(…) Depois desse primeiro encontro sensacional foram muitas surpresas e alegrias. Era incrível a quantidade de bichos e sons naquela mata! A cada visita encontrava espécies fantásticas! Fiquei tão maravilhado que fantasiosamente batizei aquele lugar de “Floresta Encantada”.

Da esquerda para a direita: Daniel Santos, Luis Henrique, João Sérgio Barros, Daniel Esser, tio Maninho, Paulo Couto, Celso de Castro

Da esquerda para a direita: Daniel Santos, Luis Henrique, João Sérgio Barros, Daniel Esser, tio Maninho, Paulo Couto, Celso de Castro

 

Tudo começou na inesquecível excursão da Ecoavis a Santo Antônio do Monte. Na ocasião, comentei com os amigos que gostaria muito de fazer também uma excursão pra minha terrinha, Rio Piracicaba, cidade do quadrilátero ferrífero de Minas Gerais.

Disse também que só faltavam as aves, porque até então desconhecia um lugar que valesse a pena uma excursão.

O tempo passou, até que num belo dia, depois de não achar o macuquinho-da-várzea num grande brejo localizado aos pés da serra do Seara, resolvi dar um pulo em uma mata próxima que me parecia promissora.

Estava à procura do formigueiro-assobiador já há algum tempo e, sem muitas pretensões, resolvi tentá-lo por lá. Acabara de entrar na mata e, ainda dentro do carro, qual foi minha alegria quando ouvi o formigueiro a assobiar! Coloquei o playback e sem demora ele pousou à beira da estrada. Atravessou e reapareceu novamente, posando tranqüilo por uns 10 segundos, o que, pela fama do bicho, era uma eternidade.

Depois desse primeiro encontro sensacional foram muitas surpresas e alegrias. Era incrível a quantidade de bichos e sons naquela mata! A cada visita encontrava espécies fantásticas! Fiquei tão maravilhado que fantasiosamente batizei aquele lugar de “Floresta Encantada”.

Enfim encontrara um lugar que não só valia a pena, valiam as asas, valia o voo dos amigos ecoavianos para lá (com a devida licença poética do amigo Vinícius Moura rsrs).

Cumprido o requisito mais importante, não faltava mais nada para nossa excursão.

Bem, passaram-se longos dias, até que chegou o momento tão aguardado em que receberíamos os caríssimos amigos ecoavianos.

Os primeiros a chegar foram os amigos santoantonienses, Daniel Santos, Luis Henrique e Paulo Couto, que, diga-se de passagem, chegaram primeiro que eu rsrs. Sem avisar, ficaram a manhã inteira passarinhando pelas estradas rurais de Rio Piracicaba. E como esta turma é sortuda! Sem saber foram no ponto onde sempre costumo avistar os ameaçados papagaios-de-peito-roxo. Conseguiram fotografá-lo em voo, nada mal começar registrando uma espécie tão ameaçada.

Chegamos praticamente juntos à casa do nosso anfitrião, o tio Maninho, fiel companheiro de passarinhadas. Perguntei o que poderíamos fazer antes do churrasco de confraternização e o pessoal optou em tentar melhorar o registro do papagaio, pois as primeiras fotos foram feitas de muito longe.

O sol ainda estava um pouco forte quando chegamos ao local dos papagaios. Periquitões-maracanãs, maitacas-verde, maracanãs-verdadeiras, mas nada do papagaio-de-peito-roxo. Disse que eles costumavam aparecer mais no final da tarde, então continuamos lá a esperar.

Não deu outra. Quando o sol já se aproximava do horizonte, escutamos um som típico de psitacídeo, mas diferente dos que a gente escutava a todo momento. Aquele som mais grave acionou a euforia: é ele!!!

Passaram voando bem acima de nós, um pequeno bando. Uma pena estarem num ingrato contra-luz, mas com certeza conseguimos nosso intuito que era de melhorar o registro da espécie.

Retornamos então pra casa, afinal nosso churrasco de confraternização iria começar e o grande Daniel Esser estava pra chegar. E chegou na melhor hora, quando a carne acabara de assar.rsrs O Daniel Esser trouxe lindas fotos! Logo me veio uma ideia: vamos expô-las na sala!

Juntei uma foto do gavião-de-penacho (das minhas preferidas) que havia dado pro tio Maninho e pronto! A sala transformou-se numa galeria de arte! Aproveito para agradecer ao Daniel Esser pela gentileza.

Nosso churrasco também contou com um querido primo, o Durval Pitombeira (um dos meus “informantes” ornitológicos na cidade), que nos contou que havia uma coruja com um pio diferente numa mata ciliar do rio Piracicaba, perto do centro da cidade. Pela descrição que ele fez do pio imaginei a coruja-orelhuda (lifer para quase todos nós), então reproduzimos o pio para que ele comparasse. Confirmado! Amanhã iríamos lá conferir.

