cardeal-do-banhado (Amblyramphus holosericeus)
cardeal-do-banhado (Amblyramphus holosericeus)
Dourado
Geraldo, Hideko, eu, Cal Martins e Rosemarí by Neusa Luiz
barulhento (Euscarthmus meloryphus)
barulhento (Euscarthmus meloryphus)
fruxu-do-cerradão (Neopelma pallescens)
fruxu-do-cerradão (Neopelma pallescens)
graveteiro (Phacellodomus ruber)
graveteiro (Phacellodomus ruber)
andorinha-de-dorso-acanelado (Petrochelidon pyrrhonota)
andorinha-de-dorso-acanelado (Petrochelidon pyrrhonota)
suiriri-cinzento (Suiriri suiriri)
suiriri-cinzento (Suiriri suiriri)
tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa)
tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa)
bacurau-norte-americano (Chordeiles minor)
bacurau-norte-americano (Chordeiles minor)
Beija-flor-de-bico-curvo (Polytmus guainumbi) - White-tailed Gol
beija-flor-de-bico-curvo (Polytmus guainumbi)
Caburé-acanelado (Aegolius harrisii) Buff-fronted Owl
caburé-acanelado (Aegolius harrisii)
Dourado
Cobra Dormideira
Dourado
mãe-da-lua (Nyctibius griseus)
bagageiro (Phaeomyias murina)
bagageiro (Phaeomyias murina)
Dourado
anu-coroca (Crotophaga major)
caneleiro-preto (Pachyramphus polychopterus)
caneleiro-preto (Pachyramphus polychopterus)
Maria-ferrugem (Casiornis rufus) - Rufous Casiornis
maria-ferrugem (Casiornis rufus)
pula-pula-de-sobrancelha (Myiothlypis leucophrys)
pula-pula-de-sobrancelha (Myiothlypis leucophrys)
tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa)
tesoura-do-brejo e chopim-do-brejo
Andorinha-de-bando (Hirundo rustica) - Barn Swallow
Andorinha-de-bando (Hirundo rustica)
bacurau-tesoura (Hydropsalis torquata)
bacurau-tesoura (Hydropsalis torquata)
formigueiro-de-barriga-preta (Formicivora melanogaster)
formigueiro-de-barriga-preta (Formicivora melanogaster)
Dourado_Silvia-Linhares
Foto by Geraldo Luiz

 

Dourado, a 290 km de São Paulo é um lugar que deve constar obrigatoriamente da agenda de qualquer observador de aves. A quantidade de aves e diversidade de espécies é bem grande. Mas não dá para ir sem guia, pois a maioria dos locais de interesse fica dentro de propriedades privadas e somente é possível adentrar com um guia local conhecido. No caso de Dourado, os guias mais procurados são o Cal Martins e o Jone, seu pai.

E sem o Facebook, a comunidade de observadores de aves e o site Wikiaves jamais saberíamos as novidades. Foi uma foto feita pelo Cal do cardeal-do-banhado (Amblyramphus holosericeus) que me chamou a atenção, embora o grande sucesso do ano passado tenha sido a corujinha caburé-acanelado (Aegolius harrisii).

Após as combinações com amigos via inbox, chegamos em Dourado no sábado (18/01), por volta de 10 horas da manhã. Nosso retorno estava previsto para segunda-feira com pit-stop em Santa Bárbara D’Oeste, onde o amigo Gustavo Pinto ia nos levar no famoso brejão do triste-pia.

Queríamos pelo menos duas noites para “corujar e bacurauzar”. Nesse passeio, além do amigo e guia Cal Martins, contei com a companhia das amigas Rosemarí Julio, Hideko Helena e do casal Neuza e Geraldo Luiz.

Ficamos hospedados numa pequena pousada na segunda entrada da cidade (de quem chega de São Paulo). Seu nome é Pousada Eco e fica na Avenida da Saudade, 760, Jardim Paulista – fones 16. 3345.3770 | 3345.1273. O próprio Cal reservou para a gente. É bem simples e seu custo diário muito baixo. Porém é de fácil acesso, tem amplo estacionamento e fica próximo a tudo, o que facilita a logística. Mas há pousadas em fazendas que oferecem mais confortos, mas são bem mais caras. Fica a critério de cada um. A Pousada Eco oferece um café da manhã simples, mas Seu Elenildo gentilmente providenciou para que na segunda nosso café pudesse ser às 5h30 e não às 6h30 (horário de início do café na pousada).

Você tem que ficar atento para os horários de almoço e jantar dos restaurantes da cidade. Encerram as atividades cedo, mas sempre tem uma pizzaria aberta. E quem resiste a uma boa pizza? A pizzaria São João (Rua Tiradentes, 360, Centro) tem até pizza de alface e a marguerita deles é deliciosa.

