Um inacreditável pequeno trecho de Mata Atlântica na beira da Marginal. Árvores altas, palmeiras juçara, tranquilidade, (mas pressão de empreendimentos) num dos poucos parques brasileiros que fala abertamente e com destaque sobre o birdwatching

Continuando nossa rodada pelos diversos parques de São Paulo, na semana passada fomos conhecer o Parque Burle Marx. Eu sabia que o amigo Vinicius Neves conhecia o local, pedi algumas indicações de pontos, vi fotos do Wikiaves, peguei sons de aves, e fomos lá de manhã.

O parque abre às 7h. Se você se programar para chegar um pouco antes – pode começar passarinhando na área do estacionamento, e não pega trânsito (são 15 minutos da zona oeste, 6 minutos da zona sul).

O Burle Marx é um parque municipal público, o único em São Paulo no modelo PPP (Parceria Público Privado). Administrado pela Fundação Aron Birmann, não recebe verba da prefeitura para a manutenção e conservação do espaço. O Vinicius havia dado a dica de ir até a administração assinar o tal termo de não comercialização das imagens, mas às 7h ainda não havia ninguém. Um segurança do parque veio nos dizer que era preciso ter a autorização, mas explicamos que era hobby, que a administração ainda não estava aberta, e ele entendeu. Em outros lugares, sei que teriam mandado a gente guardar a câmera ou até ir embora.

O segurança comentou algo que estou para checar: ele disse que eles cobrariam uma taxa de R$ 30. Falei que não, porque não era fotografia comercial, era só por hobby. Mas achei interessante, porque R$ 30 é o valor que eu considero razoável para um fotógrafo profissional de book pagar. Pelo o que eu sei, hoje as taxas em parques públicos são algo como R$ 3.000 por dia, porque são feitas imaginando locação do lugar para gravação de um comercial.

As pessoas que escrevem as famosas portarias dos parques públicos não pensam na existência de fotógrafo de book de casal, de grávida, de criança, e menos ainda nos fotógrafos de natureza, que poderiam ajudar muito na divulgação dos locais e da própria natureza brasileira. Em vez de pensar na divulgação ampla em Facebook e outras redes sociais, só pensam em taxar e proibir.

Mas voltando ao passeio. O local é fácil de chegar: o Waze sabe onde é, basta prestar atenção nas placas quando estiver chegando para não perder a entrada. Entrando no parque, do lado esquerdo da administração, ao lado das escadarias, vimos abre-asa-de-cabeça-cinza, mariquita, alma-de-gato, cambacica. Perto do lago, seguindo a dica do Vincius, tem o famoso pica-pau-de-cabeça-amarela, um casal, que respondeu prontamente ao playback – mas nada de posar em local bom. No lago, garça-branca-pequena, savacu jovem, socozinho, bem-te-vi, várias tartarugas, e algumas aves exóticas (cisne-negro e um pato norte-americano). Em todo o parque, vários sabiás-laranjeira e sabiás-barrannco.

O lago rendeu ótimas fotos da garça e do socozinho, que caminhava muito tranquilo, pescando pequenos peixes, aparentemente alheio à nossa presença e a de uma mãe com filhinho pequeno, pra quem falamos os nomes das aves e contamos que o Brasil é o segundo país do mundo com mais espécies de aves. Nunca perdemos uma oportunidade de dizer que somos observadores de aves e que o Brasil tem muitas aves.

O parque é muito bem cuidado e agradável – e não parece ter problemas com segurança, mas não é fácil para fotografar. Os trechos de mata são com árvores altas e pouca luz. O Vinicius disse que por isso até prefere o estacionamento (que logo vai deixar de existir, devido à construção de uma nova ponte na marginal), mas como era nossa primeira vez lá, não deixaríamos de passear pelo parque.

O Gestor Ambiental do Parque, Thiago Santos, nos contou que o parque tem planos para incentivar o birdwatching no parque, com criação de uma área no site para mostrar as fotos feitas pelos visitantes e instalação de comedouros e placas (só precisam de um parceiro). Isso seria fantástico, um comedouro é uma das melhores formas de chamar atenção para as aves e a natureza, adoraria que os parques públicos entendessem isso e também adotassem comedouros. Quantos birdwatchers começaram o hobby-paixão-vício depois de ver num comedouro, com seus próprios olhos, de perto, aves lindas que eles nunca imaginaram existir.

Há muitas palmeiras juçara, e agora no inverno, quando frutificam, com certeza vale a pena mais visitas. Não vimos, mas sabemos que pavó já foi registrado no parque. Também há pica-pau-de-banda-branca, corujinha-do-mato, maracanã-pequena. No fim do passeio topamos com uma pomba, que depois descobri ser uma juriti-gemedeira. Ela não é rara, mas como várias da família, é bastante arisca. Foi a primeira vez que vi uma.

Apesar de não ter rendido muitas fotos, e ter que falar que por enquanto fora o lago não há muitas situações garantidas, recomendo bastante o passeio como um local bonito na área urbana, tranquilo, e com o grande mérito de possuir uma administração que reconhece a existência do birdwatching e quer incentivá-lo.

Aliás, se você tem ou fizer fotos no Burle Marx, envie para o Thiago: manejo@fab.org.br, com permissão para usar na divulgação do parque. Nossas fotos de ave e outros bichinhos da natureza sempre ajudam a mostrar a riqueza de um local.

PS: ouvi dizer que essa aproximação do parque com o birdwatching é mérito de um colega birdwatcher, que entrou em contato com a administração, falou do Wikiaves, do Virtude, entregou folhetos, mandou e-mails. É uma história inspiradora. Sei que nas áreas públicas é tudo muito mais complicado, e que no caso do Burle Marx o fato de ser de uma Fundação ajuda bastante, mas devemos saber que nossas ações sempre fazem diferença. Pode não render resultado imediato, mas há valor em qualquer ação que promova a aproximação das pessoas com a natureza.

 

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