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Descamação da pele, feridas, calombos no couro cabeludo: fique atento. O mais importante: previna-se, evite picada de insetos

  • Texto: Ciro Albano
  • Originalmente divulgado no Facebook. Claudia Komesu, editora do Virtude-AG, leu e pediu autorização para repostar. (Sei que a foto não é das melhores, mas não queria por foto de mosquito).
  • Ciro Albano é um dos maiores guias ornitológicos e fotógrafos de aves no Brasil. Trabalha principalmente no Nordeste, em geral está sempre guiando estrangeiros (que se programam com um ou dois anos de antecedência), mas tem reservado espaço para guiar fotógrafos brasileiros. Ciro apoiou a campanha do Virtude-AG “Se foto bonita divulga, por que as parques dificultam?“, inclusive permitindo o uso de suas lindas fotos, que fizeram muita diferença na quantidade de compartilhamentos no Facebook. Ciro é conhecido pela simpatia e bom humor. Dizem que passarinhar com ele é certeza de boas risadas, além de muitos avistamentos e fotos excelentes, é claro. Site do Ciro: http://www.nebrazilbirding.com/

Amigos, pra quem não sabe, em fevereiro deste ano contraí Leishmaniose: uma doença ainda pouco conhecida e divulgada. Os casos vêm aumentando ano a ano em nosso país, por isso resolvi escrever este post de utilidade pública para os colegas que têm o privilégio de trabalhar com o que gostam no mato, e para os que se aventuram em passarinhadas, pescarias, gostam de cachoeiras e qualquer atividade junto à natureza. Sim, pra quem gosta não tem nada melhor que estar no mato, apesar de haverem riscos, SIM.

Pois bem, a Leishmaniose é uma doença NÃO contagiosa transmitida por um mosquitinho (flebótomo) que tem seu pico de atividade no início da manhã e final do dia (gosta do crepúsculo) e sua picada pode transmitir varias espécies de “Leishmania”, que é um protozoário. A pior delas é o conhecido Calazar (ou Leishmaniose visceral), que é de difícil diagnose e ataca os órgãos internos (essa é foda mesmo); tem a tegumentar que cria uma ferida no corpo, podendo também ter a variação chamada mucocutânea que além das feridas no corpo, ataca as mucosas.

A minha começou com uma ferida pequena no braço que nunca curava. Como de vez em quando pego carrapato (normal pra quem vive no mato) e às vezes quando se retira um de forma errada fica uma feridinha aberta inflamada por semanas, eu pensei que fosse isso… Mas não sarava e em um certo momento começou a inflamar muito, até que tive um tempo em Fortaleza e fui ao médico tentar descobrir do que se tratava (bem mais de um mês depois que ela apareceu…).

Chegando lá tinha uma baita infecção bacteriana e lá se foram mais quase duas semanas pra combater essa infecção, pra enfim fazer os procedimentos (biópsia, teste de Montenegro…) que apontaram para Leishmaniose tegumentar. Esse tipo de doença é tratada pelo SUS e aqui no Ceará o Hospital de referência (o qual eu tenho que bater palmas de pé pelo atendimento nota 10 que tenho tido) é o Hospital São José (especializado em doenças infecciosas).

O tratamento mais conhecido e tradicional é com um antimonial pentavalente chamado Glucantime (que pode ser bem tóxico e tem que ser tomado no hospital todo dia por cerca de um mês); mas pesquisadores desse Hospital descobriram grande porcentagem de eficácia através do tratamento com comprimidos antifúngicos (Fluconazol), que é menos tóxico que o Glucantime; mas infelizmente em mim não surtiu o efeito esperado e durante as 7 semanas que utilizei o remédio tive algumas reações adversas e, ao invés de me curar, ocorreu um caso raro e nasceu outra ferida, mas dessa vez na parte interna do meu nariz (!!!)… Aí bateu o desespero e quando voltei ao hospital a equipe médica se reuniu e elegeu meu caso como urgente e me prescreveram um remédio que é considerado o melhor atualmente disponível (Ambizome) mas que não é largamente utilizado por conta do preço elevadíssimo (é caro mesmo…). Mas nos casos urgentes o SUS libera (obrigado SUS !), tive uma reação alérgica assustadora logo na primeira dose, mas fui medicado e no momento estou quase na metade do tratamento e sentindo melhoras. Agora vai !!

