Em novembro de 2011 fui ao Peru para participar do Congresso de Ornitologia Neotropical e aproveitei para concretizar o sonho de conhecer os barrancos dos quais muitos psitacídeos se alimentam na Amazônia, conhecidos como clay licks, localizados na Reserva Nacional de Tambopata, município de Puerto Maldonado, na fronteira com o Brasil e Bolívia.

 

Texto e fotos: Renata Biancalana

Como os voos até Puerto Maldonado só saiam até cerca de 13h de Cusco e eu chegaria às 15h me foi recomendado pegar um ônibus noturno até Puerto Maldonado, saindo às 20h, e que chegaria de manhã cedo, com tempo para fazer uma saída pelos arredores da cidade antes de embarcar rio acima até o lodge. A viagem de ônibus embora muito cansativa, cerca de 10h (de avião dura 45 min), foi confortável. O ônibus tinha cadeiras de couro, do tipo leito, que reclinavam praticamente 180o, com ar condicionado e um lanche de bordo, muito simples.

A recepção em Puerto Maldonado não foi animadora, a rodoviária era extremamente suja e escura e meu guia não estava quando meu ônibus chegou. Parecia cena de filme, com as galinhas andando livremente entre os ônibus. Após esperar algum tempo, Jorge Borja, que seria meu guia pelos próximos 3 dias chegou com um motorista do lodge. Jorge além de falar português, inglês e espanhol fluente é muito cuidadoso e atencioso, me levou a alguns locais próximos ao rio Madre de Dios (nosso rio Madeira) e tinha interesse em encontrar meus lifers.

Fiquei das 7h até cerca de 11h fazendo observação de aves. Algumas espécies observadas foram Anhima cornuta (anhuma), Sporophila angolensis (curió), Ortalis guttata (aracuã), Orthopsittaca manilata (maracanã-do-buriti), Aratinga weddellii (periquito-de-cabeça-suja), Amazona farinosa (papagaio-moleiro), Cyanocorax violaceus (gralha-violácea), Paroaria gularis (cardeal-da-amazônia), Brachygalba albogularis (agulha-de-garganta-branca. Em maio de 2012, havia apenas 3 fotos dessa espécie no Wikiaves) e Sturnella militaris (polícia-inglesa-do-norte)

Fomos para o lodge Wasaí, às 11h. Havia café da manhã, e um quarto livre para que eu pudesse descansar um pouco antes de pegar o barco.

Às 13h fomos de carro, eu, meu guia e mais quatro pessoas, cerca de 20km de PM, até a beira do rio Tambopata. De lá, um barco do lodge nos esperava. A viagem pelo rio Tambopata até o hotel dura 3 horas, com uma parada obrigatória em um posto de controle para pagamento de uma taxa de visitação. Durante a viagem de barco foi servido um almoço típico, enrolado numa folha de bananeira. O Wasaí Lodge é o hotel mais próximo da Reserva Nacional Tambopata (o famoso Research Center fica 4h a mais de viagem pelo rio). Possui algumas trilhas para observação de aves e é completamente rodeado de ninhos de Psarocolius angustifrons (japu-pardo). Os quartos eram simples, com mosquiteiro, telados e sem água quente. A energia elétrica funcionava somente das 18h às 22h.

No dia seguinte fomos ao famoso clay lick “El Chuncho”, 1h de viagem de barco rio acima, dentro da Reserva Nacional. Saímos às 4h e chegamos quando o dia estava claro. Ficamos numa espécie de “ilha” bastante afastados do clay lick. É importante ter uma luneta/binóculos com bom alcance ou lente com mais de 400mm. Há uma hierarquia na chegada das espécies de psitacídeos ao clay lick, sendo que os Pionus menstruus (maitaca-de-cabeça-azul) são os primeiros e as araras praticamente não se misturam com os de menor porte. Algumas espécies observadas foram Aburria cumanensis (jacutinga-de-garganta-azul), Neochen jubata (pato-corredor), Patagioenas cayennensis (pomba-galega), Pandion haliaeteus (águia-pescadora), Ara macao (araracanga), Ara ararauna (arara-canindé), Ara chloropterus (arara-vermelha-grande), Aratinga weddellii periquito-de-cabeça-suja), Amazona farinosa (papagaio-moleiro), Amazona ochrocephala (papagaio-campeiro), Pyrilia barrabandi (curica-de-bochecha-laranja), Primolius couloni (maracanã-de-cabeça-azul), Chaetura brachyura (andorinhão-de-rabo-curto), etc.

Tomamos café lá mesmo, e voltamos ao lodge com uma chuva que praticamente acabou com nossos planos de fazer qualquer observação até cerca de 15h. Após o almoço saímos por uma trilha próxima ao lodge.

No dia seguinte fomos embora do hotel em direção de volta a Puerto Maldonado. O plano era ir com meu guia até o lago Tres Chibadas, distante 5km da beira do rio, percurso que se faz a pé numa trilha muito interessante, almoçar, remar pelo lago e esperar um barco, que não era o do lodge, ir nos buscar às 16h na beira do rio para nos levar de volta a Puerto Maldonado.

A trilha ao redor do lago nos deu muitas surpresas: Pulsatrix perspicillata (murucututu), Brotogeris sanctithomae (periquito-testinha), Galbula cyanescens (ariramba-da-capoeira), Cercomacra manu (chororó-de-manu), Baryphthengus martii (juruva-ruiva), Spizaetus melanoleucus (gavião-pato), Crypturellus undulatus (jaó), Legatus leucophaius (bem-te-vi-pirata), etc.

Mais tarde, como estava muito quente e o horário também não ajudou vimos poucas espécies, com algumas ariranhas de bônus: Megaceryle torquata (martim-pescador-grande), Pandion haliaeteus (águia-pescadora), Opisthocomus hoazin (cigana), Ara chloropterus (arara-vermelha-grande), Daptrius ater (gavião-de-anta), Sclateria naevia (papa-formiga-do-igarapé), etc.

Infelizmente a agência que eu havia contratado para nos buscar na beira do rio às 16h e nos levar de volta a Puerto Maldonado nunca apareceu e eu e Jorge tivemos que procurar ajuda para voltar à cidade por meios próprios. Chegamos à comunidade de Infierno na beira do rio Tambopata por volta das 19h, famintos e sem água. Pagamos um carro do próprio bolso para nos levar até o hotel.

Fiquei ainda mais oito dias no Peru sem maiores problemas. Recomendo fortemente essa viagem a quem quiser ver um show de psitacídeos, o tempo todo, o dia inteiro. Os peruanos são muito hospitaleiros e recebem os turistas, principalmente os brasileiros com muita alegria, voltaria com certeza.