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12 placas instaladas nas áreas em que os mochos estão com ninhos
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Mas não evitou os incêndios
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Felizmente nenhuma coruja morreu nos incêndios, mas elas estão sem área para caçar
FAMILIA 2013
familia em 2013
FILHOTE NINHO 1
filhote no ninho 1
HORTELÃ DO CAMPO fÊmea da cria de 2014 irmã de ALECRIM perdeu olho direito em uma briga com a PAPRICA
Hortelã-do-campo: fêmea da cria de 2014, irmã de Alecrim. Perdeu o olho direito em uma briga com Páprica
ALECRIM PAI EM 2014
Alecrim - pai
JOVEM NINHO 3
jovem no ninho 3
JOVEM NINHO 3-2
outro jovem do ninho 3
JOVEM NINHO 3-3
o terceiro jovem do ninho 3
JOVEM NINHO-2
jovem do ninho 2
MÃE DE 2013
Mãe de 2013
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Birdwatchers visitando Americana
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Birdwatchers visitando Americana
NINHO 01
Ninho (1)
NINHO 1 _
Ninho (1)
NINHO 1
Ninho (1)
PAI DE 2013
Pai de 2013
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Mansas e tranquilas: aqui no bairro, ninguém apedreja corujas

 

Ameaçada de extinção por perda de habitat e também pela omissão dos órgãos que deveriam proteger a natureza

  • Texto e fotos: Gustavo Pinto

A sobrevivência dos mochos está sendo ameaçada por incêndios na região. A Prefeitura de Americana foi comunicada sobre a existência dos ninhos e a necessidade de apoio e proteção, mas até agora não tomou nenhuma medida. Em conversas pela página do Facebook, a Prefeitura disse que os observadores de aves devem procurar Polícia Ambiental. Os birdwatchers pedem uma atitude mais coerente com a gravidade do caso.

Dia 4 de dezembro de 2012 foi meu primeiro encontro com o Asio flammeus (o nome científico do mocho-dos-banhados) aqui em Americana, uma alegria só! Imagine como foi, uns dias depois, quando meu filho veio me contar que encontraram um Asio flammeus macho morto, com uma asa quebrada, ao lado de um alambrado. Não sabemos até hoje o que foi a causa da morte, mas a partir disto comecei a ir ao local com mais frequência , conversando com moradores sobre a existência do Asio por lá, eles me relataram que é frequente a aparição dele no bairro. Comecei a fazer perguntas a todos, conversei até com um pedreiro que me disse que mataria se uma coruja olhasse para ele (infelizmente muitas corujas são mortas no Brasil, sob a crendice de que trazem azar). Percebi que precisaria fazer um trabalho de conscientização com as pessoas. Bom, passei o ano de 2012 vendo o Asio todos os meses do ano… e ficou claro que ele é residente. Passei a monitorá-lo, até hoje vou ao local quase todos os dias.

Em 2013 no mês de abril chegou um macho que fez par com a fêmea residente. Tiveram os seus filhotes, mas não conseguimos observar desde o começo, quando encontramos o local do ninho já estavam jovens. Isso foi em uma corujada que eu, Jefferson Silva, Hideko Okita, Jose Rondon e sua esposa tivemos o prazer de ver pela primeira vez a espécie se reproduz em Americana. A partir daí foi aquela romaria de pessoas de todo o Brasil, onde tivemos erros e acertos no contato com as corujas. Comecei a fazer também a conscientização com os moradores próximos ao ninho. Eles me contaram que ela fazia o ninho ali há vários anos, fiquei animado com os relatos e estava na expectativa deste ano (2014) de encontrar o ninho desde a fase inicial. Infelizmente, no local que eles me indicaram foi construída uma casa.

Acompanhamos a vida do casal e filhotes encontrados em abril. Em setembro eles já estavam bem grandes e se alimentando sozinhos, foi o momento dos pais os deixarem, para viverem por si só. Um macho e uma fêmea, foi esta a cria.

Já neste ano de 2014 eles eram visto com frequência nos portões da casa das pessoas dentro do bairro, onde podiam chegar a 2 metros dele e isso ocorre até hoje, ou seja se adaptaram à urbanização. Comecei a me preocupar , mas a população local os adotaram e passaram a proteger eles, crianças andam de bicicletas e eles os acompanham com olhar nos mourões de cercas, famílias colocam cadeiras nas calçadas e veem eles caçarem nos terremos baldios.

Em 17 de fevereiro chega em Americana outra coruja, uma fêmea adulta. Começou então o cortejo com o jovem macho da cria do ano passado. Essa fêmea que chegou, em uma briga com a sua irmã arrancou seu olho direito… Então o amigo e parceiro Peterson teve a ideia que eu desse nomes a eles. Relatei isso ao meu filho Murilo, que logo disse “pai se é um macho e uma fêmea, coloca Alecrim e Hortelã nos irmãos”. Gostei da ideia e a Páprica foi em homenagem ao meu amigo Ernesto que tem um restaurante com o nome Páprika. Depois de dias chega a Salsa outra fêmea que também passou a seduzir o Alecrim.