Escrevi isso tudo com o intuito de alertar os amigos que existem formas de se prevenir dessa e de outras doenças transmitidas por mosquitos. Usem repelente SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE !!! O OFF é eficaz contra os flebótomos (testado em laboratório). Calças, chapéus, camisa de manga longa também são sempre bem-vindos. Especialmente calça, pois os flebótomos geralmente voam baixo e picam em geral até a altura do joelho. Aproveito e também sugiro o uso de perneiras contra serpentes que também servem de barreira física contra insetos. Depois de adoecer a pessoa acaba ficando um pouco “medrosa”, mas faz quase 15 anos que passo a maior parte da minha vida no mato e essa é a primeira vez que tenho um caso mais sério. Já peguei infinitos carrapatos, micuins e até berne, mas nada se compara a essa doença que é um saco e exige muita paciência pois tudo é “”demorado””. Nessa situação você acaba sabendo de outros casos, eu sei de pelo menos cinco ornitólogos ou afins que já tiveram Leishmaniose e conheço um que já levou picada de jararaca.

Então, fica a dica da prevenção… Não tenham dúvida que é BEM melhor que remediar. E pra encerrar espero que esse post não assuste ninguém que curte natureza; COM CERTEZA a cidade é MUITO mais perigosa. Só hoje em Fortaleza deve ter acontecido mais acidentes graves de transito que todos os casos de Leishmaniose desse mês de junho.

Quem quiser se informar mais sobre a doença é só fazer pesquisas no Google que tem diversos artigos e fontes on line… Se tiverem uma ferida que não fecha não pensem duas vezes em visitar um hospital. Aqui no Ceará a atenção tem que ser redobrada pra quem está visitando as Serras. Mas a doença é bem espalhada no país, aqui um link para uma mapa dela de 2008 (aumentou muito de lá pra cá…): http://www.scalibor.com.br/images/Estratificacao600.jpg

Estratificacao600

Observações de Claudia Komesu, editora do Virtude-AG

Como falou o grande Ciro Albano, infelizmente neste caso, como na malária, o melhor é a prevenção.

Sempre usar calça comprida, e de preferência camisa de manga-longa. Roupas folgadas e passar repelente por cima da roupa diminuem suas chances de ser picado, porque mesmo com a pele coberta, se o tecido for fino e estiver em contato com sua pele os mosquitos e pernilongos conseguem picar por cima da roupa.

Mesmo com uma camisa larga, se não passo repelente sobre a camisa sou capaz de ser picada – basta dobrar o braço, o cotovelo já fica em contato com o tecido e eles podem picar. Qualquer pedacinho sem repelente os bichos atacam. Quando fui pro Pantanal usava repente em creme (para ter mais certeza de que tinha passado em toda pele, e por cima o spray para reforçar).

No rosto é mais difícil por causa dos olhos, mas quando os bichos estão atacados, não tem jeito. Fui semana passada pra Ubatuba, e em 10 minutos levei 10 picadas no pescoço e 8 no rosto, inclusive bem perto dos olhos, que me deixaram por umas horas com um tipo de olheira invertida. Usar chapéu com abas, e passar repelente no chapéu, ajuda (por que eu não fiz isso? Tinha acabado de descer do carro pra falar com o Jonas, achei feio ter que pedir licença pra ir correndo pro carro passar repelente no rosto, mas é o que eu devia ter feito).

Também sempre coloco a barra da calça por dentro da meia. Não é bonito, mas pra quem usa botinha quase não aparece e, o mais importante: evita que formigas ou carrapatos subam por dentro da sua roupa.

A perneira também é recomendável, como disse o Ciro, mas confesso que não consigo usar. Acho que precisaria de pelo menos uma feita sob medida, sou baixinha e as que existem pra vender ficam batendo na dobra do joelho. Em compensação, em geral só ando em trilha limpa, não piso nem em monte de folhas (já vi jararaca dormindo em monte de folhas) e nunca coloco a mão em frestas, buracos, embaixo de troncos ou qualquer local que pode ser abrigo de animais peçonhentos.

Em geral uso o Off, carrego o frasco pequeno no bolso e repasso com frequência. Mas se quiser mais segurança ainda, o repelente recomendado por médicos que trabalham com esse tipo de doenças é o Exposis, porque tem uma concentração bem maior de princípio ativo. Você encontra em farmácias como a Droga Raia. Esse frasco verde e branco na foto que parece adubo é um dos tipos de Exposis. Eles recomendam passar sobre a roupa.

 

Conhecimento (+)