Tautató-pintado, sanã-vermelha, jacutinga, maria-leque-do-sudeste, quase o peixe-frito-pavonino…

Jacutinga

Jacutinga

 

Vou começar falando um pouquinho do Parque e se alguém quiser mais informações, deixo links no final para que possam ser obtidas facilmente.

Sobre o Parque Estadual Intervales

O Parque Estadual Intervales localiza-se no sul do Estado de São Paulo, entre os municípios de Ribeirão Grande, Guapiara, Sete Barras, Eldorado e Iporanga. Juntamente com o Parque Estadual Carlos Botelho, a Estação Ecológica do Xitué e o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) constituem a maior área contínua de mata atlântica do Brasil. A denominação Intervales possui o significado de “entre os vales”, correspondendo aos rios Ribeira de Iguape e Paranapanema.

Predomina a Mata Atlântica, Florestas Ombrófila Densa, Ombrófila Mista e Estacional Semidecidual. O Parque localiza-se no município de Ribeirão Grande SP. O melhor roteiro para chegar ao parque tem início na Rodovia Castelo Branco – SP 280, que deve ser percorrida até o km 129. Nesse ponto, entrar no acesso para Tatuí, seguindo pela SP 127 até Capão Bonito e, depois, pela SP 181 até Ribeirão Grande. A partir daí, percorrem-se 25 km por estrada de terra bem conservada até a entrada do Parque. Fica a 270 km de São Paulo.

Parque

Eu fui com um grupo especificamente para observar aves, constituído pelo guia birdwatching Rafael Fortes, pelas amigas Rosemarí Júlio, Hideko Helena Okita, e pelos novos amigos Flávio Sakae, André Silva, Kleber Silveira e Luiz Augusto.

O que fazer por lá

O Parque é um dos pioneiros na implantação de visitação ordenada e controlada no Estado de São Paulo. Intervales tem várias atrações. Os visitantes podem fazer simplesmente uma pequena caminhada na beira de um lago, a chamada trilha auto guiada, que os levará a admirar o castelo de pedras, a capela de Santo Inácio, a espia, casa do artesão, entre outros atrativos que poderão ser visualizados, ou se aventurar por cavernas, grutas e cachoeiras, escolhendo entre mais de vinte trilhas monitoradas em meio à exuberante Mata Atlântica.

Percorrer trilhas dentro do Parque ocorre de duas formas, algumas são auto guiadas e outras, as chamadas monitoradas, necessitarão obrigatoriamente de um guia local.

Os monitores que acompanham os frequentadores constituem uma atração à parte. Eles são da própria região e possuem um grande conhecimento prático sobre a fauna e a flora locais. Alguns são procurados com grande antecedência por pesquisadores e observadores de aves de outros países devido à grande facilidade para encontrar e identificar espécimes raros. Nós fomos acompanhados pelo Betinho, uma pessoa muito especial, ele é muito calmo e atencioso. Eu ainda conheci “en passant” o Faustino e o Luiz.

Onde e como se hospedar no Parque

O Parque possui pousadas próprias e todas dentro de sua área, podendo proporcionar estadia próxima à natureza e pequenos deslocamentos no seu passeio. Para saber mais, entre em contato com a administração, através dos telefones (15) 3542-1511 e 3542-1245 (Dias e horário de funcionamento: Diariamente das 8h às 17h).

Não espere luxo, não são propriamente pousadas como estamos acostumados. Porém, é melhor que muitas pousadas tradicionais que já estive. Tudo é muito limpinho, organizado e funcional. Com roupa de cama e banho. Possui suítes ou quartos com banheiros conjugados. O preço varia conforme o quarto. No nosso caso, o valor estipulado pelo Rafael incluía a hospedagem, os guias (ele e o Betinho) e a alimentação. Como o restaurante do Parque está temporariamente desativado e em processo de licitação, fizemos nossas refeições a poucos quilômetros dali, numa vila, onde os simpáticos donos (Jairo e esposa) tão bem nos atenderam. A pousada possui microondas e geladeira, pia (não lembro se tinha fogão), então dá até para levar algumas comidinhas e se virar. Mas vamos torcer para que o processo licitatório seja concluído em breve e quem sabe o Jairo e esposa sejam os vencedores, para que desfrutemos das gostosas comidinhas que ele preparam para os turistas.

