Por diversas vezes eu já havia avistado cruzando os céus de Sacramento uma ave imponente, de cor cinza-chumbo e porte grande. Entretanto, nunca com a possibilidade de realizar mais que um simples registro fotográfico onde mal podia se distinguir a silhueta da ave.

Desta vez porém, foi diferente. Acompanhado pelo biólogo e professor Berto Cerchi, depois de visitarmos a vila histórica do Desemboque, seguimos rumo a uma das mais antigas fazendas do oeste mineiro, a Fazenda Nova Suécia, localizada nos limites do Parque Nacional da Serra da Canastra.

No caminho, povoado por carcarás, gaviões-caboclos e carijós e até um urubu-rei (Sarcoramphus papa) comentávamos sobre a ocorrência naquela região de uma das águias mais raras e ameaçadas do Brasil atualmente, a águia-cinzenta (Urubitinga coronata).

Momentos depois, chegando à fazenda, atravessávamos uma mata extensa, com árvores centenárias cujas copas sobressaiam por sobre o dossel e permitiam visualizar a imensidão dos campos gerais que caracterizam o município de Sacramento, no Triângulo Mineiro. Em uma árvore mais alta, com os galhos superiores já ressequidos percebemos duas aves grandes, pousadas lado a lado. Ao examinar com os binóculos quase não acreditamos… era um casal de águia-cinzenta!

A águia-cinzenta é uma espécie mundialmente ameaçada, e em nosso país é considerada em perigo de extinção. Uma das maiores águias brasileiras, podendo chegar a medir 85cm de altura e atingir 2 metros de envergadura, é também, infelizmente, uma das mais raras em toda a América do Sul, devido a destruição implacável de sua área de ocorrência, o cerrado, que lamentavelmente vem sendo completamente tomado pela agroindústria.

De temperamento forte, a águia-cinzenta observa a movimentação do alto das árvores de onde caça animais de médio e pequeno porte como tatus, quatis, gambás, serpentes e ratos silvestres.

Geralmente vista solitária, esta águia forma um casal apenas na época de reprodução, que vai de julho a novembro. É uma águia naturalmente rara, difícil de ser vista até mesmo em conhecidas áreas de ocorrência. E bem ali, pousado na nossa frente estava um casal desse magnífico accipitrídeo!

A adrenalina tomou conta de nós, ao nos aproximarmos, o que eu julgo ser o macho vocalizava com veemência, emitindo um canto agudo e lamuriante. Fotografei o casal tomado pela emoção, por alguns minutos abaixei a câmera e contemplei com o binóculo todos os detalhes e toda a exuberância destes poderosos falconiformes habitantes dos campos cerrados brasileiros, antes que o casal levantasse vôo exibindo toda sua majestosidade.

Acompanhei o vôo com um misto de reverencia e admiração, até que as silhuetas das aves se misturassem com a linha difusa do horizonte.

Como esta espécie não costuma aparecer em casais, e no local onde as avistamos existe uma mata de porte considerável, acredito que o casal pode estar se reproduzindo nas imediações. Pretendo retornar ao local com o intuito de localizar um possível ninho.

Enfim, retornamos para casa realizados e com as esperanças renovadas pela constatação de que a vida ainda luta em se perpetuar nas encostas surpreendentes da Serra da Canastra.