Bom, mas vamos aos passarinhos. Assim que chegamos o Cal resolveu logo aplacar a minha ansiedade e realizar meu maior sonho ornitológico dos últimos tempos. Ver o cardeal-do-banhado. Esse bichinho vinha me dando um olé… venho procurando por ele desde 2011, tentei no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul e ainda em Tavares/RS e nada. Eu queria muito ver e fotografar o bichinho.

Mas em Dourado foi “mamão com açúcar”. Ao chegarmos ao local, tinham dois pousados no fio, e com jeitinho, o Cal trouxe eles para bem perto. Acho que fiz mais de 100 fotos num instante. Com ele alcancei minha marca cabalística: espécie nº 666ª, que eu comemorei a contento, com uma ilustração feita pelo amigo Luccas Longo. Não tem “mastercard” que pague uma emoção dessas. Mas as emoções estavam só começando.

Sabe aqueles passarinhos que você ouve falar e depois de muitas passarinhadas eles nunca cruzaram seu caminho e você fica até achando que eles não existem…tipo barulhento (Euscarthmus meloryphus), graveteiro (Phacellodomus ruber), vite-vite-de-olho-cinza (Hylophilus amaurocephalus), formigueiro-de-barriga-preta (Formicivora melanogaster) *VU, fruxu-do-cerradão (Neopelma pallescens) *VU, suiriri-cinzento (Suiriri suiriri) *CR, andorinha-de-dorso-acanelado (Petrochelidon pyrrhonota), andorinha morena (Alopochelidon fucata)… mas existem sim, embora alguns estejam correndo sério risco de extinção (*).

O Cal levou a gente num único dia para ver tudo isso e mais um pouco. Foi um desfile de espécies que incluíram ainda as belas tesouras-do-brejo (Gubernetes yetapa) em seu frenético e incansável balé, o iridescente beija-flor-de-bico-curvo (Polytmus guainumbi) *VU, o aclamado cantor bico-de-pimenta (Saltatricula atricollis), casais de chorozinho-de-bico-comprido (Herpsilochmus longirostris) *EN, de papa-formiga-vermelho (Formicivora rufa), de caboclinho-branco (Sporophila pileata), o belo Soldadinho (Antilophia galeata) com a crista eriçada, entre outros. Tinha até bacurau-norte-americano (Chordeiles minor). Numa dessas nem precisei ir à América do Norte só para vê-lo. (rs rs rs)

*AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO (Dados de 2009 in Fauna Ameaçada de Extinção no Estado de São Paulo)

CR – Criticamente em perigo – enfrenta risco extremamente alto de extinção

EN – Em perigo – enfrenta risco muito alto de extinção

VU – Vulnerável – enfrenta risco alto de extinção

Mas o inesperado aconteceu. E sempre acontece quando você não está com sapinhos saltitantes no estômago de tanta ansiedade. Já há alguns meses que a coruja caburé-acanelado (Aegolius harrisii) não era avistada. O Cal estava muito preocupado com elas. Então fomos corujar com a esperança presente no coração, mas já sabendo que ia ser difícil avistá-la. O Cal começou a realizar seu trabalho “plaibecando” com todo cuidado que lhe é peculiar. E “BINGO!” Eis que a “Cal-buré” surge na frente dos nossos olhos. Nem o Cal se aguentava de tanta emoção. De todas as corujas que já fotografei, essa é a que apresentou o olhar mais doce de todas. Teve um momento que ela estava olhando de lado e o Cal fez um barulho com a boca, então ela olhou para ele com a cabecinha virada de ladinho, e juro, (não me achem louca) ela olhou carinhosamente para ele como que dizendo “eu conheço você e sei que não vai deixar ninguém me fazer mal”.

Após alguns minutos e todos satisfeitos com os registros, deixamos que ela se fosse sem importuná-la ainda mais. Imagina como eu estava me sentindo, comecei um dia com um sonho esperado, e terminei com um inesperado.

Mas a noite não havia terminado. Ainda avistamos uma cobrinha Dormideira e nos divertimos à beça quando o Cal levantou ela…sei lá, cobra, não importa qual, sempre causa medo e susto. Para encerrar a noite, uma bela mãe-da-lua (Nyctibius griseus) posou para as nossas lentes. E sob um bonito luar voltamos para a pousada com um sentimento de pura realização e dever cumprido.

E era só o primeiro dia. Domingo tivemos outro desfile de espécies. Pela manhã fomos até a beira do Rio Jacaré-pepira, onde havia um belo e arisco bando de anu-coroca (Crotophaga major) VU*. Em seguida, o Cal nos colocou cara a cara com o bagageiro (Phaeomyias murina) e com a guaracava-grande (Elaenia spectabilis).

