Em busca de uma identidade para a fotografia de natureza feita por mulheres

 

A pataquada da Nikon em ter feito a campanha de lançamento da D850 (ago/2017) ignorando a existência das mulheres (tanto as fotógrafas profissionais, quanto as que lutam por diminuição de desigualdades) teve seu lado positivo. Situações como essa ajudam a tornar um problema mais visível, e a indignação pode impulsionar mudanças.

Ainda não sei o que poderemos fazer, mas achei que valia a pena criar um espaço no Virtude e quem sabe outras mulheres se animem a participar. Sinta-se à vontade para compartilhar reflexões e fotos, indicações de fotógrafas e fotógrafos, é só mandar para claudia.komesu@gmail.com.

  • Texto: Claudia Komesu
  • Fotos: Claudia, Cristian Andrei, Hideko Okita, Thiago Carneiro. Agradeço ao Cris por ter me fotografado em vários momentos, aos amigos que aparecem nas fotos, principalmente à Juliana Diniz, a pessoa com quem eu mais saio pra passarinhar, à Maria Diniz, a menininha que aparece numa das fotos, filha da Ju. Obrigada também à Rosemari Júlio e à Hideko Okita, que aparecem em várias fotos, à Tatiana Pongiluppi, à Daiane Barros, à Camila Lima, à Silvia Linhares, ao Luccas Longo, ao Daniel Andrei, ao Thiago Carneiro, ao Adrian Rupp, ao Jarbas Mattos, ao Gustavo Magnago, ao Satu, ao Jura. Na foto que estou deitada de bruços no chão tem um bololô de gente que não dá pra ver direito, mas foi um passeio com Daiane Barros, Silvia Linhares, Jarbas Mattos, Sérgio e Letícia Coutinho, Marco Crozariol, Lucas Valério, Tomaz Melo — e o Cris, autor da foto. O grupo grande é um dos #VemPassarinhar do Instituto Butantan, em São Paulo, um evento mensal gratuito. Para saber mais: https://www.institutobutanta.com.br/observatorio-de-aves-do-instituto-butantan/

No post sobre a polêmica da Nikon, falei sobre o quanto a fotografia de natureza é um nicho (comparado a fotojornalismo e fotografia de pessoas), e sobre o caráter masculino da fotografia de natureza, inclusive a fotografia de aves. O quanto nós fotógrafas que não seguimos o estilo dominante somos a minoria da minoria da minoria.

Mas o que é essa história de caráter masculino ou feminino na fotografia?

Homens e mulheres têm valores diferentes, analisam e julgam as coisas sob óticas diferentes. Se você tem dúvidas sobre essa afirmação, dê uma olhada nestes links: http://www.administradores.com.br/artigos/carreira/inclusao-e-diversidade-sao-importantes-entenda-o-motivo/103961/, http://claudiakomesu.club/quem-julgou-isso-foi-um-homem-ou-uma-mulher/, https://www.guerrillagirls.com/#open.

Atualmente qualquer empresa ou associação importante reconhece que a diversidade é essencial para um mundo menos injusto. Na fotografia de natureza a maioria dos fotógrafos famosos são homens, assim como os críticos. As fotos são julgadas segundo valores masculinos e o que difere é considerado uma obra inferior.

 

O que são valores masculinos e o que são valores femininos?

Apesar das múltiplas definições e da sensação de que essa é uma discussão exotérica, o conceito de masculino e feminino tem aplicações práticas reconhecidas por publicitários e administradores. Alguns exemplos de acepções associadas com masculino e feminino:

Nos valores de uma sociedade

  • Masculino: assertividade, materialismo, centrado em si, poder, força, conquistas individuais
  • Feminino: cooperação, modéstia, preocupação com os mais fracos, qualidade de vida

https://en.wikipedia.org/wiki/Hofstede%27s_cultural_dimensions_theory

 

Nas estruturas de trabalho

  • Masculino: valorização de status, hierarquia, competitividade, assertividade, foco, não levam para o lado pessoal
  • Feminino: preferem estruturas colaborativas, compartilham informação e poder, contexto importa, não são diretas, cuidadosas para fazer críticas, levam sentimentos em conta

https://www.forbes.com/sites/womensmedia/2012/05/07/a-balance-of-both-masculine-and-feminine-strengths-the-bottom-line-benefit/#4cf9245f79e7

