No Ibirapuera você fotografa em paz, nenhum segurança vem pedir autorização!

Boas perspectivas com parques municipais da cidade de São Paulo

Como vocês sabem, os parques em que passarinhamos têm gestões diversas. Alguns são municipais, outros estaduais, outros federais. O Depave (Departamento de Parques e Áreas Verdes) administra vários parques municipais de São Paulo (mas não todos). Nessa passarinhada no início de maio, não tivemos um pingo de problema com seguranças exigindo autorização. Parece que a gestão do Depave é bem esclarecida quanto a isso, e vou tentar obter uma declaração oficial pra um post no Virtude :o) e quem sabe no futuro até no site deles.

Atenção: infelizmente o Parque Villa-Lobos não é do Depave. E neste ano ele está sob uma gestão bem complicada, que proibiu pessoas de fotografarem aves mesmo durante o Avistar.

Durante o Avistar, um representante do ICMBio veio falar comigo, dizer que há muita gente dos parques nacionais a favor da divulgação da natureza (mas expliquei que precisamos dessa informação oficializada, porque senão mudam os funcionários, e vai tudo por água abaixo).

Por enquanto, o mais difícil está na relação com os parques estaduais de São Paulo, administrados pela Fundação Florestal. Pedi informações sobre a fotografia amadora, mandei por email e falei por telefone, mas faz mais de um mês, e nada da assessoria de comunicação responder.

6h30 no estacionamento do MAM. Meio desencontrados (principalmente por culpa minha, que desci na Oca), mas o Whatsapp nos reúne. Mais um belo dia com a Juliana Diniz, o Rodrigo Popiel e o Luccas Longo. Na verdade o dia não estava bonito. Nublado, escuro. Mas na companhia desse povo qualquer passeio é ótimo.

Logo na marquise, a Ju-olhar-clínico já vê algo que é um dos meus lifers-engraçados (aves comuns, mas que eu nunca fui atrás, disse que ia esperar elas passarem por mim): o cardeal-do-nordeste. Como o próprio nome diz, o certo seria vê-lo no Nordeste, mas há um população residente em vários parques de São Paulo, frutos de escape. Ah, como será bom se um dia todo mundo que tem aves em gaiola descobrir que é bem mais gostoso vê-las livres na natureza…

Na mesma árvore, sanhaçus-cinzentos e corruíras. Vamos caminhando pelo asfalto, beirando córrego. Nenhum segurança vem nos perguntar se temos autorização para fotografar! E olha que passamos por vários! Muitas pessoas nos cumprimentam, sorriem, e algumas vêm falar sobre aves “você sabe que ali naquela direção tem um ninho de joão-de-barro”, e até algo um tanto inusitado “ali, depois daquela curva do córrego, vai devagarzinho que você vai ver. O curicão” “Curica?”, “não, o curicão. Eu trouxe quatro do Mato Grosso e soltei aqui, três morreram, mas essa sobreviveu”.

O homem tinha sido bem simpático, não nos sentimentos à vontade para perguntar “Como assim, trouxe quatro do Mato Grosso???? Não pode, moço!”, então só agradecemos, e virando a curva, realmente lá estava ela. Felizmente só uma curica, nada de curicas-gigantes. Forrageando calmamente na grama, enfiando aquele bico comprido fundo na terra.

O Luccas explicou que apesar daquele ter essa origem inusitada, no Parque Ecológico do Tietê há registros de curicas espontâneos.

Muita gente no parque, mas nada comparado à lotação de fins de semana. Um dos grupos são senhoras fazendo ginástica ao som de uma música meio flautada, a Juliana não resiste a sair saltitando.

Até esse momento, aquela luz ruim, e sem nenhuma cena muito interessante. Sabiá-do-campo, joão-de-barro, sabiá-laranjeira, periquito-rico, bem-te-vi. Caminhamos em direção ao viveiro de plantas Manequinho Lopes. Já perto das 8h. Ouvimos o som, e depois conseguimos localizar as maracanãs-pequenas. No alto e longe, mas sempre uma alegria vê-las. No viveiro, uma ave com tons de branco “o que será?”, e era um dos famosos sabiás-laranjeira leucísticos que habitam São Paulo. Este não era totalmente branco, e ficou parado durante vários minutos.

Ainda no viveiro, o Luccas vê um movimento perto do chão, no meio das mudas. Nos abaixamos, e é um simpático pula-pula. Ainda há pouca luz, meu ISO vai pra 5.000, mas conseguimos fotos com uma composição bonita.