Depois em cena o arredio-do-rio (Cranioleuca vulpina), o rabo-branco-acanelado (Phaethornis pretrei), o caneleiro-preto (Pachyramphus polychopterus), entre outros. Andamos um pouco e eis que surgiu um lindo curió (Sporophila angolensis), o sanhaçu-de-coleira (Schistochlamys melanopis) *EN e um suiriri-de-garganta-branca (Tyrannus albogularis).

Perto do meio dia foi a vez de uma família de pula-pula-de-sobrancelha (Myiothlypis leucophrys) *EN fazer festa para nossos olhos e ouvidos. Em seguida uma maria-ferrugem (Casiornis rufus), bem exibida, se deixou fotografar de tudo quanto é jeito, culminando por parar num lugar onde um raio de luz do sol, muito mágico, propiciou uma foto ímpar. Terminamos a manhã com o garrinchão-de-barriga-vermelha (Cantorchilus leucotis) dando baile em todo mundo e muito corre-corre.

Almoçamos em Dourado, e após o “famoso” sono da beleza, o Cal nos levou até a divisa com Trabiju, onde avistamos novamente um bando de tesoura-do-brejo, chopim-do-brejo (Pseudoleistes guirahuro), narceja (Gallinago paraguaiae), essa última fez o Cal andar atrás dela de um lado para o outro até a gente conseguir fotografar – hilário.

Enquanto o Cal se esmerava em achar a narceja para fotografarmos, a gente fotografava o boi-da-cara-preta (acho que era vaca-da-cara-preta) e não pense que é uma nova espécie do CBRO, não é não – é bovino mesmo e ainda aprontamos por causa dele.

No final do dia o Cal levou a gente para ver andorinhas, achamos só as de bando (Hirundo rustica), que voavam loucamente em zigue-zague, quase impossibilitando a gente de focar e fotografar. Porém, banhadas pelo por do sol, ficaram lindas e vermelhinhas.

Emendamos o final da tarde e saímos em busca do bacurau-chintã (Hydropsalis parvula), mas como não é a época deles, nada do chintã, mas vimos muitos bacuraus comuns (Hydropsalis albicollis) e o bacurau-tesoura (Hydropsalis torquata), que foi uma festa para os amigos que nunca tinham avistado ele. Eu queria ver o tuju (Lurocalis semitorquatus), ver eu até vi, mas o bicho é tão frenético em seu voo, que é impossível fotografá-lo, ainda mais no escuro. Um dia talvez eu consiga, num ninho, ou pousado… nunca se sabe…

Mas o ponto culminante da noite ainda estava por vir. O Geraldo e a Neusa sonhavam em ver a murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana). E o Cal conseguiu, não uma, mas duas. Além de podermos apreciar as duas, ainda pudemos ouvir sua vocalização, o que nos deixou pra lá de emocionados.

Só o formigueiro-de-barriga-preta (Formicivora melanogaster) ficou me devendo uma pose melhor, fiz o registro, mas não uma fotona como aquela bela espécie merece e eu gostaria de ter feito.

A única coisa que não gostei é ver a mão do bicho-homem desrespeitando a natureza, deixando lixo onde não devia, destruindo matas e brejos, inconsequentemente, sem, no mínimo, pensar no prejuízo para si mesmo e para as futuras gerações. Também fiquei muito triste ao assistir, sem nada poder fazer, uma cobrinha verde ser atropelada no asfalto por um motorista muito veloz e descuidado. Fiquei sem ação na hora. Você fica olhando o carro vindo rápido, sem que o motorista se dê conta da bichinha atravessando a pista, ele nem viu a gente gesticulando para diminuir a velocidade, e pronto, tragédia – ele passa sobre ela, o sangue esguicha, ela se encolhe, fica toda se estrebuchando e morre. Cena de filme de terror. Doeu viu…

Por essa e outras que eu torço para que cada vez mais pessoas comecem a observar e fotografar aves. Se isso se espalhar e crescer, com certeza teremos mais vozes para brigar por um mundo melhor, onde humanos e natureza se equilibrem e convivam em paz. Onde a ignorância não encontre porta de entrada, só de saída.

Mais passarinheiros no mundo é igual a menos estresse e menos “diabinhos interiores”… isso resulta num mundo mais feliz e menos bélico. Pode acreditar: um dia no mato vale por 10 sessões de terapia. Basta ver essas carinhas…

Enfim, são minhas considerações. Essa foi uma passarinhada memorável. Meu conselho: não deixe de colocar Dourado e região no seu próximo roteiro. Então, … não se demore, compre logo um par de galochas, muito filtro solar e repelente, arrume suas malas e manda ver. Não vai se arrepender, isso eu garanto.

 

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