O que é uma boa fotografia de natureza? Uma busca por estilo e identidade

  • Texto e fotos: Claudia Komesu

O que é beleza? Como você sabe o que é uma foto bonita? Em geral as pessoas usam dois parâmetros principais: comparação com resultados de concursos e aclamação popular nas redes sociais. Os dois estão relacionados e vou lhes dizer por que você não deveria adotá-los.

Você entende que beleza não é um conceito universal incontestável, e sim uma escolha que depende do país onde você nasceu, se você é homem ou mulher, sua idade, sua faixa socioeconômica, sua herança cultural, as experiências que você viveu, as pessoas com quem você convive? A imposição de padrões de beleza, por exemplo, da beleza feminina, pode trazer a ilusão de que existe uma beleza universal, mas isso é um mito.

O resultado de um concurso de fotografia apenas reflete o que um grupo de jurados, em geral bem homogêneo, acha bonito. Quando a revista People diz que a Julia Roberts é a mulher mais bonita do mundo, ou quando uma loirinha de olhos azuis é eleita a criança mais bonita do mundo, o que você acha que a África, a Ásia, a Oceania e a América do Sul pensam disso?

Tenha clareza: o resultado de um concurso reflete os gostos do júri, e só.

A National Geographic e a BBC têm concursos anuais de fotos de natureza. Os resultados são sempre incríveis, mas se você acompanha o processo (eles mostram as fotos finalistas que estão concorrendo em cada categoria), mais uma vez você se vê frente à arbitrariedade. Nunca vi uma foto que pensei “sem dúvida nenhuma essa mereceu ser a vencedora!”, porque num campo tão competitivo, há muitas fotos boas.

http://www.bbc.com/news/in-pictures-38083691

http://photography.nationalgeographic.com/nature-photographer-of-the-year-2016/

Num concurso você supõe que o júri terá um determinado nível técnico de conhecimento, mas é comum você descobrir que não. Há concursos em que fotos bonitas, mas de bichos comuns como garças ou aves típicas de comedouros ou bebedouros, ou aves que você sabe que são mansas, ganham prêmio ou menção honrosa, e você fica pensando se o júri tem experiência em campo.

Mesmo a National Geographic é capaz de fazer uma dessas. Uma magnífica Great Gray Owl ganhou uma menção honrosa, e foi preciso os leitores reclamarem da legenda “estávamos admirando o por do sol, e de repente apareceu essa coruja”. Essa linda coruja. Tão de perto, de frente, bem enquadrada, fotografada num ângulo próximo do chão, pegando um indefeso ratinho doméstico que nunca estaria naturalmente no meio da neve. Qualquer um com um mínimo de experiência de campo, ou antenado com notícias sabe que é foto com isca, mas ao publicar a história fictícia, ficou provado que o editor não tem experiência ou conhecimento geral.

http://www.nationalgeographic.com/photography/photo-of-the-day/2013/4/gray-owl-mouse/

OWL AND MOUSE, MINNESOTA

This Month in Photo of the Day: Nature and Weather Photos

Great gray owls come south from Canada into Minnesota during the winter to find food. This owl was on the north shore of Lake Superior, just south of Two Harbors, Minnesota. We happened to find him as the sun was setting, and in the evening light, we were able to be in a position to see an owl that was hunting when a mouse came out, and the owl was quick to pounce and pick up an evening meal.

(This photo and caption were submitted to My Shot.)

Editor’s Note, April 18, 2013: Since first posting this picture, we’ve received additional information. The mouse was placed in position to attract the owl.

