(Relato de viagem feita em dez/2008, post enviado em jul/2012). A família de minha mulher mora em Aracaju – SE e ano sim, ano não, vamos para o Nordeste na casa do sogro e da sogra. No final de 2008 tudo caminhava para ser mais uma daquelas excelentes férias em família com muita praia, sol, cerveja e algumas pescarias.

Cardeal-do-nordeste (Paroaria dominicana) Red-cowled Cardinal

 

  • Texto e fotos: Luiz Rondini
  • Câmera: Canon Rebel XTi, lente Sigma 170-500mm

Apesar de fotografar aves desde o começo dos anos 2000, em 2008 duas coisas haviam mudado: eu comprei minha primeira máquina fotográfica digital e conheci e comecei a postar fotos no finado Aves do Brasil. A partir daquele ano as férias nunca mais foram do mesmo jeito. Eu comecei a fazer roteiros fotográficos associados às férias de família. Fato que me lembra o caso de um passarinheiro que fez tantas fotos de aves em viagem de Lua de Mel que ficou a dúvida se sobrou tempo para o restante…

Além dos arredores de Aracaju, em Sergipe eu havia me programado para conhecer o Parque Estadual de Itabaiana. Lugar muito interessante com muitas espécies de aves e relativamente perto da Capital. Foi lá que fiz minha primeira foto do surucuá-de-barriga-vermelha (Trogon curucui) e do beija-flor-vermelho ( Chrysolampis mosquitus).

Motivado pela busca por mais espécies e inspirado por uma seqüência de fotos de aves do sertão nordestino feitas por Stephen Jones naquele mesmo ano, resolvi fazer as malas e pegar um ônibus para Canindé de São Francisco onde se encontra a Usina hidroéletrica de Xingó e o famoso e lindíssimo cânion do Rio São Francisco.

A família tentou me dissuadir, pois eu não tinha reservas em pousada e iria sozinho para um lugar desconhecido com todo aquele equipamento fotográfico. Meu sogro que conhece a região achava a viagem arriscada. Nada me impediu.

Naquele ano estava bem seco e o cenário desolado da caatinga que observei no caminho até Xingó não me preparou para toda a exuberância do sertão que haveria de conhecer naquela e em outra viagem pelo interior do Nordeste.

Essa foi minha primeira “aventura” fotográfica pelo Nordeste. Em Canindé de São Francisco logo arrumei um moto-taxi – substitui o táxi por lá – e esse foi o meu transporte durante aqueles dias. Não tenho fotos mas quem viu disse que era engraçado eu, com todo o meu tamanho mais bagagens, em cima de uma motocicleta pequena de 125 cc.

Consegui uma pousada às margens do Rio São Francisco e lá mesmo, em seus jardins, fiz meu primeiro registro de fim-fim (Euphonia chlorotica) e de rolinha-picui (Columbina picui).

O destaque dessa viagem foi o passeio até a Grota de Angicos. Tudo começa com um passeio de barco pelo carismático Rio São Francisco. O Catamarã faz o passeio regularmente. Só esse passeio já vale a viagem. Rio abaixo se chega a um local com um modesto bar/restaurante. Nesse local começa a trilha que leva ao sítio históricoem que Lampiãoe Maria Bonita foram mortos pela polícia alagoana em 1938. Alias, nessa região são muito presentes as histórias de Lampião e do cangaço. Ali perto, do outro lado do rio São Francisco e já em território alagoano, está a cidade de Piranhas que foi por várias vezes invadida pelo bando de Lampião e para onde fora levadas as cabeças dos cangaceiros mortos em Angicos.

Ao redor do bar/restaurante e na trilha até a Grota de Angicos é possível se ver uma série de espécies típicas da região. Foi aí que fotografei o cardeal-do-nordeste (Paroaria dominicana) no próprio nordeste; meu primeiro sebinho-de-olho-de-ouro (Hemitriccus margaritaceiventer) e outros.

Essa viagem foi um passeio inesquecível por uma região exuberante e ainda muito pouco explorada em termos de observação de aves. Vale muito a pena! Mas apesar de uma bela viagem, foi só o início de tudo que vivi e ainda viverei por todo esse sertão nordestino.