Que boa essa ideia de momentos mágicos. Isso nos faz parar e pensar o quanto pudemos ver e curtir momentos tão especiais, principalmente junto à natureza. Está difícil escolher um só, até porque ele pode ser algo grandioso como o dia em que presenciei a cena de uma chita capturando uma gazela no Serengeti ou algo simples, mas significativo como o dia em que eu rodei mais de 120 km para resgatar e devolver para a natureza dois tatus em plena Caatinga do sertão paraibano.

Ficarei com a mais singela e depois se houver espaço contarei outra.

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  • Texto e fotos: Marcos Tonizza
  • Água Branca – PB, outubro de 2012

Sou paulista, mas tenho um pé lá no Nordeste e nos últimos 15 anos devo ter ido umas 8 vezes para lá. Chego a rodar 3.000 km sertão adentro, cortando os Estados nordestinos e tenho como parada uma cidadezinha na Paraíba a uns 400 km de João Pessoa chamada Água Branca.

O sertão paraibano é um dos mais degradados do Nordeste. Lembro-me de histórias de caçadas e florestas que meu pai contava, ocorridas há 80 anos, assim como me lembro do que vi quando estive lá na minha infância há 40 anos. Observando agora e fazendo uma projeção, posso afirmar que teremos referências a um deserto brasileiro daqui a 30 ou 40 anos.

É impressionante como desmatam sem a mínima consciência, dizimando animais e pássaros que também são caçados até o último.

Em outubro passado fui levar um primo já de certa idade que havia muitos anos que não visitava sua terra. Aproveitei a oportunidade para ver se fotografava alguns passarinhos.

Já no dia em que nos preparávamos para voltar, fui informado que um cidadão tinha com ele, dois tatus que seriam mortos e a carne enviada para um sujeito em Recife que é apreciador desta culinária exótica e infeliz.

Preocupado com os bichinhos, fui visitar o tal cidadão e propus a ele que me desse os animais para que eu os soltasse na natureza. Depois de uma negociação e com a responsabilidade de eu me entender com o tal sujeito do Recife, acabei tendo êxito e a missão então seria arrumar um lugar para soltar os bichinhos longe de caçadores.

Eu sabia de um sítio numa cidade a uns 60 km de lá, cujo proprietário, um senhorzinho muito gente boa, preservava uma mata em sua propriedade, inclusive proibindo que caçadores entrassem para caçar pássaros e animais. Quando estive lá dias antes, ele havia me mostrado buracos de tatus e até água e milho seco que ele colocava para os animais no meio da Caatinga.

Não tive dúvidas. Acomodei os dois tatus numa caixa de papelão, coloquei no carro, torci para que ninguém do IBAMA me parasse na estrada e fui até lá para soltar os pobres animais.

O senhorzinho me recebeu com muita consideração pois, como ele havia me contado anteriormente, alguns de seus vizinhos não gostavam dele justamente pelo fato dele defender tanto a natureza e não permitir que entrassem em sua propriedade para caçar.

Saímos por trás de sua casinha típica do sertão nordestino em direção a uma das poucas porções de mata fechada que se via na região. Atravessamos uma área de várzea que eles chamam de baixio e chegamos à mata. O período era de seca intensa e eu entrei na Caatinga brava sem nenhuma proteção. Eu estava mais preocupado com o bem estar dos bichinhos na caixa de papelão do que outra coisa.

Andamos por uma trilha e depois nos embrenhamos mata adentro até chegarmos numa clareira onde havia alguns buracos de tatu.

Eu queria ver e ao mesmo tempo registrar aquele momento, mas foi tudo muito rápido. Abrimos a caixa e eles logo saíram. O primeiro entrou no buraco e o segundo passou por cima e correu sobre as folhas secas do chão, desaparecendo por entre os garranchos. Sei que ali eles estarão seguros.

Senti uma felicidade imensa com uma mistura de lembranças e o sentimento de ter feito algo realmente útil. Fomos ainda agraciados com o encontro de um grupo de gralhas cancã, chamadas por eles de cancão, que com seus piados nos saudavam e faziam daquele cenário algo realmente típico do sertão. Só não consegui fotografar as gralhas.

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Obs de Claudia Komesu, editora da Virtude-AG: não é preciso escolher só um momento, a ideia é compartilhar vários, em diversos posts. O Marcos pode contar sobre a emoção de ver uma caçada (neste caso quando você vê um predador – que não o bicho homem – abater um animal), e qualquer outra das suas aventuras :o)

Mais uma proposta do Lado B: compartilhe momentos mágicos

Todo mundo que passarinha tem momentos mágicos. A aparição de uma ave rara, alguns segundos ou minutos podendo observar bem de perto alguma ave ou outro animal, uma luz muito especial, o olhar do bicho, e mesmo fotos ruins, mas que o autor sabe do valor.

O Momento Mágico não é uma foto espetacular: é um momento espetacular que você viveu, tenha conseguido foto boa ou não, talvez estivesse até sem câmera.

Basta escrever um texto e, se tiver uma foto, seja do momento ou de algo que represente seus sentimentos, envie junto para claudia.komesu@gmail.com. Fotos em 960×640 pixels, pelo menos uma na horizontal para ser capa do post. O texto não precisa ser muito longo, mas tente expressar o que você sentiu e pensou, afinal, o objetivo desta seção é valorizar o que vivemos, compartilhar e reviver alegrias.

Além do texto, diga data e local do momento mágico.

O Momento Mágico é uma seção permanente do Lado B. Você pode participar mesmo que seja seu primeiro post para a Virtude-AG. O material não precisa ser inédito nem exclusivo.