Outra atração do churrasco foi meu querido priminho Érick, neto do Durval, com sua imitação impressionantemente perfeita do caburé. Lembro-me que falei desta corujinha a ele na ocasião que fiz a foto numa praça em frente à sua casa. Mais um lifer proporcionado pelo meu grande amigo Durval. Brigadão, meu amigo, agora vê se acha pra gente um caburé-acanelado, tá bão?rsrs

Primeiro dia oficial de passarinhada, o grande Celso de Castro (que por motivos pessoais só pode ir no sábado) encontrou com a gente bem cedo na padaria. O Celso é de Ipatinga e já realizou notáveis registros na mata ciliar do rio Piracicaba (em Ipatinga o rio Piracicaba encontra com o rio Doce). Ele ainda não conhecia pessoalmente nenhum de nós. Mais uma amizade proporcionada pela Ecoavis.

Pegamos enfim a estrada rumo à floresta encantada! A neblina, comum e abundante nesta época, ajudava a criar o clima. Alguns quilômetros de subida e deixamos a neblina nos vales úmidos. Quase já chegando encontramos o sentinela da Floresta Encantada, um gavião-de-rabo-branco, em sua rara forma encapuzada, que sempre está por ali.

Depois dos clicks continuamos e logo adentramos a mata. Acabáramos de deixar os carros no local onde sempre escuto vários formigueiros-assobiadores e macuquinhos e, para surpresa e encantamento geral, um maravilhoso pavó nos brinda com um belo voo ao longo da estrada, a poucos metros de nossas cabeças estupefatas. Sem reação, somente observamos hipnotizados aquele pássaro que até então só povoava nossos sonhos. Se pairava alguma dúvida, naquele momento todos reconheceram, aquela floresta realmente era encantada!rsrs

O pavó sumiu assim como apareceu, num passe de mágica. Então, ainda atordoados, fomos pro delicioso feijão-com-arroz da Floresta Encantada, o belo formigueiro-assobiador e o intrigante macuquinho.

Estas duas maravilhas deram bem mais trabalho que o de costume, mas parece que valeu a pena (realmente os macuquinhos, particularmente, não vocalizaram nenhuma vez, fato inédito para mim, já que sempre ouço vários quando vou lá). O Daniel Esser manifestou, eufórico, seu encantamento com o comportamento do diminuto rhinocryptídeo. Fiquei feliz também em ver o pessoal mostrando suas belas fotos do ratinho alado da Floresta Encantada e do belíssimo formigueiro. A fisionomia de todos era de quem conquistara uma longa maratona. Realmente o feijão-com-arroz neste dia estava mais pra prato sofisticado e demorou a sair, tanto que o sol já estava alto e entramos no período de descanso da bicharada.

Ok, a manhã já havia acabado e fomos almoçar. Após o almoço, a tradicional foto do grupo, que desta vez foi na galeria de arte do Daniel Esser. O Celso de Castro, após gentilmente fazer a foto, se despediu de todos pois tinha que retornar a Ipatinga. Celso, qualquer dia destes apareço por aí, hein?

Após um merecido descanso, perguntei se os amigos não gostariam de tentar o joão-botina-da-mata num local onde sempre os vejo, inclusive com ninho. Eles toparam, e lá fomos nós. Chegamos ao local, um sítio de uns velhos amigos de meu tio Maninho, uma dupla de irmãos que sempre nos recebe com muita gentileza e satisfação. Nesse local também fiz uma foto de um casal de maracanãs-verdadeiras que me trouxe muita satisfação (foi a primeira que tive publicada numa revista).

Os ninhos estavam lá, três! Mas nada do botina. Contudo a viagem não foi totalmente perdida, fizemos belas fotos de uma maracanã-verdadeira saindo do ninho com uma penugem no bico (o ninho estava num local incrivelmente baixo, do lado da estrada!).

Observamos também um provável comportamento de caça de um gavião-de-cabeça-cinza. Ele pousou a meia altura em um eucalipto, depois de alguns momentos prescrutando o solo, voava para outro próximo, e assim o fez repetidamente até sumir atrás de um morro.

Bem, o sol já estava se pondo quando nos despedimos dos irmãos João e Eduardo e fomos para a corujada na Floresta Encantada.

