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Membros da ECOAVIS (Carlos, Augusto, Márcio e eu) em Curvelo/MG. Foto: Ecoavis.
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Membros da ECOAVIS (Carlos, Almir, Graça, Márcio, Laura, Augusto e eu) em Curvelo/MG. Foto: Ecoavis
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Macho do chorão (Sporophila leucoptera) em Curvelo/MG.
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Macho do caboclinho (Sporophila brouveuil) em Curvelo/MG.
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Bando de araras-canindé (Ara ararauna) rasgando os céus de Curvelo/MG.
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Indivíduo de arara-canindé (Ara ararauna) em Curvelo/MG.
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Macho de mineirinho (Charitospiza eucosma) em Curvelo/MG.
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Fêmea de mineirinho (Charitospiza eucosma) em Curvelo/MG

 

Arara-canindé, mineirinho, vários sporophilas em meio a veredas e buritis

Umas das mais aguardadas viagens que fiz para observar aves, certamente, foi para Curvelo. Por que? Porque lá existia a possibilidade de avistar um dos animais mais espetaculares que existem: araras! No caso, araras-canindé (Ara ararauna). Desde que eu comecei a observar aves de maneira sistematizada, fazendo listas e programando viagens, esse era um dos meus maiores desejos, observar e fotografar araras voando livres. Esse desejo surgiu quando eu trabalhei na Fundação Zoo Botânica de Belo Horizonte e, ver aqueles animais gigantescos presos em uma gaiola, me dava uma angústia que beirava o desespero. Apesar de entender que os zoos têm muita importância, evito visita-los. Bem, o desejo foi realizado, mas falarei sobre ele durante o relato.

Durante o AvistarBH de 2013 conheci brevemente o amigo Márcio Nery, que participou do evento, seu batismo na Ecoavis. Ainda no segundo semestre daquele ano e no início de 2014, Márcio se mostrou bastante ativo e participou de boa parte das atividades, o que possibilitou que nós nos encontrássemos e a ideia da viagem foi começando a ganhar força. Em conversa com seu cunhado e sua irmã, nos foi oferecida a Fazenda da família como hospedagem e local de passarinhadas. Desde então foi apenas buscar uma data e começar a divulgar. A partir desse momento comecei a ficar curioso sobre as espécies que lá ocorriam e a lista de possíveis lifers (espécies avistadas pela primeira vez) me deixou extremamente empolgado, entre eles, a arara.

Confirmaram participação na atividade o simpático casal Almir e Graça, Carlos, eu, a iniciante Laura e os irmãos Márcio e Augusto Nery, anfitriões que se mostraram excelentes guias e ótimos conhecedores das espécies do lugar. Cada um foi chegando no seu horário e eu e a Laura chegamos no início da noite, após uma agradável viagem recheada de excelentes conversas sobre os mais diversos assuntos. Fomos recebidos pela encantadora família do Márcio e fiquei impressionado com a beleza da fazenda e todos os seus detalhes caprichosos. Uma amistosa reunião regada a vinhos, cerveja, cachacinha, começamos a decidir nossas passarinhadas de sábado e domingo. Como já havia percebido, o Márcio estava com aquela natural ansiedade de anfitrião, se apegando a toda sorte possível para que o passeio fosse perfeito…

No sábado todos pularam da cama bem cedo e às 5h30 a mesa já estava posta e as conversas de passarinho já começaram junto com os cantos ao fundo… Bem rápido todos se alimentaram, se equiparam e começamos a caminhar… No primeiro passo uma coruja-de-igreja (Tyto furcata) alça voo de uma árvore bem acima de nós… Ah, que recepção… no próximo passo, saindo na estrada principal da fazenda, o som das araras já me encheram de alegria… Ali eu soube, era hoje! Procuramos em alguns pequizeiros mas nada… quando já estávamos desistindo, duas ou três delas passam longe, voando… Com a pouca luz, pouco vi, mas foi o suficiente para o coração disparar.