Tem havido cada vez mais críticas à prática de dar ratos às corujas para conseguir boas fotos, porque elas se acostumam com as pessoas, ficam mais propensas a atropelamentos ou a ser mortas por caçadores, ou a morrer de doenças porque não há garantia da procedência dos ratos dados como iscas.

http://theafternoonbirder.com/owl-baiting/

http://www.spokesman.com/stories/2017/feb/28/out-about-photographer-calls-owl-baiting-unethical/

Importante: comedouros e bebedouros não têm nada a ver com essa situação — os artigos deixam claro, e isso também é muito diferente da situação do mocho-dos-banhados de Americana. O Gustavo Pinto nunca alimentou as corujas para ser mais fácil alguém fotografar, ele só fez numa situação em que os incêndios tinham acabado com os campos de caça das corujas e havia risco dos filhotes morrerem de fome. Nessa situação fizemos uma vaquinha e compramos ratos criados especialmente para essa finalidade. Os ratos eram isentos de qualquer doença, tinham uma morte instantânea com um choque elétrico, e depois congelados e empacotados.

 

Se num grupo de pessoas especializadas, com experiência profissional no tema, é possível um editor não reconhecer uma foto montada, além do viés de quem a pessoa é, o que esperar da aclamação popular?

A quantidade de likes e elogios de uma foto na maioria das redes sociais dependem de saturação, foco cravado, proximidade, recorte fechado, fundo limpo e, se for entre birdwatchers, espécie incomum. Em resumo, algo como um 3×4-Sensação. As penas super-definidas, fundo limpo, de preferência bicho colorido são sempre impactantes.

 

Exemplos de fotos 3×4-Sensação:

Pra que fique claro: não estou falando que o 3×4-Sensação é errado. Se a foto não estressou demais ou prejudicou a ave, não tenho nada contra. O 3×4-Sensação é lindo, tenho várias fotos assim de que gosto bastante.

Entretanto há um aspecto dessa história que pra mim é um fato: a aclamação popular do 3×4-Sensação te deixa tapado. Tapado no sentido de só ser capaz de olhar pra uma direção, de só buscar um tipo de foto. Falo por experiência própria. É muito fácil se tornar uma pessoa que só busca fotos no limpo, no aberto, com fundo homogêneo, o mais perto possível, com luz favorável, de preferência bichos incomuns, coloridos, ou então lifers. E se não forem essas condições, você nem olha, nem analisa o potencial da cena como uma boa foto. Se está longe demais, embrenhado demais, mal posicionado, não dá pra ver as características importantes de identificação da espécie, se está no contraluz ou escuro, ou só silhueta, se é LBJ não-lifer ou se é bicho comum: não, não, não vou gastar um click com isso. Ou se não é ave então não fotografo, na verdade nem reparo que existe.

 

Por que alguém deveria se preocupar em buscar imagens diferentes do 3×4-Sensação, se as fotos são tão bonitas e todos gostam tanto?

Porque quem só tem olhos pra um estilo está perdendo muitas oportunidades. Como fotógrafo, você está inibindo sua criatividade, seu olhar estético. Como ambientalista e cientista cidadão, você está perdendo as chances de documentar e divulgar bichos, plantas e paisagens. Há uma outra questão moral, que é o fato de que o 3×4-Sensação ser bem difícil de conseguir se você tem uma câmera mais modesta, e toda a aclamação em torno do 3×4-Sensação já fez muitas pessoas sentirem que só serão birdwatchers mesmo quando conseguirem aquele tipo de foto.

Você pode buscar só lifers e likes, é claro que você pode fazer o que quiser. Mas se você quer investir no seu olhar fotográfico, se você quer expandir sua atuação como cientista cidadão, se você pensa que é importante democratizar e popularizar os passeios: tire o 3×4-Sensação do pedestal e passe a falar mais sobre preservação da natureza e fraternidade.

 

Exemplos de fotos em que busco um outro estilo. A maioria dessas fotos não chamaria muita atenção no Wikiaves ou no Facebook:

 

Como desenvolver um outro olhar fotográfico?

– Tente se livrar dos condicionamentos sobre espécie comum x incomum, longe demais, embrenhado demais, luz não favorável, não totalmente no limpo. Tente olhar mais o cenário e pensar nas folhas, flores, galhos, troncos como elementos importantes da composição. Fotografe mais e, ao editar as fotos, tente pensar que a foto não precisa de pontos no Wikiaves ou de Likes no Facebook. Tente descobrir o que você acha bonito.

