Gosto de pica-paus. Quando era criança achava que não existiam no Brasil, por causa do desenho animado. E nunca tinha visto um antes de começar a observar aves, apesar de certamente ter passado e mesmo olhado para muitos. São aves bonitas, fortes, confiantes, fáceis de achar e fotografar.

Pica-pau-de-magalhães (Campephilus magellanicus) Magellanic Woodpecker - macho

Pica-pau-de-magalhães (Campephilus magellanicus) Magellanic Woodpecker – macho, em El Chaltén – Argentina, na trilha atrás da pousada El Pilar

 

  • Texto: Cristian Andrei
  • Fotos: Cristian Andrei, uma de Claudia Komesu, e uma de Daniel Andrei
  • Câmeras: na Patagônia – Nikon D200 com lente Sigma 100-300, e uma foto de paisagem com a Panasonic Lumix FZ5. Os outros pica-paus com a Nikon D300.
  • Locais: El Chaltén – Argentina em março de 2007. Pica-pau-de-barriga-preta em Aquidauana – MS, Pousada Mangabal em junho de 2008. Pica-pau-do-parnaíba em Caseara – TO em setembro de 2011.

Já tivemos vários encontros especiais com os pica-paus. Um pica-pau-de-barriga-preta na varanda da pousada onde estávamos hospedados, em Aquidauana – MS, longe da área mapeada nos guias da época. Ficou um tempinho, pousado baixo, até tirarmos as fotos, e foi embora. No Tocantins, o pica-pau-do-parnaíba, que voltou a ser encontrado depois de décadas, atravessando a estrada de cá pra lá e de lá pra cá com qualquer ave. Em Campos do Jordão vimos e fotografamos um pica-pau-rei no quintal da casa dos meus pais; o marcante do momento foi ver meu filho de nove anos tirando belas fotos com a minha câmera no tripé – e eu nem tinha visto um pica-pau qualquer até ser adulto.

O encontro mais especial foi em El Chaltén, um de nossos locais de peregrinação na Terra do Fogo Argentina, aos pés dos cerros Torre e Fitz Roy. Estávamos numa pousada afastada, na cabeceira de uma trilha que levava ao Fitz Roy. A paisagem é tão arrebatadora que não estávamos olhando muito para bichos, mas tinha lido sobre os pica-paus-de-magalhães, os maiores da Terra. Não sabíamos onde procurar, nem fomos muito atrás.

Cerro Fitz Roy, em El Chaltén - Argentina

Cerro Fitz Roy, em El Chaltén – Argentina

No penúltimo dia topamos com um conhecido, que nos contou que estava fazendo montanhismo, e quando ouviu que estávamos fotografando nos disse que viu um bando de pica-paus bem grandes na trilha da nossa pousada. Na hora acho que passei por uma versão-relâmpago dos cinco passos de um trauma: “não é possível que sejam eles; que injustiça, por que nós não os vimos? Talvez, se a gente for agora mesmo… Não adianta ir, não vamos achá-los; ok, vamos tentar amanhã…”

Eu não estava confiante, e nem quis levar minha câmera pesada. A Claudia levou a Sigma 100-300 e eu a compacta dela e uma Nikon com uma lente pra paisagem, a 18-70.

Confiantes estavam os pica-paus: caminhando pela trilha, de repente ouvimos uma vocalização que parecia ser de pica-pau. Avançamos um pouco mais, vimos aves grandes voarem de um tronco para o outro e, bem na passagem, um macho e duas fêmeas, fazendo muito barulho com seus bicos incríveis, atacando os pinheiros bem baixo, na altura dos nossos olhos ou um pouco acima, e bicando troncos caídos no meio da trilha. Era cedo, éramos os primeiros a passar porque a vila ficava longe, então eles podiam estar preparados para fugir caso alguém chegasse, mas eles não se incomodaram quando chegamos perto. Pareciam gostar de se exibir.

Foi um daqueles momentos em que sentimos que podíamos ficar com os bichos o quanto quiséssemos, que eles eram os donos daquela área e estavam nos recebendo sem reservas.

Acompanhamos os pica-paus-de-magalhães por um bom tempo, vimos e fotografamos cenas que espero ver de novo um dia, mas tão recompensadoras que, se não acontecer de novo, tudo bem.

 

Observação de Claudia Komesu, editora da Virtude-AG e esposa do Cristian Andrei: o Cris não botou fé que realmente encontraríamos os pica-paus, mas eu acreditei. Acho que mentalização e pensamento positivo fazem parte do sucesso da aventura, então levei minha tele.  Mas quando encontramos os pica-paus, o Cris ficou tão encantado que não hesitei em trocar de lente com ele, fora que ele é um fotógrafo muito melhor do que eu. Se era para só um fotografar, que fosse ele.

A Patagônia na região sul – Glaciar Perito Moreno, El Chaltén, Torres del Paine é um lugar bonito demais, com cenários muito diferentes. Mais informações, veja o link para o post, na coluna ao lado.

Relato das nossas duas viagens para a Patagônia: El Chaltén e Torres del Paine

 

Mais uma proposta do Lado B: compartilhe momentos mágicos

Todo mundo que passarinha tem momentos mágicos. A aparição de uma ave rara, alguns segundos ou minutos podendo observar bem de perto alguma ave ou outro animal, uma luz muito especial, o olhar do bicho, e mesmo fotos ruins, mas que o autor sabe do valor.

O Momento Mágico não é uma foto espetacular: é um momento espetacular que você viveu, tenha conseguido foto boa ou não, talvez estivesse até sem câmera.

Basta escrever um texto e, se tiver uma foto, seja do momento ou de algo que represente seus sentimentos, envie junto para claudia.komesu@gmail.com. Fotos em 960×640 pixels, pelo menos uma na horizontal para ser capa do post. O texto não precisa ser muito longo, mas tente expressar o que você sentiu e pensou, afinal, o objetivo desta seção é valorizar o que vivemos, compartilhar e reviver alegrias.

Além do texto, diga data e local do momento mágico.

O Momento Mágico é uma seção permanente do Lado B. Você pode participar mesmo que seja seu primeiro post para a Virtude-AG. O material não precisa ser inédito nem exclusivo.