A floração das cerejeiras em Campos do Jordão é uma das melhores oportunidades para fazer fotos lindas de aves. E passeio no sul de Minas: Delfim Moreira e Wenceslau Bráz

  • Texto e fotos: Claudia Komesu, exceto selfie de nós três, feita pela Rosemarí e pelo Thiago. Câmeras: Nikon D800 com Nkkkor 300 f4 VR, Canon S120 e Olympus TG3
  • Passeio com a Rosemarí Julio, guiadas pelo Thiago Carneiro
  • Evite Campos do Jordão em feriados, e saiba que nos finais de semana já está bem lotado. Se você não puder ir em outras datas, o horário até às 10h costuma ser mais tranquilo.

Como vocês sabem, pegar algum momento em que os bichos estão se alimentando oferecem algumas das melhores oportunidades para fotografar. Eles estão concentrados em comer, muitos permitem uma aproximação maior, eles ficam bastante tempo num só lugar, e se for uma floração ou frutificação, você terá a fotogenia do ambiente.

A floração de cerejeiras é meu cenário favorito, e olha que nem tenho uma predileção por cor de rosa, mas os bichos em meio às flores compõem um cenário de sonho. No passeio que fiz agora não consegui muitas fotos, foram só algumas horas, estava ventando bastante, poucos bichos. Mas as fotos que você consegue sempre terão esse toque especial do cenário.

Há cerejeiras em muitos lugares do Brasil, inclusive na cidade de São Paulo, em lugares como o Parque do Ibirapuera, o Horto, o Parque do Carmo, mas acho que a floração delas é de julho até meados de agosto. Pelo menos no Carmo, o festival costuma ser no início de agosto. Em Campos do Jordão há várias espécies de cerejeiras, por isso é possível encontrar árvores floridas desde junho, se estendendo às vezes até início de setembro.

Fui passarinhar em Campos, só 1 dia e meio, mas era a oportunidade para rever a Rosemarí Júlio, uma amiga querida demais. Ela viaja bastante pelo mundo todo, então quando está no Brasil, é preciso aproveitar a janelinha na agenda :)

Tivemos o privilégio de ter o Thiago Carneiro como guia. O Thiago é outro queridíssimo, daqueles que, além de ótimo guia, transmite muita tranquilidade e paz, alguém pra conversar o dia todo.

Cheguei em Campos na terça no fim do dia, como sempre a Rosemarí já me esperava com o jantar pronto. Meus sogros têm uma casa em Campos, mas nesses passeios fico hospedada na casa dela, ela é uma super-anfitriã.

No dia seguinte a esposa do Thiago, a Juliana, levou-o até a casa da Rosemarí. Saímos do condomínio e nos dirigimos até a portaria do Horto de Campos, o Thiago explicou pro segurança que não estávamos indo pro parque e sim pro sul de Minas, sem problemas, pegamos estrada e seguimos. Tínhamos combinado no dia anterior, sabíamos que aquele seria um dia pra rodar bastante de carro, nosso almoço seria um lanche que preparamos. A expectativa era de passeio em estradas bonitas e isoladas e, claro, algumas aves.

O dia começou com um lifer pra Rosemarí, uma bela choquinha-carijó fêmea, que apareceu no limpo. A gente desconfiava de que ela já tinha foto da choquinha-carijó de algum outro passeio, mas não está registrado no Wikiaves. A Rosemarí viaja muito e não é competitiva ou fissurada em lifers, ela sabe que já tem fotos de mails de mil espécies brasileiras, mas não tem pressa de postar. Talvez não fosse lifer, mas comemoramos como lifer.

E assim seguiu o dia. O Thiago estava no volante e ia parando nos pontos que ele conhecia, ou quando ouvia ou via alguma movimentação de aves. Topamos com mariquita, alegrinho, borboletinha-do-mato, arredio-pálido, beija-flor-de-topete, pula-pula-assobiador, estalinho, saí-andorinha, tapaculo-preto, sanhaçu-de-fogo mais de uma vez, destaque para o momento com a saudade cantando muito, voando de uma araucária pra outra, esse bicho tem um canto lindo, parece coisa de outro mundo, não é um canto que lembra som de ave, a gente brinca e fala que parece teste de microfone. Passamos por um bosque de pinheiros onde o Thiago já havia visto gavião-bombachinha, gavião-bombachinha-grande, gavião-de-sobre-branco, mas não tivemos sorte. Vimos caneleirinho-de-chapéu-preto, macho e fêmea, quetes, arapaçu-escamado, arapaçu-escamado-do-sul, arapaçu-rajado, várias vezes o peito-pinhão, que é uma ave mítica pra mim porque em 2012, com o Thiago, a gente topou com um bandinho de alimentando no baixo, naquelas poses adoráveis quando a ave se estica pra alcançar alguma coisa, estava no meio de um raminho com flor, a cena era linda e minha foto tinha pouca luz. Desde então sempre sonho em voltar a topar com um bandinho no baixo, se alimentando, pra tentar mais fotos da fofura. O Thiago sabe que eu tenho essa atração pelos peitos-pinhão, tanto que uma hora eu os avistei de longe, falei “peito-pinhão”, ele perguntou “tem certeza de que não é quete? Olhou com o binóculo e falou: ´é claro que é peito-pinhão, até parece que a Claudia ia confundir um peito-pinhão’”. E é claro que é fácil eu confundir ou falar algo errado, mas é sempre bom pensar que a gente tem uma conexão especial com alguma espécie.