– Não faça só recortes fechados na ave, busque imagens que tragam algo do cenário, do clima do momento. Ou no mínimo, se for para inserir fotos 3×4-Sensação, crie uma galeria em que também haja fotos do cenário, de plantas, de outros bichos, especialmente insetos e aracnídeos.

– Flores, um tronco bonito, musgos, são elementos que enriquecem a foto, mantenha-se atento. Qualquer bicho numa flor tem o potencial pra ser uma linda foto.

– Olhar o trabalho de bons fotógrafos é eterna fonte de inspiração. Procurei posts que listavam fotógrafos de natureza e de aves, e agrupei os sites entre o que considerei ser um trabalho com uma busca por um estilo ou algo mais incomum, e os mais tradicionais (segue abaixo). De todos, o meu favorito atualmente é o Vincent Munier, pra mim as fotos dele são poesia, e provavelmente há um peso da questão cultural: Munier já declarou que estudou arte japonesa e tem fotos que poderiam ser pinturas japonesas.

– Já gostava de insetos e flores, mas conhecer o www.inaturalist.org mudou alguma coisa da minha visão. Depois que conheci esse site (e passei uns dois meses postando muito), passei a enxergar mais. Descobri planárias terrestres, tenho visto pererecas onde antes só veria folhas, tenho visto besouros incríveis, tenho fotografado embaixo d´água. Várias das minhas fotos favoritas dos últimos meses são de frutinhos, aranhas, besouros, caracóis.

 

Algumas das minhas fotos favoritas de não-aves, a maioria delas feitas nos últimos 5 meses, depois de eu ter conhecido o Inaturalist:

Você também busca um estilo fotográfico que não seja só o 3×4-Sensação? Gostaria de compartilhar? Você pode fazer um post falando das suas escolhas, o que você busca quando sai pra fotografar, e mostrar uma galeria de fotos. Só mandar para claudia.komesu@gmail.com.

 

Meus favoritos:

http://www.stefanounterthiner.com/photo-stories 

http://vincentmunier.com

http://www.discoverwildlife.com/gallery/jim-brandenburg-america – foi meu favorito por um bom tempo, especialmente por causa do livro Looking for the Summer. http://www.jimbrandenburg.com/

Procurando a referência da menção à ligação de Munier com a arte japonesa, encontrei este fotógrafo http://www.edwingiesbers.com/, contando que tinha recebido um convite da Nikon para testar a nova 80-400, e que tinha ficado muito animado porque é o tipo de coisa que só fotógrafos como Vincent Munier e Jim Brandenburg tinham (que coincidência, acabei de descobrir que podia ser curadora da Nikon :) ). Munier continua sendo meu favorito, seguido de Brandenburg, mas reconheço que Giesbers tem um estilo valoroso. Os três têm páginas no Facebook.

 

Fotografia mais autoral em que o autor publicou fotos com busca por um estilo ou cenas incomuns

http://www.timlaman.com/

http://www.deepgreenphotography.com

http://www.jessfindlay.com/birds/

https://www.instagram.com/markusvaresvuo/

http://www.davidtipling.com/

https://www.melissagroo.com/gallery.php

http://jaripeltomaki.com/beauty-of-birds-top-50-4/

http://www.matebence.hu/  / https://zimanga.com/gallery/bence-mate

http://www.stevebloomphoto.com/portfolios/index.html – tenho o livro Untamed, é incrível. Ele segue um estilo mais tradicional, mas consegue muitas imagens impressionantes que você pensa “onde ele estava pra conseguir essa foto?”. Pena que o site não é bom.

