A emoção de ver uma ave que você nunca viu antes, e nem tem certeza do nome.

Beija-flor-de-bochecha-azul (M)

Beija-flor-de-bochecha-azul (M)

 

  • Em Campos do Jordão em junho de 2010, e no Central Park – NY em junho de 2012
  • Câmeras: Canon 50D e Canon 7D, lente Canon 100-400

Veja bem: eu sou uma pessoa muito ignorante. Passarinho há anos, e continuo totalmente tapada para vocalizações, não sei os nomes científicos, esqueço nomes de espécies que já vi. As mais famosas geralmente sei os nomes, e sei reconhecer. Nunca vi ao vivo o galo-da-serra, mas quando chegar minha hora, saberei que estou frente ao galo-da-serra (o macho. A fêmea eu já não garanto o pronto reconhecimento).

Apesar da minha ignorância, conheço os beija-flores mais comuns da região Ubatuba-Campos do Jordão-São Luís do Paraitinga. E, apesar de não colocar lifers como a diretriz do passeio, é inegável que o coração bate mais rápido quando é uma espécie vistosa que você nunca viu, e nem tem certeza do nome.

Numa das vezes em que passeava pelo Amantikir (um parque em Campos do Jordão com reprodução de jardins de diversas partes do mundo), um foguetinho passou por mim e eu estranhei o tom do verde. “Opa, você eu nunca vi”.

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Era um beija-flor-de-bochecha-azul. Ele não é muito comum, e na época havia poucos registros dele para o Estado de São Paulo. Em junho de 2010, talvez fosse até o primeiro registro no Estado de São Paulo? Não consegui descobrir onde checar isso no Wiki, e pode ser só megalomania minha. Eu já havia visto as lindas fotos do Luiz Ribenboim, mas não tinha certeza absoluta de que era ele, ficava pensando “acho que é o fada, o beija-flor-fada”, mas só achando… e beija-flor-fada é um nome muito bonito. De-bochecha-azul não é feio, é só estranho. Queria saber onde ficam as bochechas-azuis.

Fui atrás do foguetinho, e ele teve a bondade de pousar num galhinho no aberto, por alguns segundos, o suficiente pra algumas fotos.


Dois anos mais tarde, também num mês de junho, estavam eu e o Cris no Central Park, passeando até dar nosso horário de check in no hotel. Pudemos deixar as malas no hotel, mas não saí com a câmera, porque estava sem a lente. Tinha vendido minha 100-400 no Brasil e ia comprar uma outra na BH.

Estávamos com uma Sony HX100v. É uma boa compacta, mas vocês sabem o que é apanhar de compactas em ambientes com pouca luz, aves no alto das árvores.

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Teve um momento em que a gente se separou, e de repente eu vi esse simpático aí, de topetinho. É um Tufted Titmouse, uma ave comum nos Estados Unidos, inclusive nos jardins, mas eu nunca tinha visto, e não tinha ideia do que era. Em maio de 2010 passarinhei no Central Park no pico da migração dos warblers, vi mais de 40 espécies de aves. Mas o simpático de topetinho era um ilustre desconhecido.

Infelizmente a câmera tinha ficado nas mãos do Cris, e aí surge aquele momento em que você não quer ser escandalosa e gritar “CRISSSSSSS” no meio do parque, então tem que se afastar e ir atrás da pessoa, ao mesmo tempo não quer tirar os olhos da ave e é claro que eu a perdi de vista.

Deu nosso horário de check in. Fomos pro hotel, tomamos banho, saímos pra almoçar e o Cris perguntou o que eu queria fazer à tarde. “Ir comprar minha lente nova na BH e voltar no Central Park amanhã atrás do fofucho”, “Mas você acha que ele ainda estará por lá?”, “Eu acho, eu tenho fé”.

E foi o que fizemos.

Voltamos na manhã seguinte, pra minha região favorita do Central Park: The Ramble (dizem que o norte do parque também é bom pra passarinhar, mas fica longe do hotel em que costumamos ficar. Teve uma vez que eu tentei: o Cris estava trabalhando, madruguei, peguei o metrô sozinha, entrei no parque, vi grupos de birders passarinhando, comecei a me sentir muito feliz “estou no lugar certo”, aí fui fotografar e descobri que tinha deixado o cartão CF no hotel. Voltei humilhada).

No mesmo local em que eu havia visto o bichinho no dia anterior, ao redor daquele brejinho cercado com grade, lá estava a fofura de topete. E fotografei: não só fotografei como fotografei bem de perto. O bichinho cantava, cantava, e ia chegando cada vez mais perto. Essa foto na contraluz está em 200mm. Uma grande satisfação, dessas que você fala “muito obrigada” para a ave.

Depois fui ler sobre ele na internet, achei um site que dizia que eles são curiosos, e que apesar de serem um pouco ariscos nos comedouros, há relatos de Tufted Titmouses olhando pelas janelas da casa, movendo a cabeça de um lado para o outro, como se quisessem espiar o que está acontecendo lá dentro.

em 200mm

em 200mm

Quando você vai fazer um passeio, é algo inteligente estudar as aves do local. Ao mesmo tempo, posso dizer que é uma alegria muito grande, quase uma euforia, poder olhar pra uma ave (que não é uma elaenia, nem um hemitriccus ou um phylloscartes) e pensar “não sei quem você é”.

 

Mais uma proposta do Lado B: compartilhe momentos mágicos

Todo mundo que passarinha tem momentos mágicos. A aparição de uma ave rara, alguns segundos ou minutos podendo observar bem de perto alguma ave ou outro animal, uma luz muito especial, o olhar do bicho, e mesmo fotos ruins, mas que o autor sabe do valor.

O Momento Mágico não é uma foto espetacular: é um momento espetacular que você viveu, tenha conseguido foto boa ou não, talvez estivesse até sem câmera.

Basta escrever um texto e, se tiver uma foto, seja do momento ou de algo que represente seus sentimentos, envie junto para claudia.komesu@gmail.com. Fotos em 960×640 pixels, pelo menos uma na horizontal para ser capa do post. O texto não precisa ser muito longo, mas tente expressar o que você sentiu e pensou, afinal, o objetivo desta seção é valorizar o que vivemos, compartilhar e reviver alegrias.

Além do texto, diga data e local do momento mágico.

O Momento Mágico é uma seção permanente do Lado B. Você pode participar mesmo que seja seu primeiro post para a Virtude-AG. O material não precisa ser inédito nem exclusivo.