No viveiro, anus-pretos, sabiá-laranjeira e joão-de-barro (desta vez sob luz bonita e bem pertinho), sanhaçu-cinzento comendo frutinhos, e um lindo casal residente de pica-paus-de-cabeça-amarela.

Saímos do viveiro, caminhamos alguns metros, a Ju queria encontrar o local em que viu um ninho de pica-paus-de-cabeça-amarela no ano passado. Havia uma foto no celular de referência, e o Luccas deu uma espiada em todas as árvores próximas, mas não achou. Esse é um pedaço do parque com figueiras grandes, lindas. Sombreado e com pouca gente. Um sabiá-barranco por lá.

Tínhamos que voltar ao local em que a Ju e o Rodrigo tinham estacionado, para colocar os cartões de zona azul. Quando chegamos os postos que vendem as folhinhas ainda não estavam abertos, e a tarifa começa a ser cobrada a partir das 10h. Eles foram até os carros, voltaram, sentamos no chão pra descansar, e foi de novo a Ju que olhou pra um cacho de uma palmeira e falou “ali, naquele cacho?”, o Luccas imediatamente confirmou “corrupião!”, e nossa mola passarinheira nos colocou de pé em um segundo.

O corrupião é uma ave cor de laranja e preta, maravilhosa, mas infelizmente outra corruptela da cultura de aprisionar aves. Ela não devia estar aqui em São Paulo, mas algumas escaparam das gaiolas e acabaram encontrando uma forma de sobreviver na cidade. O Luccas, nosso biólogo, estava falando da beleza de ver um animal do Nordeste, sobrevivendo em São Paulo, comendo uma frutinha de uma palmeira da Arábia.

Nas frutinhas, um bem-te-vi também pousou durante alguns segundos. Com aquele cenário bonito, qualquer ave ficaria linda. Eu poderia ter ficado um bom tempo lá, mas decidimos continuar o passeio e fomos em direção ao lago.

Antes de chegar ao lago, ouvimos batida de pica-pau. Começamos a procurar, e logo topamos com um lindo pica-pau-de-banda-branca fêmea. Não estava próximo, mas num tronco bonito, e houve um momento em que ele se moveu para um lugar com fundo bom. Minha melhor foto da espécie. Por isso que estranho tanto as pessoas que tiram uma foto de uma ave e saem andando. Se você fica por alguns minutos com a ave, em geral sempre vai obter uma foto melhor, e ver comportamentos legais.

Outro bom exemplo: alma-de-gato, uma ave bem comum. Passou na nossa frente, paramos para olhar. Ficamos uns minutinhos olhando, e de repente ela caça uma lagarta enorme na nossa frente. Numa das fotos dá pra ver a lagarta ainda se debatendo, e a ave com aquela membrana de proteção dos olhos erguida. Finalmente ela engole o bichão. E depois pousa no limpo, num lugar com fundo e luz bonitas, expressão de orgulho, olhos brilhantes. Minha melhor foto de alma-de-gato.

Um dos grandes prazeres de passarinhar com a Ju, o Luccas e o Rodrigo é que a gente nunca precisa combinar nada. Um para, todos param e aproveitam. Você nunca se sente atrapalhando ou enroscando o passeio porque quis parar para ver algo comum. E ainda que a gente tenha tanto assunto que nas semanas em que não dá pra passarinhar, às vezes marcamos almoço só pra nos vermos, durante os passeios também tem muito espaço pra silêncio contemplativo despreocupado.

Quase chegando no lago. No caminho, ainda deu tempo de ver uma dupla de carrapateiros pousados numa figueira grande, adulto e jovem.

Chegando ao lago é o caos. Excursão de escola, muitas vozes e gritos e frases do tipo “sai de perto da beirada do lago! Se você cair aí vai nascer um terceiro braço em você!”.

Passamos pelo grupo das crianças. Tem muitos irerês descansando na margem, biguás, garças-brancas-pequenas, gansos. A Ju fez várias fotos da gente, engraçadas, parece que estamos dedicados a fotografar os gansos.

Contornando o lago, ainda pegamos um mergulhão-pequeno bem de perto. Acho que o Rodrigo conseguiu até foto do bicinho com um peixão na boca. Lavadeira-mascarada, periquito-rico descansando em meio às folhagens, sabiás-laranjeiras.

E assim chegamos ao meio-dia. Almoçamos juntos no restaurante por quilo do parque e dispersamos. Mais uma excelente passarinhada. Com o slowbirdwatching, não tem como dar errado.

 

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