 

Estilo mais tradicional:

http://www.glennbartley.com/naturephotography/articles/The%20Best%20of%202015.html

http://www.alanmurphyphotography.com/favorites.htm

https://500px.com/oferlevy1

http://portfolio.austin-thomas.co.uk/

http://www.rathikaramasamy.com/portfolio

http://www.birdsasart-blog.com/

http://www.miguellasa.com/Best-Photos

http://www.sudhirshivaram.com/portfolios

 

 

 

Amigos, como falei, não tenho o objetivo de brigar com ninguém ou antagonizar com ninguém. O 3×4-Sensação tem sua função, tenho várias fotos assim que gosto, etc. Mas acredito que não sou a única pessoa que sente que ele é tão vistoso e aclamado que parece estar acabando com a chance de qualquer outro tipo de foto. Você posta um 3×4 e recebe 300 likes e um caminhão de elogios. Você posta uma foto em que a ave aparece pequena, fazendo parte de um cenário, e recebe 5 likes, sem nenhum comentário. O que você conclui que é o certo?

As fotos artísticas, ou no mínimo que não são o 3×4-Sensação não são apenas uma questão de extrema competência do fotógrafo. A gente tem o problema de não ter terreno pra elas, não temos com quem conversar, não tem público, as pessoas não têm olhar porque estão cada vez mais acostumadas com o hiper-aguçamento, as cores saturadas e até irreais, mas que impressionam.

Não escrevi esses textos pra criticar ninguém, ou pra brigar com ninguém. O que eu gostaria é que a gente refletisse como comunidade. Estou errada nessa análise dos rumos que a gente tem tomado sobre o que é uma boa fotografia de natureza? E sobre o que perdemos ao cultivar um único estilo?

E o que podemos fazer sobre isso? Vamos conversar sobre o assunto. Tenho alguns planos vagos envolvendo a possibilidade de um novo site ou um espaço no Virtude pra postar fotos e conversar sobre fotos. Segue:

——–

Olá meus amigos, agradeço pela atenção, pra começar pela capacidade de ler meus posts grandes, em que sempre escrevo muito e coloco muitas fotos :)

Não sei se simplesmente não estou a par, mas me parece que hoje não temos no Brasil um espaço pra postar fotografias e conversar sobre fotografias. O Wikives não é (ou não deveria ser) um site de fotos, conceitualmente e no formato. O Facebook também não se presta pra isso, tanto pelo formato em que aparecem as imagens, como na estrutura para armazenar as imagens e as pessoas interagirem. O Flickr é muito abrangente e disperso. O Cris me fala que o Instagram é o principal espaço pra ver e falar sobre fotos, que eu tinha que entrar e que é uma falha de formação falar de fotografias de natureza sem acompanhar o Instagram. Uma hora eu crio coragem pra isso.

Acredito que o Wikiaves seja a maior influência pra todos os birdwatchers brasileiros. Sempre falo que o Wiki é incrível, mudou o país, contribui muito pra natureza e pro crescimento do birdwatching. Mas como tudo que existe, ele também tem seu viés. Só que o Wiki é tão forte e influente que às vezes parece que tudo que não está no tal padrão Wikiaves não serve. Quem nunca postou ou compartilhou uma foto que não segue o tal modelo de proximidade, penas super-definidas, luz favorável, fundo homogêneo, bicho totalmente no limpo, recorte fechado, recebeu quase nenhum retorno, seja no Wiki ou no Facebook, e ficou pensando que aquela foto não presta?

O Wikiaves não está errado. Pra uma base de dados, esse é o melhor formato. O que me incomoda é a sensação de que tanta gente vê o melhor formato pra uma base de dados como o melhor e único formato possível. Por que me incomoda? Porque em qualquer campo eu gostaria de ver mais criatividade, mais poesia, mais diversidade. Me incomoda a ideia do desperdício, de tanta gente indo a campo e buscando só um tipo de foto, ignorando todo o resto e valorizando e promovendo tanto um estilo de foto que é impossível pra quem não tem determinados equipamentos. Me incomoda ver que quem não tem as DSLRs ou uma compacta top em geral tem que ficar sonhando com o dia em que poderá comprar uma e só então ser feliz. E isso não é verdade. O equipamento top te permite a proximidade com as penas super-definidas, mas câmeras comuns, inclusive celulares, podem fazer belas fotos. Mas há tanto oba-oba pelo 3×4-Sensação, e uma ausência de um espaço pra conversar sobre outros tipos de fotos, que muita gente fica resignada em ou juntar dinheiro, ou em não investir no seu desenvolvimento como fotógrafo e no prazer em fotografar, já que não tem o equipamento tal.

