Segundo a tradução mais aceita, Ubatuba significa lugar de muitas canoas. Assim nasceu a cidade, ligada à navegação e ao mar. Hoje o nome Ubatuba remete a belas praias, ilhas, matas preservadas e as aves. Uma incrível diversidade de aves. Juntar, floresta e aves, é fácil. E aves com mar?

 

Ubatuba é referência no mergulho do Brasil, mas temos aves oceânicas em Ubatuba? Certamente. Quais? Onde?

Pronto, começou a curiosidade inquietante, aquela que faz a roda virar. Nesse caso, a roda de leme. Muitas conversas, planos e dúvidas. Todos que confirmavam ter avistado albatrozes em Ubatuba, falavam que era preciso navegar umas sessenta milhas náuticas rumo sul. Bem, 60 NM são aproximadamente 110 km de distância da costa, longe pacas. Navegando com um veleiro oceânico, seriam necessárias onze horas para ir, mais onze horas para voltar, isso se não acontecesse nenhum imprevisto. Com uma boa e grande lancha, seria possível cobrir essa distância em três horas. Todas as opções mostravam-se arriscadas e caras. Ainda mais porque não existia nenhuma garantia de encontrarmos as aves.

Em maio de 2012, veio a novidade, a equipe do Projeto Dacnis de Ubatuba fotografou o Albatroz-de-nariz-amarelo a 28 NM ao sul de Ubatuba. Que beleza! Menos da metade da distância estimada! Isso abriu um novo horizonte. Navegando de veleiro por apenas cinco horas em mar aberto, chegaríamos ao local onde ocorreu o encontro fotográfico. Muito mais viável.

Como a intenção era verificar a presença de albatrozes em Ubatuba, o primeiro passo foi definir quais são os limites marinhos da cidade. Tanto as 12 NM, que delimitam a faixa do mar territorial brasileiro, como as 200 NM da ZEE, Zona Econômica Exclusiva, pertencem à União. Por causa das discussões sobre a divisão dos royalties da exploração de petróleo no litoral brasileiro, o IBGE foi obrigado a seguir alguns critérios para definir os limites marinhos municipais. Para o nosso caso, decidimos adotar o método das ortogonais relativas a linha do mar territorial brasileiro definida pelo IBGE e Marinha do Brasil. Assim traçamos nos mapas os limites marinhos de Ubatuba meramente para atender a curiosidade. Mesmo porque, as aves marinhas vagam livremente, não se preocupam com divisas imaginárias traçadas em mapas.

Traçados os limites marinhos de Ubatuba, era preciso preparar o veleiro, planejar quais equipamentos levar, como atrair as aves e uma infinidade de ajustes. Mais importante, aguardar uma janela de tempo bom. O mar é maravilhoso e soberano. Um lugar onde as forças da natureza não toleram desaforos. Escolher uma boa janela de tempo é fundamental para segurança. Os dias foram passando e não surgia nenhuma janelinha segura o suficiente.

Quando, finalmente, as previsões apontaram uma boa data, veio outro contratempo. O Edson Endrigo, companheiro de expedições fotográficas, estaria viajando na data escolhida. Outras pessoas que gostaríamos de levar, também não poderiam ir ou não tinham experiência suficiente para enfrentar tanto mar. Sinceramente, não é tanto mar assim, na verdade é uma curta velejada para quem é do mar. A questão é: a maioria dos apaixonados por aves não são pessoas acostumadas ao mar. Decidimos seguir sem a turma das aves, mas com a turma do mar. A equipe do Projeto Aves do Itamambuca Eco Resort, para primeira saída da expedição, seria composta três pessoas apaixonadas pelo mar. Entre elas Renan Godoy de apenas 10 anos, mas uma grande bagagem náutica. Se encontrássemos os albatrozes, organizaríamos outras saídas com mais amigos.

Às 5:00 h do último domingo de maio, iniciamos a expedição. Carregamos todos os equipamentos no barco e com os primeiros raios de sol, apontamos para os 180º Sul magnético. Com pouquíssimo vento, vela mestra içada para tirar o balanço, seguimos por horas ao som cadenciado do motor. Próximos a Ilha da Vitória, escolhemos nossa primeira parada, Ilhota das Cabras. Esse é nome oficial, que consta nas cartas náuticas da marinha, mas a maioria chama-a carinhosamente de Cagadinha. Quem avista a ilhota, compreende na hora a origem desse sugestivo nome. A pequena ilha é um importante ninhal de atobás e fragatas, quase todas suas pedras possuem marcas brancas de fezes escorridas.