 

Esta entrevista com o presidente de uma grande agência de propaganda é curta, mas ele fala sobre a importância da diversidade

“Esse estudo trata da paridade entre homens e mulheres no mercado de trabalho em todos os aspectos, salário, oportunidades e benefícios, e conclui que isso só vai acontecer em 2095. Tenho duas filhas, uma de sete e outra de dois anos, e quando li esse estudo pensei que nem elas verão essa igualdade. Isso me impactou muito. A gente tem que adotar medidas para antecipar essa data e parar de repetir padrão. O problema é que o mundo ainda não deseja essa igualdade. Obviamente, isso vale para todas as minorias. Como todas as coisas, o caminho mais fácil é sempre o mais curto. Pode ser mais difícil procurar mulheres e negros para cargos de liderança, mas tem que ser feito (…)

Mas é importante que sejam mulheres no comando, não homens disfarçados. Explico: os valores femininos como generosidade, colaboração e empatia precisam ser preservados. Se a líder for mulher e aplicar valores masculinos, nada muda.”

http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/negocios/20160520/momento-passar-usar-valores-femininos/375010

 

Pra ficar claro: não estamos falando de nada inato, esses valores são culturais. Quando falo de valores femininos ou masculinos são valores que uma boa parte de homens ou mulheres se identificam, porque nossa cultura é assim, fomos criados assim. Mas nada impede que uma mulher tenha valores masculinos, ou homens se identifiquem com os femininos. Os dois universos têm aspectos positivos e negativos. O que estou trazendo pra discussão é a compreensão de que o estilo dominante, masculino, é só um dos universos, e podemos começar a combater a ideia de que qualquer coisa que não esteja dentro do estilo dominante é inferior.

 

A fotografia de aves e o estilo Wikiaves

No mundo da fotografia de aves no Brasil vivemos dominados pelo padrão Wikiaves do que é uma boa foto. O Wikiaves é um site com valores masculinos: valoriza competitividade, conquistas individuais, força, poder, assertividade. Há um ranking de pessoas com mais lifers, a homepage tem um ranking das fotos mais curtidas e das mais difíceis, há uma disputa (que envolve estratégia e às vezes trapaça) para conseguir votos e o status de ter uma foto sua na página da espécie.

Nas redes sociais, aprendemos que as fotos de valor são de espécie incomum, de preferência colorida, totalmente no limpo, fundo homogêneo, luz favorável, bem de perto, com penas super-definidas, ave numa pose que mostre suas principais características de identificação, de preferência de perfil, recorte fechado sobre a ave. Uma ótima foto sob diversos aspectos, inclusive para um guia de campo ou uma base de dados.

As fotos nesse estilo sem dúvida ficam chamativas e impactantes. Mas, como já escrevi em outros posts, elas dominaram de um jeito que faz qualquer outro estilo parecer errado. O estilo dominante age com a força de um padrão de beleza. Faz com que muitas pessoas sintam que se não têm uma super-câmera, se não podem ir pra Amazônia, se não conseguem esse tipo de foto, elas não são fotógrafas de verdade. Ou desistem de fotografar, ou então fotografam de forma muito esporádica.

Enquanto formos um grupo disperso e não dedicado, será difícil mostrar que há outros estilos possíveis.

 

Algumas ideias de como buscar uma identidade feminina

1 – Ter a certeza de que o estilo Wikiaves é apenas um dos estilos possíveis

2 – Entender que não podemos nos orientar por taxa de retorno de comentários ou elogios. O estilo dominante é dominante, e vai continuar assim por muito tempo.

3 – Encontrar um uso para suas fotos. No estilo dominante, você fotografa, posta no Wikiaves, aumenta sua Life List e/ou aumenta a lista de uma cidade, compartilha no Facebook. O que fazer se você não se enquadra? É preciso encontrar uma finalidade pras suas fotos, se você fotografa e não faz nada com as fotos é fácil desanimar.