As aves de Intervales

Eu fui com a amiga Rosemarí na sexta pela manhã. Fomos devagar, papeando, parando para gravar algum som legal, ou fazer uma bonita foto. Chegando lá, o Rafael e o pessoal estavam em trilha, mas não sabíamos qual. Ficamos passeando ao redor da pousada. Vimos alguns taperuçus, bem-te-vis e tico-ticos, etc. De repente encontramos alguns amigos que estavam lá também (Adilson e Mara Dias e Lindolfo e esposa). Eles nos falaram que haviam acabado de cruzar com o Rafael e o restante do grupo (Hideko, André Silva, Flavio Takeo, Kleber e Luiz Augusto) na sede do parque.

Fomos para lá a tempo de o Betinho e o Rafa nos conduzir até o casal de sanã-vermelha (Laterallus leucopyrrhus). Coisa mais linda do mundo. Nos arredores também vimos o suiriri-pequeno (Satrapa icterophrys).

Em uma rápida passagem pela pousada Esquilo, onde estávamos, fotografamos dois jacuaçus (Penelope obscura). E depois num comedouro de uma pousada vizinha, vimos alguns sanhaçus e tico-ticos, mas o que roubou a cena mesmo foi uma matilha de cachorro do mato vindo comer bananas próximo ao comedouro.

Após o jantar, lá fomos nós ver se encontrávamos o bacurau-tesoura-gigante (Macropsalis creagra). Pimba, lá estava ele onde o Rafael disse que estaria. Ele não parava muito quieto, então ficamos bastante tempo entre aguardar ele ir e voltar. Não consegui uma foto dele em voo como gostaria. Mas olha, você não imagina como ele é bonito com sua longa cauda levantando do chão. Em seguida voltamos para perto da pousada e tentamos algumas corujas, mas nenhuma respondeu.

Fomos dormir, pois tínhamos que acordar às 4:30h da madruga. Até pegar no sono foi aquela farra com a Rosemarí e a Hideko contando histórias engraçadas da recente excursão ao Peru que elas fizeram.

Diferente de muitos locais que fui, onde o desjejum é servido depois das 6h30, o Jairo nos serviu um farto café da manhã em torno de 5h e pouco da manhã, o que nos permitiu voltar a tempo de fazer lindas fotos do pavó (Pyroderus scutatus) na entrada do Parque. Ele não é arredio como em outros lugares e propiciou a foto mais bonita que já fiz dele até hoje.

Em seguida pegamos a trilha do Carmo. Dia nublado, frio, mata silenciosa e sem muitas aves. O primeiro a me dar muita alegria foi o macuru-de-barriga-castanha (Notharchus swainsoni). Bem pequenino no alto de um galho. De repente um barulho muito louco, eram as jacutingas (Aburria jacutinga). É difícil até descrever. Eu me arrependi de não ter gravado o som… Era uma ave que estava na minha lista dos sonhos. Ainda avistamos nesta trilha maria-cabeçuda (Ramphotrigon megacephalum), tapaculo-preto (Scytalopus speluncae), borralhara (Mackenziaena severa), Pomba-amargosa (Patagioenas plumbea), viuvinha (Colonia colonus) e o bonitão do corocochó (Carpornis cucullata).

E lá fomos nós procurando aves, uma baita descidona, só imaginava como seria a subida de volta. Descemos até uma cachoeira, onde pudemos registrar de perto, sem incomodar, é lógico, uma fêmea de taperuçu-preto (Cypseloides fumigatus) no ninho. Na trilha, avistamos, ainda sanhaçu-pardo (Orchesticus abeillei), bem-te-vi-pequeno (Conopias trivirgatus), barbudo-rajado (Malacoptila striata) emMiudinho (Myiornis auricularis).

Depois do almoço e um breve descanso fomos em busca da tão sonhada maria-leque-do-sudeste (Onychorhynchus swainsoni). Primeiro fotografei o ninho, mas nada dela dar o ar da graça. O Betinho rodeou o local e nada. Eu já estava conformada que não iria vê-la. De repente, com sua costumeira calma e voz quase inaudível, o Betinho aponta o macho no limpo. Não consegui “aquela foto de capa de revista”, mas foi um registro emocionante.