Cagadinha: um importante ninhal de aves marinhas.

A ilhota seria um bom lugar para testar os métodos idealizados para atrair albatrozes. Montamos uma pequena prancha bodyboard com diversos peixes afixados. Arrastamos essa prancha por alguns minutos e nada. As aves até ficavam curiosas, mas perdiam rapidamente o interesse.

Lançamos algumas iscas ao ar para chamar a atenção e nada. Jogamos várias sobras de limpeza de peixe e também não conseguimos o interesse desejado. Tantas aves marinhas e tão perto, porque não vinham banquetear? Resolvemos adotar a técnica ensinada pelo biólogo Fábio Olmos. Injetar ar nos peixes para flutuarem.

Não foi tão simples, o ar vazava e os peixes afundavam. Quem arrumou a solução foi o garoto Renan. Experimentou injetar o ar de forma subcutânea na cauda dos peixes. Funcionou, os peixes passaram a flutuar e finalmente conseguimos atrair alguns atobás, fragatas, gaivotas e trinta-réis.

Apesar de belas, essas não eram as aves que procurávamos. Testes feitos, apontamos novamente para o sul, agora arrastando a pequena prancha cheia de peixes. Em poucos minutos, uma onda engoliu a pranchinha, rompendo a amarração e levando as iscas afixadas. Recolhemos tudo e desistimos desse método. Bolamos uma nova tentativa, uma fieira de arame com vários peixes. Não funcionou, os peixes desmanchavam-se rápido demais. Para chamar a atenção das aves, queríamos iscas na água, soltando odores e sabores enquanto navegávamos. Resolvemos usar uma garrafa plástica com vários cortes e peixes dentro.

Sucesso! Acabáramos de inventar uma nova forma de reutilizar as garrafas PET. As iscas não saiam da garrafa e vagarosamente se desmanchavam. Algumas fragatas curiosas vinham observar o estranho “peixe”. Bom sinal.

Mais duas horas rumo sul e as ilhas, montanhas, o próprio continente, tudo foi ficando pequeno e distante. Nada de albatrozes ou outras aves marinhas. Atingimos as coordenadas fornecidas pelo biólogo Edélcio Muscat do Projeto Dacnis e nenhuma ave. O mar que era para ser de um azul profundo, nesse dia estava um azul esverdeado, desanimado como nós.

Estabelecemos um limite, navegar por mais vinte minutos e retornar. Como última tentativa, paramos o barco, começamos a injetar ar nos peixes e lançar ao mar. Passaram-se uns dois minutos e um pequeno vulto surgiu no horizonte. Um voo majestoso. Um albatroz! Incrível. Estávamos boiando no meio do nada, sem ver nada e surge um albatroz do nada. Que aves fantásticas!

Albatroz-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos) Yellow-nosed Albatross: fica meses vagando pelos mares.

Pela faixa amarela no bico, foi fácil identificar o ameaçado albatrozes-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos). Ele procria próximo a África, na ilha de Tristão da Cunha, e passa a vida vagando pelo sul do Atlântico. Uma ave adaptada aos mares e ventos bravios.

Não demorou muito, tivemos outra bela surpresa. O migratório bobo-grande-de-sobre-branco (Puffinus gravis) também surgiu do nada e veio se deliciar com os peixes. De menor porte, essa ave nidifica nas ilhas austrais e por um curto período de tempo, durante sua jornada ao Atlântico norte, passa pelas águas brasileiras. Num instante, tínhamos sete albatrozes, seis bobos e três tripulantes com caras de bobos presenciando o espetáculo em alto mar.

Bobo-grande-de-sobre-branco (Puffinus gravis) Greater Shearwater: mais um vistante dos mares austrais.

Foram centenas de fotos em uma hora de ação. Enquanto fotografávamos, uma forte correnteza nos levou por cinco quilômetros a nordeste. Mais uma amostra da energia do mar.

Às duas da tarde iniciamos o retorno. Com cinco horas de mar calmo, um revigorante pôr do sol e tranquila navegação noturna, chegarmos ao melhor porto natural de Ubatuba: Saco da Ribeira. Exaustos e felizes, concluímos a primeira busca aos albatrozes.