Começava então a procura do ninho. Um dia o amigo e parceiro Norton Santos veio fazer umas fotos dos mochos e, para nossa surpresa, naquele ponto onde o Alecrim estava pousado era o local do ninho. Descobrimos porque um cão se aproximou do local e ele começou a atacar. Falei pro Norton “Cara segura o Arthur ‘meu outro filho’ aí, que isso que ele acabou de fazer é proteção ao ninho”, entrei nas braquiárias e bingo , lá estava Salsa já com 2 ovos, e começava então o monitoramento do ninho (1).

Depois de dias monitorando o local vejo outro macho com um rato nas garras e não o reconheci. Então entrei no carro e comecei a segui-lo e lá encontrei outro ninho (2) com um jovem. A fêmea desse ninho devia ser a mãe do ano passado, pelas características e comportamento dela.

Passaram alguns dias, fomos em outro ponto e o Alecrim predou um rato, mas não foi no ponto do ninho da Salsa, e sim no ponto onde a Páprica fica. Novamente estavam eu e Norton, quando de repente ela sai e digo ao Norton: “Cara isso é característica de ninho!”, mas como era noite não podíamos andar no local. No outro dia de manhã chego ao local e fico a manhã toda observando e nada. Chega a hora do almoço, peço marmitex e me mantenho no local. Às 15 horas ele volta e trás outro rato. Marquei o local e quando me aproximo, vejo outro ninho com três jovens já bem grandinhos. Denominei de ninho (3).

Hoje há três ninhos com cinco adultos, Alecrim x Páprica, Alecrim x Salsa, fêmea de 2013 x macho desconhecido. Um total de sete filhotes. Até hoje (03-07-14) dois morreram por falta de alimentação. Dentre todos esses indivíduos apenas o casal de irmãos Alecrim e Hortelã-do-campo são residentes. Os outros vêm somente para se reproduzirem e depois vão embora.

Os moradores do bairro parecem ter realmente adotado as corujas. Sempre vêm conversar comigo para me contar sobre avistamentos. Já levei dezenas de colegas birdwatchers para observá-las, e acho que isso também ajuda o pessoal a ter a percepção de que as corujas são importantes, um motivo de orgulho para o bairro e a cidade.

Infelizmente, neste exato momento os mochos sofrem uma ameaça grave: nas últimas duas semanas a região sofreu incêndios, não parecem ter sido naturais. Com uma vaquinha, tínhamos confeccionado 12 placas de polipropileno, que explicam que aquela é uma área de reprodução de uma espécie ameaçada de extinção. Instalei-as no dia 29 de junho, mas no dia 2 de julho ocorreu esse incêndio. Graças a Deus nenhum mocho morreu, afugentei-os pra longe, mas eles estão praticamente sem área para caçar. Fui lá no dia 3, até chorei de ver… A pior situação é a do ninho (3). Das 6h às 9h30 a mãe não achou nada para eles comerem. Então fui a um açougue e comprei um pouco de carne, coloquei nos poleiros que fiz e eles comeram. Não sei se poderia ter feito isso, mas não tinha outra opção para eles agora. Eles comeram e foram para o dormitório.

Estou na luta. Já contatei as autoridades da minha cidade, mas é desanimador. Fica um jogo de empurra-empurra, até agora não foi feito nada de fato. Tive uma reunião em que o Secretário do Meio Ambiente, Odair Dias, manifestou interesse pelos mochos, fez diversas perguntas, mas estou desesperado porque na prática nada acontece. Os amigos estão ajudando a fazer pressão, manifestando na página do Facebook da Prefeitura, mas por enquanto fica aquela história de “Vocês devem procurar a Polícia Ambiental”.

E é uma espécie que consta na Lista Vermelha do Estado de São Paulo! O status dela é “Em perigo”, o que é grave. O degrau seguinte é “Criticamente em perigo”, e o outro “Extinta na natureza”.

O habitat do mocho são campos abertos e cerrado. Com a urbanização, a área que eles têm para viver diminui cada vez mais. Pelo o que tenho observado desde 2012, só dois mochos ficam residentes em Americana. Não sei para onde vão os outros, que só aparecem por aqui para reproduzir. Depois do segundo incêndio alguns colegas perguntaram se não seria melhor tentar uma transferência dos mochos para uma área protegida… Não sei se é a melhor solução, já que daqui a pouco a maioria vai migrar, não sei para onde.

Com os incêndios dessa área e a falta de ação das autoridades municipais em proteger, talvez no próximo ano Americana não tenha mais o privilégio de ter uma espécie ameaçada de extinção se reproduzindo aqui.

Queria destacar a ação dos moradores do bairro! Faz dois anos que tenho conversado muito com eles, mas agora é uma beleza ver como tem tanta gente que entende a importância dos mochos, e com certeza valoriza muito mais a natureza.

Não dá para saber se haverá próxima ninhada nessa região. Por enquanto, fico feliz de ter tido a oportunidade de observar, e levar vários amigos pra observar, como o Asio é bonito.

 

Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)