Nos três dias que passei em Hokkaido, devo ter visto quase todos os mil grous-da-manchúria (Grus japonensis) residentes da ilha. Entre os grous, a espécie está entre as mais raras e ameaçadas: só cerca de 2.750 indivíduos em todo o planeta. Ela era um dos meus alvos, e tão fácil de encontrar que nem teve graça. Meu guia me pegou no aeroporto e me levou direto para um campo onde havia dezenas, se não centenas, deles — e ainda vimos um ou outro pelo caminho. A explicação para tamanha concentração é simples: como a oferta de comida no inverno é escassa, colocam arroz para os grous naquele campo duas vezes por dia.

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  • Texto e fotos: Elsie Rotenberg
  • Câmera:  Nikon D7000, lente 70-200 f/2.8G ED VR II + TC 1.7x
  • Em Hokkaido – Japão, dezembro de 2012

Fiquei encantada com essas belas aves e passei um bom tempo ali, observando e fotografando — e não só as aves. Havia um verdadeiro batalhão de japoneses com tripés, lentes imensas, câmeras de vídeo, todo o aparato eletrônico possível. Eles estavam atrás da imagem sublime, mas nitidamente não se interessavam pelo animal, por seu comportamento, sua luta contra a extinção. Meu guia, japonês que mora em Hokkaido há anos, me viu olhando os fotógrafos e espontaneamente comentou, “Não suporto essa gente. Eles só vêm aqui para fazer fotos, não se importam com a ave.” Infeliz confirmação da minha impressão.

Mas o grou-da-manchúria — aliás, qualquer ave, qualquer animal — é fascinante. Na média ele é o mais pesado dos grous, podendo atingir até 10,5 kg; chega a 1,58m de altura e 2,5 metros de envergadura de asa. E é onívoro, o que pude constatar à tarde, quando visitamos um outro campo (desta vez debaixo de uma nevasca, e eu levei dois mega-escorregões no gelo) onde os grous recebiam peixe, que disputavam com espertos gaviões, águias e corvos.

Grous dançam. O ano todo, um par contagiando outro, pulando e vocalizando em uma complexa coreografia que inclui saltos, peito no peito, pescoços esticados, pulos para trás, mesuras, acrobacias, tudo com uma elegância invejável. Presenciar esses momentos é tocante. Não se sabe ao certo o significado dos movimentos e por que eles não se limitam à época de reprodução, mas uma teoria é que a dança exprime excitação na espécie. Talvez puro joie de vivre.

Vi muitos, muitos grous nos três dias que passei em Hokkaido, mas foi no ato final desse espetáculo que me emocionei mais. Dia já escurecendo, meu guia me levava para o aeroporto, de onde seguiria para Tóquio. Perto da estrada vi um casal de grous forrageando em busca de alimento e, não muito distante, um filhotão pulando pela neve. Pedi ao guia que parasse o carro, saltei e fiquei olhando até entender o que ele estava fazendo: ele brincava com uma folha seca, dançando com ela, se atirando no ar com uma graça incrível. Vira e mexe a folha escapava de seu bico, saía flutuando, ele saltitava atrás dela, a pegava e começava tudo de novo. A alegria pura daquele grou me levou às lágrimas. Ele estava ali simplesmente entregue ao momento, e eu embarquei no momento com ele. Fiquei parada no frio até a luz acabar totalmente e meu guia me chamar, temendo que eu perdesse meu voo. Até hoje, meus olhos marejam só de pensar naquele jovem e sua inocente brincadeira na neve.

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Mais uma proposta do Lado B: compartilhe momentos mágicos

Todo mundo que passarinha tem momentos mágicos. A aparição de uma ave rara, alguns segundos ou minutos podendo observar bem de perto alguma ave ou outro animal, uma luz muito especial, o olhar do bicho, e mesmo fotos ruins, mas que o autor sabe do valor.

O Momento Mágico não é uma foto espetacular: é um momento espetacular que você viveu, tenha conseguido foto boa ou não, talvez estivesse até sem câmera.

Basta escrever um texto e, se tiver uma foto, seja do momento ou de algo que represente seus sentimentos, envie junto para claudia.komesu@gmail.com. Fotos em 960×640 pixels, pelo menos uma na horizontal para ser capa do post. O texto não precisa ser muito longo, mas tente expressar o que você sentiu e pensou, afinal, o objetivo desta seção é valorizar o que vivemos, compartilhar e reviver alegrias.

Além do texto, diga data e local do momento mágico.

O Momento Mágico é uma seção permanente do Lado B. Você pode participar mesmo que seja seu primeiro post para a Virtude-AG. O material não precisa ser inédito nem exclusivo.