4 – Na busca por uma utilidade para suas fotos, um uso simples e garantido é a ideia de valorizar sua cidade. Se você fotografar durante meses a mesma região, com certeza conseguirá um acervo interessante que pode ser compartilhado com a prefeitura, escolas, revistas e jornais locais. Fotos bonitas sempre chamam a atenção, quando fotografamos e divulgamos a natureza, estamos ajudando a aumentar sua importância. Trabalhar num projeto do bem ajuda a sair da vibe de precisar de likes e elogios.

5 – “Contexto importa, história importa, sentimentos importam” são alguns dos valores femininos. Não saia pra fotografar aves, saia pra fotografar o que você enxergar de bonito, incluindo pessoas, cenários, paisagem, plantas, flores, insetos. Isso torna qualquer álbum de fotos muito mais interessante. É difícil conseguir uma “foto incrível que arrebenta”, mas é fácil juntar várias imagens bonitas, que isoladas não chamariam atenção, mas que num álbum ganham sentido. Aqui tem dois posts que podem ajudar:

Exemplos de fotos de pessoas durante os passeios, imagens não posadas: http://virtude-ag.com/fotografia-de-gente-natureza/

Insetos, fishwatching: http://virtude-ag.com/fotografia-natureza-cameras-mais-baratas-do-que-celular-fev17-por-claudia-komesu/

6 – A questão do local agrega valor pra sua coleção. Uma coisa é você ver algumas fotos bonitas. Outra é saber que elas foram feitas na sua cidade, isso faz as pessoas se interessarem mais.

Não é fácil ser capaz de fazer um trabalho que se destaque a nível nacional, ou internacional. Mas localmente, qualquer pessoa pode fotografar a natureza da sua cidade ou região e despertar interesse das pessoas daquela região.

7 – Sabia que não é difícil ter suas fotos publicadas no G1, na seção “Você no TG”? Na seção do Terra da Gente, fotos dos leitores. Saiba mais aqui: http://virtude-ag.com/eu-divulgo-natureza-voce-no-terra-da-gente-mar17-por-claudia-komesu/

8 – Recomendo você se cadastrar e passear pelo https://www.inaturalist.org. Esse site californiano é uma base de dados com valores e estrutura não competitiva. Ver as fotos que as outras pessoas estão fazendo de insetos, plantas, flores, peixes, conchas expandiu minha visão, me fez sentir que eu estava perdendo oportunidades durante os passeios. Sempre gostei de flores e insetos, mas depois de conhecer o inaturalist é como se eu passasse a enxergar mais.

9 – O recorte geográfico é um jeito garantido de encontrar sentido pras suas fotos, mas não é o único. Você pode ser alguém mais ligada ao mundo das artes e da criatividade, ou tem amigos bem próximos com quem poderia desenvolver algum projeto que aliasse fotos e poesia, fotos e crônicas, fotos e livros infantis, fotos e criação de estampas, fotos e ilustrações, fotos e ilustrações que inspirem cerâmicas.

10 – Encontrar uma finalidade pras suas fotos, seja combinada com outras artes, seja por divulgação em redes sociais, num blog, num projeto pra sua cidade, num projeto pessoal, é fundamental pro nosso desenvolvimento como fotógrafas. Ter um objetivo pras imagens faz você se dedicar muito mais.

 

Limitações e desvantagens de ser fotógrafa mulher

1 – Não se sinta envergonhada ou inferior por errar regulagens. Eu fotografo há 12 anos e erro até hoje. Talvez eu seja mais burra do que a média. Ou talvez seja fácil ficar enferrujada, ou difícil incorporar ações se você não pratica com uma alta frequência. Acho que se eu fotografasse toda semana (como vários homens fazem), depois de poucos meses algumas coisas que hoje são fáceis esquecer ou errar eu não erraria mais, elas se tornariam automáticas.

O domínio técnico requer prática constante, e sei que a maioria das mulheres não consegue sair toda semana pra fotografar, por ene motivos. Não se sinta burra ou inferior por errar.

