Com tanto tempo e intensidade admirando as aves e a natureza é impossível ignorar a situação. Sou uma pessoa otimista, mas tenho que reconhecer que as perspectivas não são boas. Em 2011 a bancada ruralista e o sr. Aldo Rebelo conseguiram… nem tenho palavras pra explicar, vou colar trechos das notícias:

“Quem abriu 50% [até 2008] do seu imóvel na Amazônia quando a lei permitia não estará mais obrigado a atender a exigência de 80%.” Trecho do site ruralista. Na mesma página um pouco acima estava escrito “A imprensa está divulgando que o projeto “anistia desmatadores”, mas isso é uma inverdade”. Não é típico discurso dos maus políticos? Primeiro diz que “anistia desmatadores é uma inverdade”, e depois diz que quem desmatou está anistiado.

Fonte: http://www.codigoflorestal.com/2011/05/entenda-o-que-muda-com-o-novo-codigo.html

 

“O grande escândalo da aprovação do novo Código Florestal não é a anistia a quem desmatou até 2008. Como apontou o artigo A tolerante lei da selva, de Manuela Carneiro da Cunha, Ricardo Ribeiro Rodrigues e Jean-Paul Metzger (Estado, 10/12), “antes disso, os infratores já sabiam o que estavam fazendo”. Data mais justificável seria 24 de agosto de 2001, “data da medida provisória que definia e regulamentava as atividades em reserva legal e áreas de proteção permanente. Ou a data de 1998, da Lei de Crimes Ambientais. Quem obedeceu e tem consciência limpa deve hoje se sentir ‘otário'”.

O escândalo, daqueles que, “em nome da agricultura familiar” (desvirtuando este acertado conceito), apequenaram a lei de 1965, decepcionando os cerca de 20 milhões que na última eleição expressaram seu interesse pelo meio ambiente votando em Marina Silva, foi a introdução da emenda que permite a ocupação de apicuns e manguezais.

Mas até o ruim tem lado bom. O ato tem força de prova. Desmascara o ardil que pretendia transformar o debate nacional numa peleja de ambientalistas e ruralistas. Os manguezais nada têm que ver com o agronegócio, tão importante para o Brasil do século 21.

Antes da aprovação do novo texto, eles eram considerados áreas de proteção permanente. E sua ocupação, proibida. Mas proibir alguma coisa, no Brasil, é risível. Depende do tipo que afronta a lei: se for pobre, vai para a cadeia; se não, quase sempre é “anistiado”. (…)

Artigo de João Lara Mesquita.

Essa é outra do novo Código Florestal: os mangues podem não ser mais área de proteção. Você pode imaginar o impacto disso, mas se quiser saber em detalhes, vale a pena ler o artigo, link abaixo.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-codigo-florestal–e-os-amigos-do-rei-,812119,0.htm

 

O Código Florestal vigente tinha vários problemas. Mas daí mudar para uma versão que foi escrita sem a colaboração de nenhum biólogo, nenhum profissional capaz de falar sobre as questões de equilíbrio ecológico, já é o tipo de coisa que só as maquinações políticas tornam capaz.

Os danos visíveis às aves e outras espécies não aparecem de uma vez. A redução das áreas preservadas e contaminação do meio ambiente trazem diminuição das populações dos bichos, e uma possível extinção é assunto para daqui a anos, talvez décadas.

O que me assombra é o descaso com o bicho homem, a incapacidade de fazer qualquer relação entre desmatamento e enchente e deslizamento, entre desmatamento e contaminação de água e solo. Em 2011 centenas de pessoas morreram e milhares perderam tudo em enchentes e deslizamentos.

A fragilidade do equilíbrio ecológico, a água doce como um recurso limitado, o aquecimento global não são mais teorias, são fatos comprovados e disseminados.

Com o aumento do desmatamento, ou a não obrigatoriedade de fazer ações que revertam o que foi destruído, quem mais sofre são os seres humanos. A construção de uma hidrelétrica que acaba com quilômetros de mata é uma tragédia para os bichos e plantas que viviam lá, mas por mais que eu goste da natureza, não considero-os como indivíduos. Já uma enchente ou um deslizamento que mata 5, 30, 200 pessoas… é o fim da vida daquelas pessoas e uma ferida eterna para os parentes e amigos dos mortos.

“Entre 2007 e 2009 o Ministério do Meio Ambiente e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente elaboraram relatórios visando identificar os impactos ambientais da implantação, pela Petrobras, do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro no município de Itaboraí. Os documentos na época já apontavam como prioritárias a remoção de imóveis de áreas de preservação permanente em Teresópolis. Ainda segundo os relatórios, o problema é agravado pela ´ausência de controle e rigor dos órgãos ambientais e falta de infraestrutura para treinar os fiscais ambientais´.”

http://pt.wikipedia.org/wiki/Enchentes_e_deslizamentos_de_terra_no_Rio_de_Janeiro_em_2011

Tenho 35 anos. Acho que não vai dar tempo de sofrer o pior. Mas tenho enteado, sobrinho. Que tipo de mundo estamos deixando pra eles?

