Já estava começando a ficar entediado quando me aparece do nada o primeiro ponto alto do dia, um choro-boi macho. Baixinho, em uns arbustos, até mesmo descendo ao chão, sobre umas pedras, a procura do café da manhã. Mansinho, sem medo das pessoas. Aliás, uma característica da avifauna da Pampulha essa mansidão. Desde que não se saia dos limites. Basta querer descer o talude gramado para que fujam todos em disparada. (…)

Choró-boi – M (Taraba major) Great Antshrike

 

05:00. Despertador – modo soneca. 05:05. Despertador – modo soneca. 05:10… 05:15… 05:30! Agora não dá para enrolar mais. Levantar, comer, arrumar-se, carro – 06:25.

06:45 – Mirante das Garças. Ninguém. Tudo bem, está cedo ainda. Vamos ver o que temos por aqui enquanto o pessoal não chega.

Assim começou, para mim, nossa saída programada para a Lagoa da Pampulha. Uma das melhores que já fiz.

Logo no início apenas as aves de sempre, garças-brancas, grandes e pequenas, socozinho, irerês, sabiás-do-campo, bicos-de-lacre, biguás, quero-queros barulhentos, anus-pretos, goderos. De repente chegam quatro carcarás, voando baixo. Dois pousam no alto de uma árvore e começam a fazer seu display com gritos ásperos e bonitos. Muito longe, só dá para 2 fotos daquelas “só para registro”.

Enquanto ninguém chega, sou obrigado a ficar no Mirante das Garças, nosso ponto de encontro. Já estava começando a ficar entediado quando me aparece do nada o primeiro ponto alto do dia, um choro-boi macho. Baixinho, em uns arbustos, até mesmo descendo ao chão, sobre umas pedras, a procura do café da manhã. Mansinho, sem medo das pessoas. Aliás, uma característica da avifauna da Pampulha essa mansidão. Desde que não se saia dos limites. Basta querer descer o talude gramado para que fujam todos em disparada. Logo depois, um carão dá as caras. Ainda feliz com o choro-boi, encontro velhos conhecidos que estavam sumidos há bastante tempo, um casal de japacanins. Belíssimos. Pela primeira vez os ouço e os vejo fazendo o chamado que lhes dá um de seus nomes populares – assobia-cachorro. Uma beleza. Um João-de-barro solitário procura o que comer na grama aparada do talude. Logo se juntam a ele uma fêmea de dó-ré-mi e um suiriri-cavaleiro. Uma fêmea de papa-capim (impossível para mim saber qual) também aparece. De repente, lá no meio da água um pontinho meio rosa, desbotado, me chama a atenção. Lá está outro destaque – o colhereiro, enfeitando a lagoa.

Chega o Pedersoli. Bom papo enquanto aguardamos mais gente. Fotos dos pernilongos-de-costas-brancas, para ver se há algum de-costas-negras e confirmar o belíssimo registro que ele fez a uns poucos dias atrás. Com o Pedersoli a lista imediatamente começa a crescer, o ouvido dele, para mim, é meio miraculoso. Imediatamente ouve e identifica um baiano cantando sobre uma taboa. E segue crescendo a lista, tuins, periquitos-de-encontro-amarelo, tiziu! Caramba! Eu não haver percebido um tiziu cantando? Cumã!? Uma estrelinha resolve nos presentear. Chega, pousa em um local limpinho e começa a cantar. Fotos e mais fotos, pena que de longe.

Daí um bocado chega a Cristine. Resolvemos que já esperamos demais e descemos para a beira da lagoa, entre a vegetação que há por ali, nas imediações do mirante. Uma coleção de bem-te-vis, mais de 20, se aglomera em duas arvorezinhas baixas, ao lado de uma poça d’água não muito grande. Nunca havia visto tantos assim, juntos. Logo vimos o carão, à procura dos caracóis de que tanto gosta. Havia inúmeras cascas vazias pelo chão, demonstrando bem que ali é um bom local para suas refeições.

Com um playback discreto, os choros-boi vêm literalmente voando. Dessa vez, o casal. A fêmea bem diferente do macho, um pouco mais discreta, porém belíssima. Mais um monte de fotos. De repente, um canto baixo nos alerta para o terceiro bicho espetacular (ao menos para mim) do dia – o caboclinho. Na hora, dúvidas e mais dúvidas. Estava longe, canto baixo, diferente de tudo que eu conhecia e também duvidoso para o Pedersoli. Fotos, contraluz, difícil. Vamos registrar e procurar confirmação depois. Mas a ignorância do leigo me dá a certeza de que só pode ser ele. Lá no meio da vegetação um pia-cobra resolve se fazer passar por azulão. Sempre me dá a esperança de que é o azul e não o amarelo que está a cantar. Daí um pouco ele aparece para desfazer minha expectativa. Lindo, com sua máscara negra.