Na medida que o calor aumentava (como faz calor naquele lugar!) os lifers foram aparecendo. Uma infinidade de Sporophilas sp. (caboclinho, chorão, patativa, coleiro-do-brejo…), espécies que se alimentam de sementes de gramíneas já mostraram que o dia prometia e começou a deixar o Márcio mais tranquilo… Bastava olhar para mim, o mais empolgado de todos, para ver uma comemoração a cada foto registrada. Que lugar, que ambiente! Ilhada por plantações de eucalipto, a fazenda era um oásis para passarinhos e passarinheiros.

Quando chegou 10h da manhã, o sol castigava a todos e teve gente querendo voltar… cantis vazios, pernas doloridas… Realmente, o calor era absurdo. Eu, Carlos, Márcio e Augusto continuamos. Chegamos a uma área de vereda, com lindos buritis e uma lagoa intermitente. Que paisagem maravilhosa… Um martim-pescador nos chamou atenção, fui perto para observar quando escuto o Márcio: – Eduardo, Eduardo…. Olha para cima, ELAS estão vindo. Escutei o som, o coração foi na boca… não sabia se pegava a câmera, o binóculos… não sabia se sentava e chorava ou se ficava embasbacado olhando… Sei que nesse meio tempo três das coisas mais lindas que já vi na vida me proporcionaram uma das cenas mais espetaculares que já presenciei… Eram elas, as araras. Meus caros e minhas caras, só quem é passarinheiro dedicado sabe o quanto esse tipo de momento é especial. Meus olhos de fato encheram de lágrimas e emoção… Por sorte e instinto, enquanto olhava para os bichos voando a poucos metros sob nossas cabeças, percebi que disparei várias fotos vem nem olhar no visor, por sorte, algumas ficaram razoáveis…

As araras pousaram nos buritis e fomos nós, Cerrado afora, atrás dos bichos, extremamente ariscos. No meio do caminho sou surpreendido por um inhambu-choróró (Crypturellus parvirostris) tranquilo forrageando. Não deu tempo de fotografar pois ele percebeu minha presença e se enviou mato a dentro. Quando conseguimos encontrar uma trilha que levava próximo aos buritis, entramos na mata baixa e quando percebi estava olhando para aquelas três belezas que me emocionaram há poucos minutos atrás. Foi a conta de mostrar a cara, fazer algumas fotos e os bichos logo voaram. PENA! O restante da turma não conseguiu ver direito e fotografar…

Ah, o dia estava completo… Eu estava em estado de graça. Voltamos para a Fazenda e descansamos entre um churrasquinho com cerveja, um almoço delicioso e muita conversa de passarinho… A passarinhada da tarde não foi muito boa, pouca coisa foi vista e todos estavam exaustos com o calor. Jantamos e cama, 21h eu estava apagado.

No domingo, como era de se esperar, encontrei uma mesa vazia… todos se deram o direito de alongar o descanso porque, de fato, o sábado havia sido exigente. Aproveitando o silêncio, consegui ouvir vários cantos da mãe-da-lua-gigante (Nyctibius grandis). Chamei a turma mas não conseguimos observar o bicho. Voltamos para o café e começamos a caminhada. A meta do dia era o mineirinho (Charitospiza eucosma), espécie que estava no topo da lista de desejos. Deslocamos de carro para ganharmos tempo e chegamos na entrada da área de reserva legal da fazenda, um Cerradão muito bacana e com alto potencial. Logo que saímos dos carros as araras novamente deram show e dessa vez todos conseguiram observar e fotografar com calma, deixando todos tão embasbacados quanto eu no sábado. Logo na entrada da reserva, após algumas tentativas de atrair os bichos, um grande bando dos mineirinhos apareceram, forrageando no chão. Quando coloquei o binóculo nos olhos e avistei aquela macho maravilhoso, não pensei duas vezes… Ergui os braços como que comemorando um gol, me dirigi ao Márcio, cumprimentei e agradeci. Viagem completa. Foram mais de 100 espécies registradas, 18 lifers e uma coleção de belezas que só o Cerrado proporciona.

Me resta agradecer a todo o carinho e atenção da família que nos recebeu, à dedicação do Márcio e do Augusto em preparar passarinhadas excelentes e agradeço aos alados, que continuamente me proporcionam experiências indescritíveis. Obrigado!!!

 

Cerrado