2 – Qualquer coisa que você faz com frequência você se desenvolve. Nossos colegas com fotos ótimas em geral saem bastante pra fotografar, muitos conseguem ir toda semana. Se a gente saísse toda semana pra fotografar também melhoraríamos, mas sei como não é fácil encontrar um espaço só pra gente na nossa agenda, ainda mais se a mulher tem filhos. Não é fácil mudar essa situação, mas há duas ideias importantes:

– lembre sempre como não faz sentido achar que você precisa ou consegue ter os mesmos resultados de alguém que pratica toda semana;

– há um tema de fotografia que talvez você possa encaixar durante a semana, em algum lugar perto da sua casa, mesmo que seja um lugar que você acha arriscado ir com a câmera de fotografar aves: fotografia de insetos e flores com compacta, que eu falei um pouco naquele post sobre câmeras baratas. Aumenta seu acervo de imagens, traz uma sensação boa de conseguir fazer fotos bonitas, é um tempo pra você. Uma hora, 1h30 num parque urbano rendem bastante, experimente.

2 – Foto tremida não é legal, mas eu entendo e também tenho esse problema. Foco cravado é um dos principais valores masculinos de uma foto, é a característica básica de qualquer foto que queira ser levada a sério (segundo os valores de hoje) e uma das demonstrações da sua habilidade, equipamento, competência.

Nem sempre eu consigo foco cravado e também reparo na foto de outras mulheres. Uma DSLR com teleobjetiva é um trambolho, e o mais comum é que as mulheres tenham menos força física. O tripé ou monopé resolvem, mas sei como é chato usar. Musculação seria uma alternativa, mas eu mesma nunca fiz com essa dedicação a ponto de fazer diferença. Sei que há a postura certa, cotovelos pressionados sobre o peito, prender a respiração, e mesmo assim é comum não dar certo.

Acho que devemos buscar o melhor foco que conseguirmos (seja com tripé, monopé, aumento do ISO, musculação), mas ao mesmo tempo aceitarmos que carregar DSLR com teleobjetiva requer força física, um campo em que geral temos desvantagens.

3 – No campo das desvantagens, também é mais comum os homens investirem em ótimos equipamentos, e a mulher não ter coragem de fazer o mesmo. Pensamos que não fotografamos tanto assim pra justificar o gasto, que a casa, ou os filhos, ou o marido estão precisando de tais e tais coisas, que não seria certo gastar tanto dinheiro consigo, que a câmera que a gente tem já faz bastante coisa. Eu entendo. Eu tenho dinheiro pra ter uma câmera top (tenho uma câmera cara, mas os equipamentos top são três vezes mais caros), mas não compro. Mesmo com seguro não me sinto confortável com a ideia de carregar algo tão caro. Não estou falando quem está certo ou errado sobre a compra do equipamento, apenas pra gente ter em mente que essa também é uma diferença comum entre homens e mulheres, e que obviamente faz diferença no resultado das fotos, principalmente as que seguem os valores masculinos da proximidade e peninhas super-definidas.

4 – Entende suas limitações, pensou na sua relação com a fotografia, descobriu uma utilidade pras suas fotos? Desenvolva-se como fotógrafa.

 

Desenvolva-se como fotógrafa

1 – Aprenda mais sobre sua câmera e sobre regulagens. Como falei, é fácil esquecer e errar, mas não é motivo pra não tentar sempre. Os momentos em que mudar a abertura fará muita diferença, compensação de claro e escuro, testes do manual, os cuidados pra não estourar o branco, principalmente se for um bicho como garça, ou qualquer bicho com um pouco de branco sob o sol.

Passei muitos anos com a crença de que eu sempre tinha que usar o menor ISO possível, e tentava fotografar sempre em 250, 320. Com isso tenho um monte de fotos perdidas por velocidade baixa demais (fora os músculos de menos). As câmeras mais modernos têm ISO bem melhor, e reconheci que o principal uso das minhas imagens é no computador, então é melhor ter uma foto mais granulada mas focada, do que com menos grãos mas tremida.

Você também pode perguntar pros colegas que regulagens eles estão usando e testar. Você pode falar disso durante o passeio, ou conversar no Facebook, Wikiaves, as pessoas falam disso com prazer.