A lista avança: lavadeira-mascarada, pombão, marreca-caneleira, frangos-d’água, rolinha. Biguatinga! Voando sobre a Ilha dos Amores. Passa apressado o falcão-de-coleira, sem chance de fotos, mas deixando a alegria de saber que anda por lá. Os japacanins voltam em resposta ao playback, para que a Cristine faça fotos deles. O caboclinho (?) volta, contraluz de novo, canta um pouquinho e se vai deixando as mesmas dúvidas de antes. Será? Mais fotos dos japacanins que se recusam a ir embora.

Avançamos por entre a vegetação rumo à margem da lagoa. Um bando de pernilongos levanta voo rasante sobre a água. Um espetáculo. Fotos rápidas. Pousam mais ao longe juntando-se a outro bando que por lá já estava. Garças passam voando lentamente, majestosas e lindas, com suas vestes nupciais. Precisamos descobrir onde é o ninhal, para fazermos uma visita. Uma capivara se arranca do meio do capim e mergulha espalhafatosamente, dando-nos um susto. Ainda bem que estamos na estação chuvosa, senão, já estaríamos cobertos de carrapatos. Sentindo a deixa, 4 carrapateiros vêm sobrevoar o taboal, para contrariedade dos dó-ré-mis que estão chocando e não gostam nada desses visitantes.

Margeando um pouco mais a lagoa, deparamo-nos com 3 maçaricos-de-perna-amarela. Sempre me emocionam esses viajantes fantásticos. Sou da turma que leu, quando menino, “O Último dos Maçaricos”. Não consigo vê-los sem me lembrar da imensa tristeza da extinção. Lá ficaram, balançando o corpo ritimadamente, posando para as fotos.

O grande destaque do dia chegou de surpresa, passando sobre nossas cabeças em voo rápido, rumo à ilha. É ou não é o falcão-peregrino? Não pode ser! Deve ser o falcão-de-coleira que passou antes. Mas esse é mais parrudo. Será que é porque estava mais baixo? Olha ele lá, de novo sobrevoando as árvores da Ilha dos Amores, isso não é comportamento dele… Sumiu… Dois pombões saem voando reto, desesperados, e ele vem logo atrás, ganhando terreno assustadoramente rápido, e dá o bote! No último instante o pombão se contorce, se desvia e escapa com umas poucas penas a menos. Nesse instante acreditei que era mesmo esse rapinante lendário. O ataque não foi feito de forma clássica, o mergulho. Ele partiu de uma altura pouco maior que a da presa escolhida e isso, com certeza, foi o que salvou o sortudo pombão escolhido para almoço. Fotos e mais fotos. Checamos tudo, cor (um pouco estranha?), porte, forma de ataque. Só pode ser ele. Mas vamos deixar para confirmar em casa, no computador, tamanho grande. Mas que é ele, é.

Resolvemos voltar ao mirante e irmos atrás do colhereiro lá nas imediações do parque ecológico, local onde foi avistado um bacurau que também muito nos interessava ver. Resolvemos, antes de ir para o parque, dar uma checada no início do taboal, onde se aglomeram os marrecos e frangos d’água e onde se costuma também avistar o mergulhão-caçador, que não deu as caras. Ali, em um pequeno aglomerado de vegetação estava, imóvel, aparentemente apavorado, um pombão. Seria aquele? Para nossa surpresa e alegria da Cristine que não o conhecia ao vivo, lá estava o colhereiro, pertinho da margem. Não deu mole, ficou só um pouco, mas um pouquinho dele, assim, de perto, já é muito. Voou para os lados do parque, o que nos apressou a ir logo para lá.

Assim que chegamos um canarinho nos recebeu com um canto lindo e diferente no alto de uma árvore do estacionamento. Um João-de-barro se esforçava para engolir uma lagarta que não cabia em sua garganta. Um casaca-de-couro-da-lama (esse é um dos casos em que o nome científico, Furnarius figulus, é melhor que o popular) fazia jus ao nome, na beira da lagoa. Um biguá marrom nos deixou curiosos. Um macho de capivara resolveu que não aguentava mais as provocações do rival e partiu para os finalmente. O rival deu sorte de ser mais rápido, porque os dentes do maior roedor do mundo fazem um estrago danado. Um casal de quero-queros passeava com seus 4 filhotinhos quando outra capivara resolveu sair da água justo onde estavam. Não foi possível, deram-lhe uma investida que a botou para correr (no caso, para nadar).

