas não se avexava em dizer “Agora vamos descer por esta trilha, mas em silêncio”.

Outros bichinhos típicos da boa Mata Atlântica: papa-moscas-de-olheiras, não-pode-parar, barranqueiro-de-olho-branco, catirumbava, assanhadinho, cabeçudo, tangará, saíra-militar, ferro-velho, tiê-de-topete, tiê-do-mato-grosso, limpa-folha-ocráceo. Arapaçu-de-garganta-branca bem de perto. Entufado e olho falso responderam mas não deram chance pra foto. Lindas fotos com o periquito-rico comendo coquinho.

No fim do dia fomos espiar o rio onde o socó-boi-escuro costuma ficar, mas sem sucesso. E depois fomos para uma área mais aberta, onde havia curió e bico-de-veludo, lifer para algumas pessoas do grupo, inclusive pro Adrian (parece que no Sul ele não é comum).

À noite fomos corujar de novo, e foi uma das noites mais estreladas que já vimos. Dá pra esquecer que o céu tem tantas estrelas. Infelizmente estava muito frio, e todas as corujas e bacuraus deviam estar juntas, em volta da lareira comendo fondue.

O dia seguinte amanheceu bem nublado, frio e silencioso. O Adrian tentou vários playbacks, mas enquanto o sol não apareceu, a partir das 9h, nada de aves. Do mirante a vista era muito bonita, e alguns andorinhões-de-sobre-cinzento sobrevoavam a área.

Apareceram: juruva-verde, choquinha-de-peito-pintado, trovoada, olho-falso de novo, e depois falcão-caburé, macuquinho cantaram mas nada de aparecerem, surucuá-de-barriga-amarela, surucuá-variado, surucuá-grande-de-barriga-amarela, pica-pau-anão-de-coleira, benedito-de-testa-amarela. Mas fora os surucuás, nenhuma deu chances de fotos melhores.

É sempre uma emoção ver uma ave que você não sabe quem é. Algumas são tão famosas que você reconhece imediatamente. Outras, se você não é muito entendido, como eu, você só sabe a família ou não tem ideia. No Pantanal foi muito legal ver um tinamídeo, e depois saber que era um jaó. Em Iporanga foi a vez do tropeiro-da-serra. Um tanto longe, mas bonito de ver. O Adrian estava com a Rosemarí um pouco mais pra frente, atraindo o Trogon rufus pra ela, então quando o tropeiro apareceu a gente não sabia o que era. Cor de sabiá, porte de araponga, comendo uma bela lagarta. Então o Adrian apareceu, disse o que era, tentou o playback, mas o bicho não estava interessado.

Voltamos pra pousada, almoçamos. Na hora de ir embora, um pica-pau-bufador apareceu no quintal, causando muita sensação. “É lifer pra todo mundo?”, falei a verdade, mas fui vaiada, podia ter mentido.

A viagem foi muito divertida. Eu tinha decidido ir principalmente pela companhia, mas sem nenhuma expectativa de fotos ou lifers. A Dina, o José Elias e a Silvia eu já conhecia. Foi um prazer conhecer a Rosemarí, a Hideko e o Adrian. A Rosemarí é uma peça rara, muito engraçada, alegre e besteirenta (calcinhas de plástico – em vez de tacinhas de plástico, o pequenininho que satisfaz, pica-pau-de-bunda-branca, entre outras pérolas). A Hideko parece quieta, típico, mas você precisava vê-la com a língua de fora sapateando quando soube que o Adrian ainda não tinha foto do bico-de-veludo (e agora ela tem). E o Adrian, talvez você o tenha visto num Avistar e achou que ele é um alemão formal, mas é só uma primeira impressão, ele é muito simpático e piadista também. A gente vendo um tiê-de-topete fêmea, ele olhou com o binóculo e explicou “não é uma fêmea, é um jovem macho, já dá pra ver a plumagem mudando… se bem que hoje em dia, nunca se sabe.” Um ótimo guia, que não esconde seu injuriamento quando os bichos não aparecem (não é culpa de ninguém, fazer o quê), e também ajuda nas regulagens das câmeras.

Sobre o Petar, dá pra ver que o local tem muito potencial, mas Mata Atlântica fechada nunca é fácil. Me impressionou a quantidade de palmitos com frutos na beira da estrada, vale a pena andar por essas trilhas e aproveitar as aves que vão comer os frutinhos no inverno. Além das aves garantidas nos frutos de palmito, você ainda corre o risco de topar com um gavião-de-penacho ou um gavião-pato.

 

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