Logo depois nos dirigimos a um local onde seria possível fotografar o beija-flor-de-topete (Stephanoxis lalandi) e o rabo-branco-pequeno (Phaethornis squalidus). Foi uma verdadeira festa para os olhos e lentes. Eu não me cansava de ficar rodeando os arbustos para conseguir uma foto ainda mais bacana. E de brinde alguns surucuás-variados (Trogon surrucura) fizeram muitas poses para o grupo. O peixe-frito-pavonino (Dromococcyx pavoninus) deixou todo mundo magoado. Respondeu, apareceu, parou num galho atrás de uma folha e quando íamos fotografá-lo, se mandou e não voltou mais. Passarinho é assim, aparece e dá moleza quando quer. Fotografar uma ave difícil, não é só questão de habilidade. É um conjunto de fatores que incluem, habilidade do guia, concentração do grupo, oportunidade e sorte, lógico. Mas ele que me aguarde, ainda o transformo em capa do meu livro.

Paramos num local bastante promissor em busca da tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris). O local é bem aberto e abriga uma estação de pesquisa. Neste local avistamos a peitica (Empidonomus varius), viuvinha (Colonia colonus), tesoura-cinzenta (Muscipipra vetula), caneleiro-de-chapéu-preto (Pachyramphus validus) e irré (Myiarchus swainsoni). Mas a tesourinha-da-mata nem sinal. Vai me fazer voltar lá.

Ao voltarmos para a sede, ao redor das pousadas fotografamos um casal de saí-de-pernas-pretas (Dacnis nigripes), tico-tico-da-taquara (Poospiza cabanisi), tesoura-cinzenta (Muscipipra vetula), joão-de-barro (Furnarius rufus), sabiá-poca (Turdus amaurochalinus), filipe (Myiophobus fasciatus) e alguns sanhaçu-frade (Stephanophorus diadematus).

À noite fomos corujar de novo. A noite estava linda, clara, quente, sem vento, propícia às corujas, mas o “céu não estava para corujas”. Apenas a corujinha-do-mato (Megascops choliba), apesar de ter dado um trabalhão, indo de um lado para o outro, apareceu para as fotos. A coruja-listrada (Strix hylophila) respondeu muito perto, mas não fez a alegria da moçada. Um bacurau-ocelado (Nyctiphrynus ocellatus) cantou a poucos metros, mas não quis nem saber da gente.

De banho tomado, já sob as cobertas, me sai a Hideko do banho e grita: -Bingo, consegui!!!!! A Rosemarí e eu ficamos curiosas. Ela então revelou: pegou seu primeiro carrapato. Ai! Pulei da cama e fui me vistoriar de cima a baixo, nenhum… a Rosemarí pegou um. Os meninos também. Conclusão: meu sangue deve ser tão ruim, que nem os carrapatos querem se grudar em mim…rs rs rs

No domingo, saímos após o café e de cara um filhotão de tauató-pintado (Accipiter poliogaster) inaugurou o dia, apesar de encontrar-se em local de difícil focalização. O dia que começara cinza, deixou que o sol o invadisse e com um céu azul, iluminou o rapinante de forma muito especial. Barranqueiro-de-olho-branco (Automolus leucophthalmus), choquinha-de-peito-pintado (Dysithamnus stictothorax), sabiá-una (Turdus flavipes) com a sombra do gavião-tesoura (Elanoides forficatus) por cima, arapaçu-liso (Dendrocincla turdina), limpa-folha-de-testa-baia (Philydor rufum), maitaca-verde (pionus maximiliani), tapaculo-pintado (Psilorhamphus guttatus), macuru (Nonnula rubecula) e um tangará (Chiroxiphia caudata) com a boca suja de frutinha.

Encontramos no caminho a Renata Biancalana, bióloga e colega do CEO. Ela está fazendo a conclusão de um trabalho bacana sobre a família Apodidae.

Já de volta à Pousada, colocamos banana no comedouro e um casal de saíra-preciosa (Tangara preciosa) esfomeado não se fez de rogado. Com essa espécie fechamos o fim de semana com chave de ouro. Ficou aquela sensação de “preciso voltar logo”.

Agora esse episódio merece destaque. Todos os dias ao passarmos pela entrada do Parque, um casal de quero-queros fazia um estardalhaço, e ninguém parou para fotografar os exibidos. Falei que ia fazer isso no último dia e esqueci. Então aqui fica meu recado: por favor, fotografem o pobre dos quero-queros, se não eles vão acabar precisando de terapia por tanta rejeição e desprezo.

Mais informações:

http://www.geografia.fflch.usp.br/mapas/Atlas_Intervales/oparque.html

http://www.ambiente.sp.gov.br/parque-intervales/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Estadual_Intervales

 

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