Mapa da mina: em verde, o track da primeira navegação

Empolgados com o sucesso da primeira expedição, iniciamos o planejamento para uma segunda saída. Há alguns anos, o Projeto Aves do Itamambuca Eco Resort comprometeu-se em auxiliar o consagrado fotógrafo Edson Endrigo na captura de imagens de albatrozes para o livro Aves nos Ambientes Costeiros. A chance de um novo encontro com os albatrozes era bem alta, desde que não demorássemos muito até a próxima saída. Imediatamente começamos a busca por uma nova janela de tempo. Ela apareceu na semana seguinte, um pouco apertada, mas viável. Seguiu-se então a preparação do veleiro, iscas, equipamentos de segurança e inúmeros detalhes que envolvem uma saída para o alto mar.

Oito dias após a primeira expedição, logo ao nascer do sol, partimos para mais uma jornada ao mar aberto, agora com a tripulação reduzida a duas pessoas. A ideia era seguir por cinco horas rumo ao sul, sem paradas, até o ponto onde tivemos o encontro com os albatrozes. Para nossa alegria, os planos foram interrompidos mais de uma vez. Logo no início, próximo a Ilha Anchieta, um barco pesqueiro limpava sua rede. Um grande bando de atobás e fragatas faziam a festa com os descartes. Impossível resistir à luz difusa do amanhecer.

Fizemos as primeiras fotos do dia. Um pouco antes da Ilha da Vitória, outro encontro. Um bobo-grande-de-sobre-branco permitiu a aproximação e novas fotos. Confiantes, continuamos navegando para o sul.

Novamente o continente foi ficando distante e o mar se mostrava deserto. De repente no horizonte, percebemos o majestoso voo pendulante. Um albatroz veio verificar o que um veleiro fazia em seus domínios. Usamos a técnica de injetar ar nas iscas para elas flutuarem e atraírem as aves. Funcionou. Emoção total. Conseguimos boas imagens dos seis albatrozes-de-nariz-amarelo e um bobo-grande-de-sobre-branco que se aproximaram. De quebra, ainda fizemos algumas fotos distantes do esperto Alma-de-mestre. Com o nome científico Oceanites oceanicus, não é difícil perceber que ele também vive no alto mar. Dessa vez, havia um pouco mais de vento, levando o veleiro para longe das iscas e exigindo ainda mais trabalho.

Depois de uma hora e quinze quilos de peixes, içamos todas as velas e aproamos para Ubatuba. Sopravam doze nós de vento leste, força certa para uma saborosa velejada oceânica.

Quarenta minutos velejando rumo norte e som do casco abrindo bigodes no mar é interrompido: “Lá vem um albatroz!” A frase do Edson foi a senha para mais ação. Jogar peixes ao mar, virar o veleiro contra o vento, enrolar a vela de proa, injetar ar nas iscas, se equilibrar com o balanço das ondas, acertar o rumo, posicionar o barco para a melhor luz, caprichar no foco e clique, clique, cliques. Um grande esforço amplamente recompensado. Nosso albatroz de despedida foi um verdadeiro prêmio. Um ameaçado Albatroz-de-sobrancelha (Thalassarche melanophris), frequentador dos gelados mares austrais e muito raro no litoral sudeste do Brasil.

Juvenil: Albatroz-de-sobrancelha (Thalassarche melanophris) Black-browed Albatross, pela cor do bico e plumagem descobre-se sua idade.

Aproveitamos a volta, para lançar as últimas iscas aos atobás próximos da ilhota Cagadinha. Conforme nos aproximávamos da costa, sol, vento e mar foram baixando, trazendo mais um espetacular pôr do sol. Depois de 12:40 h e 107 km navegados, estávamos de volta a terra firme. Agora com uma certeza, as águas de Ubatuba são frequentadas por albatrozes e outras maravilhas oceânicas. Eles estão lá esperando a próxima visita!

Ilha Anchieta: uma bela visão para quem chega pelo mar.

 

Para saber mais

Como boa parte dos velejadores, utilizamos o site Windguru – www.windguru.com – para ficar de olho nas previsões de tempo e mar. O nível de acerto tem justificado o nome guru. Cartas náuticas e dados vetoriais de altíssima qualidade estão disponíveis gratuitamente nos sites da Marinha do Brasil – www.mar.mil.com.br – e IBGE – http://biblioteca.ibge.gov.br – Vale a pena conferir. Você pode baixar os tracks das duas expedições e os limites de Ubatuba no formato Google Earth em: www.itamambuca.com.br/expedicao_albatrozes.kml

Dimitri Matoszko é empresario, mergulhador, velejador e premiado fotógrafo de natureza. Fundador do Projeto Aves do Itamambuca Eco Resort, desenvolve projetos de preservação ambiental através do turismo sustentável.