Na entrada do parque, fomos questionados sobre as câmeras fotográficas. A amolação ridícula de sempre. Explicamos que éramos da Ecoavis, que apoiávamos a Fundação de Parques nas pesquisas e levantamentos da avifauna dos parques de BH, o Pedersoli falou na foto da coruja-buraqueira com que ele havia ganhado o prêmio, e o guarda, que para nossa sorte tinha bom senso, nos deixou entrar. Inclusive nos indicou onde estavam as corujas e também falou que realmente havia indícios do tal bacurau.

A lista de espécies continuou a crescer: coruja-buraqueira, petrim, urubu, sanã-carijó, saracura-sanã, beija-flores, pitiguari, sanhaço, cardeal-do-nordeste, pardal, jaçanã. Esta última encontramos em um pequeno grupo de árvores baixas ao redor de um alagado logo após comentarmos que estavam sumidas. Com playback fizeram vários voos rasantes lindos, exibindo suas penas verde-clarinho das asas. Fotos bem que tentamos, mas só borrões, eu acho. Pelo menos as minhas. Os 2 cardeais que vimos eram jovens, com os capuzes amarronzados e não vermelhos. Será que estão mesmo se reproduzindo no Parque? Ali, junto com as jaçanãs e os cardeais outro maçarico nos deu uma colher-de-chá impressionante, deixando-nos chegar bem pertinho para fotografá-lo e voando baixo em curvas sinuosas até pousar um pouco mais ao longe.

De volta ao gramado, um bando de andorinhas-do-rio nos recebeu em voos rasantes sobre a grama. Estávamos procurando as andorinhas-de-sobre-branco, mas não encontramos nenhuma. Enquanto observávamos o bando de andorinhas ouvimos um sinal de alarme e elas desapareceram num átimo. Lá vinha um quiriquiri num mergulho baixo até sumir entre as árvores.

Sem acharmos o bacurau e, sempre descontentes como H. sapiens o são, resolvemos por um ponto final na saída, reclamando que também a águia-pescadora não havia dado as caras.

Já almoçando no shoping Del Rey recebo um telefonema do Pedersoli. Quando estava indo para casa, passando pela barragem da Pampulha, eis que vem do córrego onde a lagoa deságua a ausente águia, voando baixo e lhe proporcionando ótimas fotos, as quais aguardamos ansiosamente. Cara de sorte. Fechou com chave de ouro nosso passeio.

Faltaram alguns amigos que não apareceram, o que foi uma pena. Espero que não tenha havido nenhum engano quanto ao local de encontro.

A Pampulha sempre nos reserva observações interessantes. Sugiro que, não havendo programação específica em algum final de semana, nos reunamos lá. É perto, tem uma avifauna interessantíssima, tem luz ótima para quem gosta de fotografar e muitos lugares para se fazer reuniões ao redor de uma mesa, tomando uma cervejinha, após a expedição.

No total, registramos 68 espécies, que podem ser conferidas na página da Táxeus, no link: lista. É a mesma colada abaixo.

 

 

 Lista de aves do passeio na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte – MG, no dia 21/jan/2012

