Por que o foco do birdwatching deveria mudar de ego-e-vaidade pra proteção à natureza?

  • Texto e fotos: Claudia Komesu

“Eu sou competitivo. Entro todos os dias no ranking do Wikiaves pra checar como está minha posição”

Ouvi isso de uma pessoa que nunca imaginei que era do tipo, porque o que ele fala e as ações dele são sempre pela proteção da natureza.

“Você vê… o que eu penso é uma coisa, eu, pra mim — eu gosto de ser competitivo. Mas não falo sobre isso, isso não faz bem pro meu trabalho, não contribui pra natureza. Essa questão do fotão, por exemplo… quantas pessoas podem ter uma câmera boa, dessas que faz fotão? E eu lembro que era isso que as pessoas me falavam ‘esquece essa câmera, você precisa ter a câmera tal. Guarda dinheiro e compra a câmera tal’ e assim parecia que a coisa mais importante do birdwatching era conseguir fotos impressionantes. Hoje eu acho tão legal quando o pessoal chega passarinhando com binóculo, porque o binóculo é muito mais barato, aumenta a quantidade de pessoas que podem curtir a natureza. Agora se eu falo ‘pra curtir a natureza você precisa ter tal DSLR’, sobra pouca gente.”

 

“É muito difícil, sabe? O pessoal chega com meta de lifers pro passeio – preciso ver tantos lifers. Não importa o quê, não importa como, e esse pessoal simplesmente não se importa de estressar a ave. Já briguei com cliente porque interrompi o playback, já estava estressando a ave, e o cara queria que eu continuasse. E ele já tinha conseguido uma foto boa, mas ele queria uma melhor ainda. Falei pra ele que a gente estava estressando a ave, por isso parei. Daí ele pegou o aparelho dele e começou a tocar. Tive que falar ‘ou você interrompe, ou o passeio termina agora, não sou mais seu guia’. E depois esse pessoal fala que eu faço corpo mole pra guiar.”

 

“Um casal com um filho adolescente. Os pais eram tranquilos, mas o garoto chegou com uma lista de 20 lifers, e no fim do passeio estava bravo porque só tinha conseguido 15, e ele precisava dos 20”.

 

“O clima vai ficando tenso, é terrível. Teve uma viagem que os caras do grupo brigaram entre si porque um atrapalhou a foto do outro, e era um lifer, eles discutiram, decidiram terminar a viagem na hora, o cara queria que eu o levasse pra rodoviária pra ele pegar um ônibus”.

 

“Bom, deixa eu entrar no Facebook e no Wikiaves… preciso ir lá, votar e comentar as fotos do pessoal, senão eles não votam e não comentam as minhas”.

 

“Ele queria me pagar por lifer. Falei ‘não é assim que eu trabalho, não’.”

 

“O cara pediu pra ser meu amigo no Facebook. Aceitei, aceito qualquer um que é ligado com birdwatching. Assim que aceitei chegou uma mensagem ‘oi, vai lá curtir minha foto’,  e o link de uma foto no Wikiaves, nem sei o que era. Provavelmente algo mais incomum, que ele estava recebendo votos e queria mais votos ainda. Desfiz a amizade na hora”.

 

 

Faz anos que tenho informações como essas, e tenho vontade de escrever assim, explicitamente. Mas tinha receio disso ser usado contra os birdwatchers, por pessoas da Fundação Florestal ou do ICMBio que são contra o uso público dos parques.

Hoje temos a Portaria Estadual FF 236/2016, ouço cada vez mais histórias de birdwatchers trabalhando junto com gestores, então acho que já está mais consolidada a consciência de que há vários birdwatchers capazes de ajudar bastante a natureza, que as fotos e registros são importantes pro parque, e que seria errado punir todo um grupo porque algumas pessoas perderam a noção do que é importante num passeio.

Acho que hoje já podemos falar disso. Eu não tenho noção do quanto esses exemplos tristes representam do grupo em porcentagem, mas o que eu posso dizer é que nas redes sociais, a cultura da aclamação por lifer e fotão é a faceta mais popular do birdwatching. É a que ganha mais likes e comentários, enquanto as ações pela preservação da natureza ou qualquer outro assunto do tipo têm pouca repercussão.

 

A toxicidade da aclamação popular

“Você é incrível!”, “perfeita!”, “click fantástico”, “só você poderia conseguir essa foto!”, “uaaau, cinco estrelas!!”, “a melhor foto que já vi da espécie!”, “ótimo enquadramento!”, “lindaaaa!”, “lifer número xxxxxxx parabéns, você é demais!”

Eu entendo como isso pode ser inebriante. Ainda mais porque as pessoas top costumam receber dezenas, às vezes centenas de comentários como esse.