Já era crepúsculo quando estacionamos os carros no ponto onde vimos o pavó (pronto, já temos um nome para o local). Escutamos duas vocalizações diferentes de inhambus. O Daniel Santos gravou a que o Paulo Couto não reconheceu para depois pesquisar (acabaram de identificar, é uma nova sp para nossa lista Taxeus, um inhambuguaçu). Jacus se aconchegavam para pernoite. Bacuraus vocalizavam e havia uma vocalização diferente que o Paulo (sempre ele) identificou como sendo a do bacurau-ocelado, espécie nova para a lista da cidade que eu e o Juliano Silva fazemos.

O resto da corujada passou em branco, ou melhor, em preto, com exceção de uma coruja que respondeu de muito longe ao playback da corujinha-do-mato, mas era diferente. O Paulo tentou a coruja-sapo e realmente parecia mais com ela, mas não a ouvimos de novo.

Já era um pouco tarde, estávamos cansados e famintos. Parecia que só o incansável Paulo Couto tinha animação em ficar, apesar do silêncio que imperava.

Então resolvemos ir até o lugar onde Durval havia nos indicado para tentarmos a coruja-orelhuda.

Paramos os carros no local indicado e, segundos depois de colocarmos o playback, ouvimos aquele pio estremecedor vindo da mata. Ficamos eufóricos! As lanternas não achavam nada na copa daquelas árvores altaneiras, até que encontramos uma clareira. Pensei, aqui vamos encontrá-la! Acionamos o playback e para nossa sorte o grande (grande mesmo, esse menino vai passar dos 2 metros!) e atento Luis Henrique encontrou a linda coruja! Para nossa sorte, em um galho baixo. Permaneceu ali por um bom tempo, suficiente para fazermos ótimas fotos.

A última manhã da nossa excursão foi um festival de lifers para os colegas e um muito especial para mim.

Fomos direto para um ponto onde sempre encontro muitas aves interessantes e raras. Arapaçu-de-bico-torto, picapauzinho-de-testa-pintada, marianinha-amarela, tico-tico-do-mato, surucuá-variado (q o Luis Henrique tanto almejava), papa-taoca-do-sul são os que me lembro que apareceram por lá. Até que o Paulo sugeriu, vamos tentar o tapaculo-pintado? Claro! Este super lifer, com apenas uma foto no Wikiaves em território mineiro, era muito desejado por mim. Já havia tentado fotografá-lo várias vezes, mas o bicho é tinhoso!

Como o lugar era um pouco longe, apesar de ser na mesma mata, fomos de carro. Reproduzimos a vocalização do raro rhinocryptídeo e ele, como sempre, respondeu prontamente.

Faço um parênteses: Particularmente gosto muito desta família, não sei direito porque, acho que é um misto de comportamento interessantíssimo, desafio que me proporciona e morfologia atraente. Isto é um tipo de coisa difícil de explicar, o fato é que sou um fã da família e parece que quanto mais difícil a espécie, mais almejo fotografá-la.

Como era de se esperar, o tapaculo-pintado vocalizava, mas aparentemente sem sair do lugar. Até que depois de um bom tempo o som aproximou-se de nós. Mas aí o que me acontece? Mais um fato inédito nesta excursão. Uma kombi surge do nada!

– BÃÃÃOOO!

– bão… respondemos um tanto desanimados.

Nunca vi um carro passar naquela estrada! Nem bicicleta, cavalo, gente, nada! Só passarinho passa. E o tapaculo que já estava bem próximo, sumiu. Mas um outro começou a vocalizar não tão distante da estrada, a poucos metros de onde a gente estava. Fomos até lá e haja paciência… nada do bicho se aproximar. Até que depois de muito “cê qui sabe”, resolvemos desistir e voltar para o lugar onde estávamos, pois lá havia muito movimento e ali, só aquele som monótono. Acho que teve gente que até cochilou.rsrs

Quando já estávamos quase todos dentro do carro, o Paulo manifestou sua vontade de ficar. Resolvi então fazer companhia para ele.

Já exausto, com aquele misto de “sem chance” e “vai que rola”, sentei no chão e disse a ele que dali mesmo fiz meu melhor registro do gavião-pega-macaco. Na verdade estava mais esperançoso em encontrar o gavião.

Bem, depois de mais algum tempo, enquanto conversávamos, percebi que o som havia sumido(o tapaculo pintado vocaliza bastante e não se movimenta enquanto vocaliza). Então falei pro Paulo, “ele pode estar se aproximando”! Fizemos silêncio, e qual foi nossa surpresa quando ele vocalizou bem ali, praticamente na nossa frente!

Depois de mais uma grande labuta… moral da história: paciência e persistência são qualidades imprescindíveis a um fotógrafo de aves, e é mais fácil realizá-las com um amigo que comungue de sua paixão.

Foi um grand finale! Uma pena que os outros amigos não conseguiram… só mais um bom motivo para voarem de novo, rumo à Floresta Encantada.

 

Mata Atlântica (+)