Nome do táxonNome comumNome em Inglês
Anseriformes
        Anatidae
              Dendrocygna bicolormarreca-caneleiraFulvous Whistling-Duck
              Dendrocygna viduatairerêWhite-faced Whistling-Duck
              Netta erythrophthalmapaturi-pretaSouthern Pochard
Suliformes
        Phalacrocoracidae
              Phalacrocorax brasilianusbiguáNeotropic Cormorant
        Anhingidae
              Anhinga anhingabiguatingaAnhinga
Pelecaniformes
        Ardeidae
              Nycticorax nycticoraxsavacuBlack-crowned Night-Heron
              Butorides striatasocozinhoStriated Heron
              Ardea albagarça-branca-grandeGreat Egret
              Egretta thulagarça-branca-pequenaSnowy Egret
        Threskiornithidae
              Phimosus infuscatustapicuru-de-cara-peladaBare-faced Ibis
              Platalea ajajacolhereiroRoseate Spoonbill
Cathartiformes
        Cathartidae
              Coragyps atratusurubu-de-cabeça-pretaBlack Vulture
Accipitriformes
        Pandionidae
              Pandion haliaetuságuia-pescadoraOsprey
Falconiformes
        Falconidae
              Caracara plancuscaracaráSouthern Caracara
              Milvago chimachimacarrapateiroYellow-headed Caracara
              Falco sparveriusquiriquiriAmerican Kestrel
              Falco femoralisfalcão-de-coleiraAplomado Falcon
              Falco peregrinusfalcão-peregrinoPeregrine Falcon
Gruiformes
        Aramidae
              Aramus guaraunacarãoLimpkin
        Rallidae
              Porzana albicollissanã-carijóAsh-throated Crake
              Pardirallus nigricanssaracura-sanãBlackish Rail
              Gallinula galeatafrango-d’água-comumCommon Gallinule
Charadriiformes
        Charadriidae
              Vanellus chilensisquero-queroSouthern Lapwing
        Recurvirostridae
              Himantopus melanuruspernilongo-de-costas-brancasWhite-backed Stilt
        Scolopacidae
              Tringa solitariamaçarico-solitárioSolitary Sandpiper
              Tringa flavipesmaçarico-de-perna-amarelaLesser Yellowlegs
        Jacanidae
              Jacana jacanajaçanãWattled Jacana
Columbiformes
        Columbidae
              Columbina talpacotirolinha-roxaRuddy Ground-Dove
              Columba liviapombo-domésticoRock Pigeon
              Patagioenas picazuropombãoPicazuro Pigeon
Psittaciformes
        Psittacidae
              Aratinga leucophthalmaperiquitão-maracanãWhite-eyed Parakeet
              Forpus xanthopterygiustuimBlue-winged Parrotlet
              Brotogeris chiririperiquito-de-encontro-amareloYellow-chevroned Parakeet
Cuculiformes
        Cuculidae
              Crotophaga anianu-pretoSmooth-billed Ani
              Guira guiraanu-brancoGuira Cuckoo
Strigiformes
        Strigidae
              Athene cuniculariacoruja-buraqueiraBurrowing Owl
Apodiformes
        Trochilidae
              Eupetomena macrourabeija-flor-tesouraSwallow-tailed Hummingbird
              Chlorostilbon lucidusbesourinho-de-bico-vermelhoGlittering-bellied Emerald
              Amazilia lacteabeija-flor-de-peito-azulSapphire-spangled Emerald
Passeriformes
        Thamnophilidae
              Taraba majorchoró-boiGreat Antshrike
        Furnariidae
              Furnarius figuluscasaca-de-couro-da-lamaWing-banded Hornero
              Furnarius rufusjoão-de-barroRufous Hornero
              Certhiaxis cinnamomeuscurutiéYellow-chinned Spinetail
              Synallaxis frontalispetrimSooty-fronted Spinetail
        Tyrannidae
              Serpophaga subcristataalegrinhoWhite-crested Tyrannulet
              Pitangus sulphuratusbem-te-viGreat Kiskadee
              Machetornis rixosasuiriri-cavaleiroCattle Tyrant
              Myiozetetes similisbentevizinho-de-penacho-vermelhoSocial Flycatcher
              Fluvicola nengetalavadeira-mascaradaMasked Water-Tyrant
              Arundinicola leucocephalafreirinhaWhite-headed Marsh Tyrant
        Vireonidae
              Cyclarhis gujanensispitiguariRufous-browed Peppershrike
        Hirundinidae
              Pygochelidon cyanoleucaandorinha-pequena-de-casaBlue-and-white Swallow
              Progne taperaandorinha-do-campoBrown-chested Martin
              Tachycineta albiventerandorinha-do-rioWhite-winged Swallow
        Donacobiidae
              Donacobius atricapillajapacanimBlack-capped Donacobius
        Mimidae
              Mimus saturninussabiá-do-campoChalk-browed Mockingbird
        Thraupidae
              Tangara sayacasanhaçu-cinzentoSayaca Tanager
              Paroaria dominicanacardeal-do-nordesteRed-cowled Cardinal
        Emberizidae
              Sicalis flaveolacanário-da-terra-verdadeiroSaffron Finch
              Volatinia jacarinatiziuBlue-black Grassquit
              Sporophila lineolabigodinhoLined Seedeater
              Sporophila nigricollisbaianoYellow-bellied Seedeater
              Sporophila bouvreuilcaboclinhoCapped Seedeater
        Parulidae
              Geothlypis aequinoctialispia-cobraMasked Yellowthroat
        Icteridae
              Chrysomus ruficapillusgaribaldiChestnut-capped Blackbird
              Molothrus bonariensisvira-bostaShiny Cowbird
        Estrildidae
              Estrilda astrildbico-de-lacreCommon Waxbill
        Passeridae
              Passer domesticuspardalHouse Sparrow