Gostaria de ver um espaço que pudesse unir arte, criatividade, sinergia com outros campos como ilustração, pintura, escultura, poesia, literatura, música, histórias em quadrinho, games, estampas de tecido, moda, artesanato, tudo que pode expressar a natureza. Queria ver painéis de fotos com diversas curadorias, diversos olhares. Ilustradores e escultores se inspirando em fotos, fotógrafos se inspirando em ilustrações e pinturas, como o Vincent Munier faz. Nossas fotos circulando e inspirando outros campos e vice-versa, nossas fotos apoiando sempre as Unidades de Conservação e qualquer projeto a favor da natureza. Queria ver uma diversidade de olhares e por trás de tudo a consciência de que a natureza é muito frágil e que precisamos ajudar de todas as formas possíveis. A natureza brasileira tem um potencial inspirador e magnético colossal.

Um tempo atrás reclamei do Chocolate Surpresa fazer um especial de Páscoa com dinossauros em vez de natureza brasileira. A Nestlé perdeu a chance de fazer uma boa ação, de agir pelo bem, mas é compreensível. Dinossauros ou África são muito mais divulgados e aplicados em produtos do que natureza brasileira. Não temos nem mesmo um site hoje que a gente possa falar “clica neste link pra ter uma ideia da riqueza que nós temos”.

Tenho pensado se eu conseguiria montar um projeto. No início com certeza não tão abrangente, mas em que houvesse espaço pra conversar sobre fotografia, estilos, aprendizado, diversidade de olhares. E se fosse pra eu cuidar, só deixaria entrar quem é a favor da circulação das imagens, quem se importa mais com a divulgação e valorização da natureza e menos com direitos autorais. Pra mim não faz sentido produzir fotos bonitas e não fazer com que elas ajudem a valorizar e proteger a natureza.

O amigo Paulo Guerra falou sobre a dificuldade de ser um fotógrafo generalista “É raro, um fotógrafo que faz bem fotos de paisagem, macro e ainda arrebenta em aves e fauna em geral”. Meu marido estava passando pela sala, veio espiar minha tela, falou que concordava com o Paulo.

Pensei que possivelmente esse é um viés, talvez masculino. Ser alguém que arrebenta num determinado campo. Pra ficar claro, não é uma crítica ao Paulo, eu entendo bem porque meu marido já me falou que não consegue pensar em fotografar se não for pra arrebentar. A gente fala sobre hobbies, projetos pessoais, ele já me explicou que só poderá fazer isso com fotografia quando tiver tempo pra fazer viagens longas, fazer projetos imersivos.

Mas eu, por exemplo, nunca penso que alguém precisa arrebentar. Sempre penso em ter muitos amadores se divertindo, se apaixonando pela natureza, convidando amigos a experimentarem. Penso muito menos em foco cravado e fundo homogêneo, e muito mais em momentos especiais. O olhar do bicho, algo da pose, da luz, não me importa que o foco não tenha cravado, que o fundo não seja homogêneo. As fotos muito plásticas me incomodam, sinto falta de um elemento mais real. E também não penso em alguém que sempre arrebenta, e sim que todo mundo que fotografa com frequência terá imagens bonitas, e eventualmente uma bem especial. Esse é meu viés.

Quer conversar sobre o assunto? Me adicione no Facebook, se houver interesse talvez a gente possa até criar um grupo. Eu viajo no domingo dia 23/04, e volto no dia 8 de maio, mas nada impede que alguém comece a conversa.