2 – Use um programa de edição de imagens que tenha recursos de diminuição de ruído em áreas selecionadas, aguçamento da imagem, controle de cores por canal.

São poucas as fotos que não podem ser melhoradas com edição. Veja bem, não estou falando de manipulação digital. Às vezes tiro um galho pequeno, uma garrafa plástica do meio de uma foto que achei bem especial, mas em geral não faço esse tipo de alterações. Agora recorte, exposição, contraste, luz e sombras, aguçamento da imagem, remoção de ruído, rebaixar uma cor (nas minhas últimas edições tem sido comum baixar o verde, ou diminuir a saturação das cores pra foto ficar mais elegante) – esse tipo de ajuste todo mundo deveria fazer.

O programa mais famoso é o Lightroom, ele tem um free trial e a mensalidade não é cara (acho que está uns R$ 35/mês set/17). Não use Picasa ou coisas assim, tem que usar um que te dá mais recursos. Eu uso um chamado ACDSee desde que comecei a fotografar (ele custa US$ 99 — não é mensalidade — mas eles sempre fazem promoções e baixam pra uns US$ 60). Não troquei pelo Lightroom porque quando comparei uns 4 anos atrás achei parecido e já estava acostumada com o ACDSee, mas se você ainda não usa nenhum, o mais recomendável é ir pro Lightroom. Neste post você pode ver exemplos de edições simples e da minha estrutura de marcadores: http://virtude-ag.com/edicao-fotos-natureza-acdsee/

3 – Longe dos olhos, longe do coração. Conforme seu acervo aumenta, você tem que ter formas de não esquecer das suas fotos, e conseguir localizá-las rapidamente. O Lightroom e o ACDSee têm sistemas para você colocar marcadores nas fotos, e ser fácil agrupá-las. Por exemplo, criei marcadores pra ver minhas melhores fotos por bioma, por cores, por situações como banho, chuva, brigas, alimento, voo, contraluz, céu infinito. Ver suas fotos em conjunto traz outra percepção da sua coleção.

4 – Inspire-se. Analise as fotos dos profissionais ou de amadores que você admira. Em qualquer campo, aprendemos mais rápido se temos com o que comparar ou nos inspirar.  Este post é de abril de 2017, eu ainda não tinha esse entendimento do masculino e feminino, mas tem várias reflexões e referências de fotógrafos profissionais pra gente se inspirar. Meus favoritos como o Stefano Unterthiner e o Vincent Munier têm fotos com mais poesia, mais doçura, mais contraluz e mais atmosfera, vale a pena ver: http://virtude-ag.com/o-que-e-uma-boa-fotografia-de-natureza/

5 – Cultive seu olhar fotográfico. Não adianta ter um equipamento de R$ 40.000 se você não sabe pra onde apontar a câmera. O olhar fotográfico é o principal atributo do fotógrafo, não importa o equipamento. O Cris (meu marido) fez um workshop da Magnum em 2016 e o professor dele falou isso. O fotógrafo não pode pensar que depende da câmera, ele tem que se virar com o que tem, mesmo que seja um celular. É claro que isso faz bastante sentido no fotojornalismo, mas na fotografia de natureza, se você não está focado só em aves, também é possível conseguir várias fotos boas com câmeras simples, ou mesmo com o celular. Essas imagens têm menos qualidade de impressão do que uma DSLR, mas a maioria das fotos só é vista no computador ou no celular.

6 – Ser multitarefa e reparar no contexto são atributos femininos. Vale a pena a gente cultivar esse olhar que busca a beleza em situações diversas, não só nas aves e na natureza, mas até mesmo em cenários urbanos, pessoas, restaurantes, a pousada. Uma visão que se aproxima do fotojornalismo e enriquece nosso acervo.