Tirei muitas fotos de peito-pinhão, principalmente de um que não queria sair de um galhinho de bambu, ele ficou por lá e não se importava com a nossa presença. Muito bonitos, mas ainda não são as cenas que eu quero.

Quero uma outra oportunidade assim

Conseguimos boas fotos de um casal de tesouras-cinzentas. Peguei inclusive um momento em que uma ave expulsa a outra do poleiro, e a ave que foge parece estar com uma expressão de pavor. Sei que muita gente diz que ave tem sempre a mesma cara, não tem expressão, mas já vi vários momentos em que isso não parece verdade.

Outro lifer pra Rosemaí seria o pi-puí (um desses malandrinhos encardidos que só fica em lugar embrenhado). Eles ouviram cantar e foram tentar fazer a foto, eu fiquei em frente a umas florzinhas silvestres esperado o besourinho-de-bico-vermelho voltar. E voltou. Já estava um pouco escuro, mas fotografar beija-flor se alimentando de flores sempre dá fotos bonitas.

Já voltando pra casa, o Thiago achou que devia subir uma estradinha que ele nunca tinha ido. Deu ré, voltamos, e foi e oportunidade de ver um casal de sanhaçu-de-fogo. Não consegui fotos muito boas, mas foi lindo vê-los voando juntos. Deve ser um dos casais mais lindos das aves brasileiras, o macho é bem vermelho, a fêmea é bem amarela. Quando eles pousam juntos, fica parecendo uma árvore de Natal.

O dia estava acabando. No por do sol, já escuro, o Thiago chamou o bacurau-da-telha e ele apareceu (era lifer pra Rosemarí e pra mim – meus lifers eu só vi depois, não tinha feito lista). É sempre emocionante quando seu guia está chamando com o playback e de repente o bicho aparece, parece mágica. Eu não estava com flash, mas o Thiago tinha levado uma lanterna forte, e consegui uma foto bem razoável.

O Thiago também tentou algumas corujas, mas nenhuma quis se aproximar.

Na volta pra casa eles estavam falando de um lugar com boas chances de ver caburé-acanelado, coruja-orelhuda (são espécies que eu nunca vi), e a Rosemarí disse que poderíamos ir. Mas à noite eu sou imprestável, minha pilha acaba e eu preciso dormir. Como a Rosemarí já tem fotos dessas espécies, sugeri pra gente pular a corujada e dormir mais cedo.

 

No dia seguinte pegamos o Thiago num ponto de encontro combinado e fomos até um brejo num campo de altitude onde havia boas chances de ver o canário-do-brejo, esse seria lifer pra mim. Chegamos lá era um local maravilhoso com uma vista linda, mas estava ventando demais. O vento tornava o cenário mais especial ainda, mas infelizmente torna o playback ineficaz.

Os dois dias foram de céu bem azul, temperatura agradável, mas o vento na quinta-feira atrapalhou bastante. Não pudemos aproveitar os brejos, e apesar de já haver várias cerejeiras floridas, não havia uma grande movimentação de aves como vimos em outras temporadas. Não sabemos se era época do ano, vento, o fato de haver várias cerejeiras floridas espalhadas pela cidade e talvez as aves estivesse espalhadas por elas, mas o fato é de que não tivemos muitas oportunidades para fotografar. As melhores oportunidades foram saíras-lagarta e quetes numa cerejeira bem florida, na entrada do Palácio. Num outro ponto também vimos saíra-amarela, saí-azul, borboletinha-do-mato, boas fotos da fêmea do besourinho-de-bico-vermelho na flor de boldo ao lado da cerejeira.

Além das cerejeiras, rodamos pelos loteamentos do Alto da Boa Vista, que infelizmente um dia serão casas, mas por enquanto é uma boa área de mata, e tivemos um encontro muito especial: o cabecinha-castanha, uma ave linda mas rara de se ver. O primeiro registro pra Campos do Jordão foi meu, em 2012, num passeio com o Thiago também. Só há 15 fotos dessa espécie na cidade de Campos, então podem imaginar como ficamos felizes de vê-lo.

Eu tinha que voltar cedo pra São Paulo, então na hora do almoço me despedi do Thiago e da Rosemarí e peguei estrada, eles continuaram o passeio. Mesmo sendo só 1 dia e meio, valeu muito a pena, tanto pela companhia quanto pelas oportunidades.

Se você tem oportunidade de ir pra algum lugar com cerejeiras, vá. Se puder, reserve mais de um dia. Pelas minhas experiências de outros anos, a manhã não é o melhor momento pra fotografar, e sim depois das 10h30 e no fim da tarde. Perto da hora do almoço, com mais sol, imagino que há mais néctar, pelo menos esse é o horário em que há mais insetos. E à tardezinha também já vi bastante movimentação, talvez seja o último lanche antes da noite.

Mais cerejeiras

 

Mais Campos do Jordão

 

Mais Mata Atlântica