(Entendo mas não faz meu tipo… aliás, foi um dos motivos pra me afastar do Wikiaves, e pra nunca cultivar isso no Facebook. Quando começou a acontecer no Wikiaves, em 2010, era evidente que tinha muita gente fazendo spam e querendo em troca ser elogiado e votado).

Ok, eu sou a esquisita que só aceita elogios se achar que é algo sincero, autêntico, desinteressado. Mas nem todo mundo é esquisitinho assim, qual o problema da pessoa ficar contente com as dezenas ou centenas de elogios?

Não haveria nenhum problema, se não fossem estes fatores:

1 – muita gente quer continuar a, ou quer começar a receber a aclamação popular. E pra isso são capazes de:

– estabelecer metas numéricas de lifers, e tentar alcançar a qualquer custo, mesmo que seja pra estressar a ave, e o guia.

– a busca pelo fotão também pode levar a abuso de playback, ou de aproximação da ave, até mesmo de ninhos.

– a busca pelo fotão também fez muita gente se enveredar pelo Photoshop – nada contra, o Photoshop serve pra isso. Mas assim como a divulgação de imagens de mulheres photoshopadas criou uma ilusão sobre o que o corpo da mulher precisa ser, a disseminação de fotos de aves photoshopadas, sem você contar o quanto foram alteradas cria expectativas inalcançáveis. Às vezes a ponto do fulano pedir pro guia continuar tocando o playback, porque ainda não conseguiu uma foto tão boa quanto a sua – só que o fulano não sabe que provavelmente não vai conseguir, que é uma chance raríssima mesmo, porque a sua, tão perfeita, foi conseguida no computador.

Não é errado usar o Photoshop. Mas acho desonesto não contar que foi pelo Photoshop, porque veja só, ao omitir essa informação você alimenta a loucura do mundo, seja a busca pelo corpo perfeito-irreal, seja pela busca do fotão em condições que são bem raras de acontecer.

Apenas blogando: qual a relação entre o 3×4-Sensação e os padrões de beleza? Abr/17, por Claudia Komesu

 

2 – O foco no ego-e-vaidade, aclamação popular, ranking do Wikiaves, faz com que isso pareça ser o cerne do birdwatching

Quem ainda não sabe o que é birdwatching, e olha o Facebook ou o Wikiaves, conclui que ser birdwatcher é conseguir muitos lifers com fotões, quanto mais melhor.

“Eu entendo o que você está me falando… quando comecei a usar o Wikiaves, comecei a fazer essa coisa de ficar elogiando as fotos dos outros, pra elogiarem as minhas também. E ficava pensando ‘preciso conseguir foto no padrão Wikiaves’ “.

Se o que merece ser a homepage, ou o que recebe mais likes e comentários são fotões, espécies incomuns, se o que merece ter ranking é quem conseguiu mais lifer, se há pouco destaque pra ações a favor da natureza, o que um novato vai concluir sobre o que é ser birdwatcher?

E mesmo quem não é novato… como é fácil se inebriar ou tentar alcançar o status das pessoas que recebem aclamação popular. E, para isso, buscar com todas suas forças aquilo que o povo aclama: fotão e lifer.

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Falo disso sempre. Não tem nada de errado em ser competitivo, de gostar de lifers, de fotão e mesmo em gostar da aclamação popular. Minha briga, há anos, é porque tanta gente parece agir de forma pequena: ignorando o quanto a natureza precisa de ajuda, ignorando o fato que vivemos em sociedade, numa comunidade, e que cada ação nossa influencia os outros.

Será que podemos agir de forma mais consciente? Será que podemos dar mais espaço no nosso discurso pra falar sobre proteção à natureza, para tentar mostrar que passarinhar deveria andar sempre casado com preservar? Que o cerne do birdwatching não é lifer-likes-fotão? E, talvez num futuro próximo, o cerne do birdwatching possa ser atuarmos como vigilantes e protetores da natureza.

Está dentro do nosso alcance criar uma comunidade que promove valorização do meio ambiente, consciência, união, camaradagem. Não tem nenhum problema em ser competitivo, em ser tarado por lifers e likes. Desde que sua atuação não pare aí: desde que todo mundo entenda que o birdwatching é muito maior do que ego-e-vaidade, que somos uma comunidade e cada ação pública nossa repercute, e que podemos promover valores a favor da proteção da natureza.

Pode contar que chegou no lifer número xxxxxx, que a viagem tal foi incrível. Mas conte também o que você fez pelo local, conte que doou dinheiro pra ONG tal, ou pra comunidade tal, que ajudou na preservação daquele pedacinho de mata, que contribui pras comunidades do entorno, que enviou as fotos do passeio pro gestor do parque. Mostre que essas fotos não são apenas um check numa lista, um troféu, um chamariz de likes e aclamação. Mostre que você realmente se importa com a natureza.

Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)