7 – Fotografar cansa, e tentar se manter alerta e fotografar todas as belezas do passeio é bem cansativo. Mesmo com essa consciência recente, às vezes abro mão pra só ficar olhando o cenário. A fotografia macro é especialmente cansativa, às vezes exige umas posições que você fica pensando “devia estar na ioga”, e depois tem todo o trabalho de edição das imagens e divulgação. Mas é um desafio pessoal, uma aposta comigo mesma. Quero me desenvolver como fotógrafa e é um orgulho pensar que posso conseguir fotos bonitas de qualquer lugar, que o meu olhar fotográfico vai encontrar a luz, o detalhe, os insetos, aranhas e florzinhas que ninguém vê, um enquadramento bom de um cenário que de outra forma seria sem graça. Acho que a atenção aos detalhes é um atributo feminino e uma vantagem pra fotógrafas.

 

A questão do meio em que a foto é vista

Vejo muitas pessoas pensando e analisando fotografias como se elas fossem objetos para livros, exposições, revistas, jornais. Esses são ótimos fins para uma foto e ter um livro publicado e elogiado é sem dúvida uma coroação. Mas as fotos que vão para o papel, para grande circulação, são uma fração ínfima das fotos produzidas. A grande maioria das imagens é vista apenas no computador, na verdade, cada vez mais apenas no celular. Num espaço de poucos centímetros, ao lado de muitas outras imagens, com uma fração de segundos para captar a atenção do público antes dele deslizar o dedo para rolar a página. Cada foto disputa atenção não só com outras fotos, mas com inúmeros outros concorrentes: memes, vídeos, portais, WhatsApp, Facebook, Twitter, Pinterest, Tumblr, Instagram.

O predomínio do meio digital é uma vantagem pra quem não tem equipamento top. Se o principal meio fosse o papel, o equipamento top se destacaria. Mas em poucos centímetros no celular, ou um pouco maior no computador, as diferenças diminuem.

Pensar na forma como a foto será vista tem influenciado inclusive a edição das minhas imagens. Quase todas as minhas fotos têm um recorte em que o tema está numa lateral da foto. Há pouco tempo comecei a recortar com o tema no centro, pensando em galerias com fotos quadradas vistas em celular, imaginando as fotos mais como um painel do que cada foto algo único. Essas eu poderia deixar para a abertura dos posts, no slideshow (mas tenho apanhado do slideshow, acho que não vou conseguir). E também tenho feito recortes verticais pensando em Pinterest. Um dos meus projetos megalomaníacos é inundar o Pinterest com imagens da natureza brasileira, tentar alimentar uma iconografia, um projeto que eu adoraria ter parceiras.

 

Mescle o 3×4 de aves com outros tipos de fotos

O estilo dominante sempre impressiona em tamanho grande, mas também é ótimo para espaços pequenos. As fotos em outro estilo, com bastante cenário, no celular perdem muito da força ou ficam até incompreensíveis.

Não sou contra o estilo dominante, ele tem muitos méritos. O que eu reclamo é de vivermos a situação em que ele se tornou único, e vejo as pessoas falando dele como se fosse o ápice da Fotografia de natureza. Isso é uma tapadice, um embotamento.

Aposto sempre nos álbuns. Um conjunto de fotos que tenha um mix de paisagens, insetos, flores, animais em recortes 3×4 e animais com mais cenário em volta.

Há ambientes em que não é possível fazer álbuns, como o Instagram, mas no Instagram há mais pessoas com olhar fotográfico, não fissuradas no estilo dominante. Obviamente se os seus seguidores forem do birdwatching, o mais provável é que eles curtam menos suas fotos que não seguem o estilo tradicional, mas como falei, é preciso não se guiar pela taxa de retorno, pelo menos por um bom tempo.

No Pinterest é possível fazer álbuns. É um trabalho infernal, fazer aquelas tiras compridas com uma sequência de fotos, mas vou experimentar alguns.

Esta página é apenas o início da nossa conversa. Espero que outras mulheres, ou homens que estejam buscando uma outra visão da fotografia de natureza no Brasil, se animem a compartilhar fotos e pensamentos. Meu post sobre  polêmica da Nikon era comprido, e mesmo assim muita gente leu, curtiu e compartilhou. Quem sabe a gente aproveita esse momento para avançar na busca de uma identidade feminina.

 

Posts que podem ajudar na busca da identidade feminina

 

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