Monocarvoeiro, bugio e macaco-prego, sessenta espécies de aves avistadas mesmo sem guia, acomodações e comida excelentes. Segurança, isolamento, privacidade. Valeu a pena conhecer a Bacury, pousada sediada na Fazenda Barreiro Rico, onde fica a maior reserva privada de Mata Atlântica de planalto. Fica na região de Piracicaba. É preciso agendar com antecedência.

A Bacury fica a 3h de São Paulo, em Anhembi, na metade do caminho entre Piracicaba e Botucatu. Pista única a partir de Piracicaba, paisagem rural com cana-de-açúcar a perder de vista. Chegamos na quinta no fim do dia, e fomos recepcionados pelo Carlos Leôncio e sua esposa Silene. Na manhã seguinte, Carlos apresentou os melhores lugares para observação da fauna e nos deixou completamente à vontade para circular pela fazenda.

Tucanuçus, gralhas-do-campo e do cerrado, canários, rolinhas-caldo-de-feijão, três espécies de beija-flores, elaenias, arapaçus, alma-de-gato e até uma maria-faceira circulavam pelo jardim ao redor da sede. Uma estrada municipal corta a fazenda e a mata. Na mata à beira dessa estrada tivemos nosso encontro com os macacos, meu melhor surucuá, e alguns passarinhos.

Uma trilha estreita dentro da mata é promissora, inclusive para mamíferos. Há dois comedouros, visitados por jacus, gralhas, porcos, catetos e veados. A onça parda também anda pela mata, mas é praticamente impossível vê-la durante o dia. O local é bom, mas estamos numa das piores épocas do ano para observar aves. Mesmo assim, ficamos muito contentes com o avistamento de uma juruva, animal fantástico, com aquela cauda enorme, balançando como se fosse um pêndulo. E pude acrescentar um piprídeo à lista. A Rendeira é linda e comum, mas não deu mole para fotos.

O Soldadinho também apareceu, no fim da trilha, no local indicado pelo Carlos. Cris conseguiu uma foto razoável, mas naquelas condições difíceis de luz e distância. Beija-flores na última paineira florida me divertiram por horas.

A melhor época para ver as aves na Bacury é em outubro. Aves aquáticas como o colhereiro, garças e o tuiuiú ficam nas margens da represa de novembro a janeiro. Chegamos a ver um solitário colhereiro cruzando o céu, um absurdo pontinho cor-de-rosa no azul. Interessados em mamíferos têm boas oportunidades, basta ter paciência no comedouro. E o terreno é plano, bem diferente do litoral, os locais bons do Rio de Janeiro, ou Intervales.

Na mata há insetos like hell. Pernilongos, e mosquitinhos pequenos que vão de encontro aos olhos (vou arrumar um óculos de proteção para essas situações). Era muito enervante. Mas nas áreas abertas e secas, sem problemas.

A fazenda recebe principalmente famílias, e estrangeiros em birdwatching. Os brasileiros interessados em aves desanimam por causa do preço. Diária de R$ 250 por pessoa (em abril de 2009), mas com refeições e bebidas não-alcólicas inclusas. É um valor alto, mas valeu a pena, considerando as excelentes acomodações e refeições, a segurança e a exclusividade: eles só recebem um grupo por vez. No mínimo 2 e no máximo 14 pessoas. Ou seja, no feriado tivemos a casa e os locais de passeio só pra gente. Sem nenhum risco de perder uma foto porque um outro grupo chega e afugenta o animal.

A Bacury tem as vantagens dos mamíferos, conforto, terrenos planos. Mas é difícil comparar com as oportunidades de aves em Ubatuba e outros pontos da Mata Atlântica do litoral. Queremos voltar lá em outubro, e talvez em dezembro ou janeiro para ver se as oportunidades com as aves aquáticas é equivalente ao Pantanal.