 

O texto abaixo não fazia parte do post original, escrevi no dia seguinte. É um desenvolvimento da preocupação com o lado social, qual o problema de só valorizar o 3×4-Sensação. Vou fazer um post individual, mas colo aqui também, porque se você chegou até aqui neste post comprido, imagino que o assunto te interessa:

http://virtude-ag.com/qual-a-relacao-entre-3×4-padrao-de-beleza/

Qual a relação entre o 3×4-Sensação e os padrões de beleza?

  • Texto e foto: Claudia Komesu, que não está escrevendo essas coisas para antagonizar com ninguém, e sim pra incentivar consciência, reflexão, e que a gente possa ser uma comunidade com diversidade, criatividade, que não produz só um tipo de imagem, e que se sabe que ser birdwatcher não pode se resumir a lifers e likes.

Você sabe o que é um padrão de beleza? Como falei no outro post, o belo depende de fatores culturais, mas sabe como é que as mulheres jovens esguias de cabelos longos e lisos, ou com cintura fina, peito e bunda grandes, bem brancas ou bronzeadas de sol se tornaram um ideal?

Martelando muitas fotos com ótima produção, desfiles de moda, propagandas, filmes, seriados, novelas em que mulheres assim aparecem sempre lindas, elegantes, sedutoras, vivendo romance e aventura. É verdade. Talvez você duvide, fale “não! esse padrão estético é lindo por si só, qualquer um pode ver”, mas faça uma pequena pesquisa de quadros de mulheres em museus e você poderá ver que o que os artistas consideravam bonito a ponto de imortalizar já variou bastante. Variava conforme a época, conforme o país. Mas agora é bem padronizado e importa muito, é motivo pra bullying, depressão, suicídio.

Não sei se de propósito ou não, mas foi um jeito extremamente eficaz de fazer muita gente acreditar que ou você tem aquela aparência, ou não tem como ser feliz. Ou no mínimo, que pessoas com aquela aparência têm uma vida bem melhor do que a nossa. Foi uma boa forma de fazer as pessoas gastarem dinheiro, tempo, energia correndo atrás de um formato que muitas vezes não tem nada a ver com o corpo delas.

Mas fazer o quê? Imagens bonitas têm poder, propaganda, filmes, livros fazem parte da nossa cultura e ajudam a formar nosso julgamento. Os meios de comunicação, principalmente o que lida com ficção, sonhos, entretenimento, têm uma grande força pra influenciar a sociedade.

Você entende que o 3×4-Sensação é um padrão de beleza? Ele é lindo, impactante, vistoso, e muitas vezes vem acompanhado de relatos emocionantes de passeios ou viagens pra lugares incríveis, com direito a muita aventura, adrenalina, lifers-lifers-lifers, espécie rara, qualquer perrengue ou dificuldade é pequeno comparado com as alegrias da viagem, com a foto obtida. Ele é divulgado nas redes sociais em meio a muita alegria e elogios.

Ah, quem me dera poder ir pra Amazônia… quem me dera ter uma 300 2.8… ah, o dia que eu puder fazer viagens assim, conseguir fotos assim…  minhas fotos são tão sem graça comparadas com as dessas pessoas…

Não se arrepie: não estou falando que ele é maquiavélico, duvido que ele tenha sido inventado por um grupo com o propósito de tornar os excluídos infelizes. Mas o fato é que ele é dominante. O 3×4-Sensação é tão amplo e influente, é o único que dá centenas de likes e dezenas de comentários, ele é tão forte que faz qualquer outro formato parecer o caminho errado. Ele pode chamar atenção sim, mas também mata nossa criatividade, torna nosso olhar fotográfico tapado, e desincentiva quem não tem câmeras capazes de produzir 3×4-Sensação. Quem publica o 3×4-Sensação tem um caminhão de elogios e incentivos pra passear, fotografar e compartilhar cada vez mais. Quem não publica (em geral porque não tem o equipamento necessário, porque não pode fazer os passeios pros hotspost), essas pessoas têm que cultivar muita determinação pra serem capazes de passear e fotografar sempre, sem cair pra um lado de um pouco de tristeza e desmotivação*.