Todas essas pessoas que agem para que seja possível ganhar mais dinheiro agora, sem se importar com o mundo a médio e longo prazo, essas pessoas não têm filhos? Ou apostam que com dinheiro seus filhos estarão acima dos problemas?

 

Todo o discurso dos defensores da mudança só fala do agora.

[sobre plantação em encostas de morro] “Parreiral no sul de Minas Gerais. De acordo com o texto do Senado, parte desse plantio é um crime e deve ser destruído. Em tempo, eu provei uma uva desse parreiral. Uma delícia. Isso faz de mim um cúmplice?” Ciro Siqueira

http://www.codigoflorestal.com/2012/01/reforma-do-codigo-florestal-pode-ser.html

“Quando os fiscais do ibama fecham uma serraria ilegal na Amazônia eles largam na esteira meia dúzia de famílias na miséria, a miséria verde. Nem ibama, nem ONGs, nem os franceses, acham importante substituir a atividade predatória por uma atividade sustentável preservando também a dignidade do homem (espécie que não entrou no cartaz da ONG).

O importante é preservar a Amazônia. O amazônida que se dane.  Isso, para mim, é neofascismo.”

http://www.codigoflorestal.com/2012/01/encontre-o-fascismo-na-nova-campanha.html

 

É a uva gostosa de agora, são as pobres famílias que viviam de uma serraria ilegal de agora. É impossível acreditar que todo esse pessoal que defende o ruralismo saiba nada sobre desequilíbrio ecológico. Acho que eles apenas não se importam com o futuro e o mundo que as crianças vão herdar.

 

Mais informações

Informações gerais: http://topicos.estadao.com.br/codigo-florestal

Sobre as enchentes de 2011: http://pt.wikipedia.org/wiki/Enchentes_e_deslizamentos_de_terra_no_Rio_de_Janeiro_em_2011

Vídeo de campanha contra o novo código: http://tv.estadao.com.br/videos,campanha-mobiliza-artistas-para-evitar-mudancas-no-codigo-florestal,149807,250,0.htm

Site dos ruralistas, de onde tirei as citações acima: http://www.codigoflorestal.com

Site de um comitê que reúne mais de 160 entidades que são contra essa história de crescimento de qualquer jeito: http://www.florestafazadiferenca.org.br/home/

 

O que fazer?

Não tenho conselhos, posso apenas falar o que eu pensei.

A votação na Câmara dos deputados, em maio de 2011, sobre a mudança do Código teve como resultado um placar de 410 votos a favor da mudança e 63 contra. Esse quadro mostra o atual cenário político. Imagino que a situação ainda piora nos próximos anos.

Hoje muitas pessoas sabem que a natureza importa. Acho que cada vez mais vamos encontrar forma de expressar isso, principalmente pelas nossas escolhas como consumidor.

Sou uma pessoa bastante comum e deixo a desejar em muitos pontos: como carne de porco, frango, pato, carneiro, até foie gras. Não compro orgânicos, em lugares que não têm coleta seletiva não sou capaz de carregar o lixo no meu carro para levar a algum posto de coleta, não sei o que fazer com óleo de cozinha.

Mas desde o ano passado evito comer carne de boi e nunca mais tomei leite de soja ou comi carne de soja. Gosto dos sabores, mas depois de ver tanto pasto que antes era cerrado,e saber que um bom pedaço da Amazônia virou pasto e soja, o que eu poderia fazer? Se estou na casa de alguém e a carne bovina é o único prato, eu como. Mas não compro mais no supermercado, não peço mais em restaurantes.

Não compro mais coisas com palmito, porque não sei a origem. E depois de ler o artigo do João Lara Mesquita, vou ter que escolher com cuidado o camarão, ou até parar de comprar ou pedir.

Não seria motivo para largar o emprego, mas eu ficava chateada quando tinha que trabalhar com relatórios e apresentações de empresas e entidades que obviamente não davam a mínima para a natureza. Se eu estivesse em posição de escolher, não trabalharia para eles.

Minha esperança é de que o percentual de pessoas que se importam com a natureza vai aumentar, até mesmo entre os políticos. Talvez as crianças de hoje cresçam com uma outra noção do mundo e da solidariedade, e se um dia se tornarem pessoas com posições de poder, façam outras escolhas.

Por isso aposto nas aves como os embaixadores da natureza. Pela sua graça e encanto, elas têm a capacidade de tornar a natureza mais concreta, de nos levar a vivenciar a natureza e lembrar que o meio ambiente não é algo separado de nós.