Já falei várias vezes, mas terei que falar sempre, porque só de tocar nesse assunto tem gente que acha que estou falando que as pessoas não podem ou não deveriam ir atrás de lifers e likes. Vou falar de novo: não tem nada de errado em ir atrás de lifers, fotos incríveis, viajar, compartilhar, comemorar. Não estou sendo hipócrita, já fiz isso muitas vezes, já fui pra Amazônia, pro Tocantins, tenho uma câmera cara, durante três anos corri atrás de lifers, no final de 2011 eu tinha mais de 600 espécies registradas no Wikiaves.

Não há nada de errado em passarinhar movido por lifers.

Mas o que você faz além disso? Você atua pela natureza? Que valores te representam, o que você promove?

Faz anos que penso e escrevo sobre esses assuntos, mas a decisão de publicar este post teve influência de uma conversa com um colega birdwatcher, um cara de quem eu gosto muito. Ele é franco, direto, sem frescuras, ama a natureza, trabalha em divulgação e educação ambiental. E de repente descobri que ele é super-competitivo e adora lifers. “Adoro lifers, amo lifers. Eu entro no ranking do Wikives todos os dias pra ver como está a minha posição”.

Achei isso tão legal, porque o discurso público e o trabalho dele não transparecem, eu nunca diria que ele é do tipo. “Eu amo lifers, eu amo fotografar. Mas no trabalho que eu faço… quanto custa uma câmera? Com o dinheiro de uma câmera dá pra comprar uns quatro binóculos bons. Quando vejo os iniciantes chegando com binóculo em vez de câmera acho super legal, apoio. Porque se a gente quer o birdwatching se dissemine pelo país, é muito mais fácil com binóculo. Uma coisa é o que eu gosto pra mim, na minha intimidade. Mas e a minha responsabilidade social?” Comentei como as fotos 3×4 eram vistosas, sedutoras, como é fácil um iniciante acreditar que pra ser birdwatcher precisa ter DSLR e conseguir fotão, ele e outro colega concordaram, e comentaram “Quando comecei a passarinhar o pessoal me falava ‘você precisa ter a câmera tal, esquece essa que você está usando, junta dinheiro e compra logo a tal’ “.

Não me importa do que você gosta de verdade, cada um pode gostar do que quiser, curtir o que quiser. Mas nas suas ações públicas, na sua participação na comunidade, o que estamos fazendo? Como pessoas conectadas em redes sociais, com milhares de amigos, centenas de seguidores, o que a gente quer disseminar e incentivar? A gente se importa com inclusão, com diversidade, com preservação da natureza?

O que podemos fazer?

Quero que a gente reconheça que somos seres humanos vivendo em comunidade, que nossas ações públicas influenciam os outros, que tudo que a gente fala importa. Quero que a gente abandone o  discurso de “cada um é cada um, cada faz o que que quer” – que é algo que eu concordo totalmente no terreno particular, como por exemplo, sexualidade. Mas nas nossas ações na comunidade, queria que a gente assumisse que tudo que falamos importa. Podemos ser um grupo que só promove o 3×4-Sensação – afinal ele é lindo e dá muito retorno. Ou podemos dizer que conteúdo importa.

De novo e de novo: não é errado correr atrás de lifers e likes. Mas eu acho errado correr atrás de lifers e likes.

O que significa ser birdwatcher? Life List sempre crescente, fotos bonitas, elogios pras fotos bonitas? E se a gente promover a ideia de que ser birdwatcher pode ser tudo isso (ou não, tem gente que não é movido por lifers e não busca os elogios), e também trabalhar pela natureza?

Não existe birdwatching sem natureza. Não importa o quanto você ame lifers e likes, no nosso discurso público em vez de só celebrar os lifers e divulgar os 3×4-Sensação, vamos falar sobre preservação. Vamos apoiar os projetos das outras pessoas, vamos fazer doações, vamos contar que doamos. Não vamos só dar likes e elogiar os 3×4-Sensação, e sim dar likes e elogiar as pessoas que estão trabalhando pela natureza.

Se você sentir que há espaço pra isso, crie os seus projetos pessoais. Fotografar as aves do seu bairro e falar sobre birdwatching e natureza pra associação do seu bairro? Fazer palestras em escolas? Cartazes com fotos das aves da cidade pra distribuir em padarias, bares? Folhetos pra motoristas de táxi e de Uber, talvez tenha gente que goste da natureza e vá querer colar no vidro do carro, falar pro passageiro como tem aves na cidade. Promover um concurso de fotos? (De preferência com um júri heterogêneo, no mínimo com uma quantidade equivalente de homens e mulheres, porque isso faz diferença.). Se importar mais com circulação de fotos, divulgação da natureza, e menos com direitos autorais e pagamento por uso de imagem? Montar um blog sobre as aves da sua região? Entrar em contato com a prefeitura e combinar de alimentar uma seção do site municipal com imagens da natureza da cidade? Plantar árvores na pracinha perto da sua casa, instalar e manter comedouros e bebedouros lá? Criar uma coleção de roupas, ou bolsas, ou mochilas que divulga a beleza da natureza brasileira? Esculturas? Bichinhos de modelar? Livro de ilustrações pra crianças (ou pra adultos?).

*Trabalhar pela natureza, fazer o bem, é uma forma de vencer a tristeza e desmotivação por não receber likes e elogios. Melhor do que isso: fazer o bem, criar um propósito pras suas fotos pode te ajudar a se libertar da necessidade de elogios e aclamação pública, um vício bem comum nas redes sociais. Já pensou se em vez da meta ser “que foto linda, que ótimo fotógrafo você é, como você é incrível”, a gente almejasse “parabéns pelo seu trabalho, é inspirador, estou pensando o que eu posso fazer”, ou “parabéns pelo projeto, já doei e estou divulgando”? Não seria incrível?

Há várias formas de divulgar a natureza e encontrar mais sentido e motivação pros seus passeios e/ou suas fotos. Tudo que a gente precisa fazer é reconhecer que ser birdwatcher é algo que vai além dos lifers e likes.
Destaque para mais posts sobre o tema:

Apenas Blogando: o que realmente importa na observação de aves? maio/14, por Claudia Komesu

“O que eu não entendo é que as pessoas viajem pelo menos duas vezes por mês, gastem bastante com equipamento, passem muito tempo editando, postando e comentando suas fotos. E não façam nada pela sobrevivência das aves. Nesse caso a pessoa está mergulhada na observação de aves, mas não consegue sentir que têm qualquer ligação ou responsabilidade com a vida das aves, que após ticadas e fotografadas de perto, perdem qualquer valor .”

 

Apenas Blogando: O Big Day de uma slowdirdwatcher, e meu reencontro com o álbum de figurinhas, out/15, por Claudia Komesu

“Na questão dos lifers, não é que eu não goste de ver uma ave que eu nunca tinha visto, de passarinhar em um bioma novo. Eu gosto, é lindo. Mas também é caro, em vários sentidos. Não é só pelo preço do passeio, há um custo humano alto. Descobri que pra mim, mais importante do que ver uma espécie nova era ter momentos de puro prazer na minha atividade favorita. Eu não tenho religião, mas acredito em coisas que não são materiais, e quando passarinho é como me sentir mais próxima de Deus, da bondade, da pureza. Por isso no geral ou passarinho sozinha, ou na companhia de pessoas pra quem passarinhar também é essa leveza.”

 

 

Apenas blogando (+)

 

Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)