As aves são a minha paixão. Mas sou incapaz de imaginar alguém imune ao fascínio pelos felinos, grandes e pequenos. Não estou falando só dos leões preguiçosos deitados no meio da estrada, indiferentes aos carros e turistas. Mas dos arredios leopardos, os elegantíssimos guepardos, os indecifráveis gatos selvagens. Neste post, nossos encontros com os felinos nas 5 viagens para a África do Sul.

Jovem Hamlet no entardecer do Kgalagadi – 2011. Uma viagem incrível em que vimos uns 12 guepardos.

 

  • Texto: Claudia Komesu
  • Fotos: Claudia Komesu e Cristian Andrei
  • Viagens para a África do Sul em 2006, 2007, 2008, 2010 e 2011. Kruger todos os anos, Kgalagadi em 2006 e 2011, Etosha em 2006.

Totalmente apaixonados pela África do Sul. Quando o Cris se aposentar, no mínimo vamos passar muitos meses lá. Fomos em 2006, 2007, 2008, 2010 e 2011. E provavelmente voltaremos em 2013.

A África do Sul são nossas férias favoritas. Desde que conhecemos o país em 2006, não passa um ano em que ou a gente viaja pra lá, ou se arrepende de não ter ido, ou fica sonhando em pegar só uma semaninha em Punda Maria. Um destino que reúne voo direto (8h pra Johannesburgo), infraestrutura turística, tranquilidade, simplicidade e privacidade no esquema em que vamos: carro próprio, nosso roteiro, nossos horários, só a gente. Nós cozinhamos, geralmente um churrasco que é simplesmente parte do passeio: chegar nos campos um pouco antes do portão fechar, acender o brai, colocar os cartões pra descarregar, temperar a carne, colocar os vegetais pra assar, ir tomar banho, voltar pra varanda, abrir uma cerveja bem gelada, olhar as fotos no notebook enquanto o dia escurece. O brilho do fogo, muito silêncio ou às vezes algumas aves ou até rugidos de leões. A parte chata é lavar a louça, mas um preço pequeno pra tanta perfeição.

E falei que é barato? Nesse esquema de classe média da África do Sul, uma viagem de 12 dias 10 noites sai por uns US$ 6 mil o casal, com tudo incluso (passagem, hospedagem, entrada do parque, carro, alimentação, gasolina). Veja informações detalhadas: http://virtude-ag.com/fav-africa-do-sul-cko/

Há muito o que ver, tanta coisa que é preciso dividir posts em temas. Este é só sobre os felinos.

 

 

2006 – Grand Tour. 27 noites na África do Sul e Namíbia.


2006 foi o grand tour: primeiro me negava a querer ir pra África, porque na minha grande ignorância achava que a África do Sul é como as imagens do Congo: escura, úmida, perigosa, com guerrilheiros-assassinos-estupradores. Começamos a ler, pesquisar, comprar livros. O guia da Lonely Planet de onde ver vida selvagem na África mudou minha visão. Estudamos bastante e fizemos um roteiro que começou no Kgalagadi (com uma noite técnica em Augrabies, mas não vale a pena. Melhor dormir em Upington e partir no dia seguinte para o parque, agora são apenas 2h de asfalto. Em 2006 eram 4h de cascalho), depois fomos pro Etosha, a joia na coroa da Namibia, Cidade do Cabo e finalmente Kruger.

Tentamos ir com agência, mas a que se dizia especializada em África, a Atlantic Conection, se recusava a querer fazer um roteiro centrado em parques. O consultor foi capaz de nos dizer “mais do que 3 dias dentro de um parque é desnecessário”. Depois de muita discussão fechamos um roteiro, mas fizemos umas contas por cima, e eles estavam ganhando mais de US$ 3.000. Pedimos desconto, se recusaram, falamos adeus, e decidimos montar a viagem por conta própria. Nós fizemos as reservas nos parques, as reservas dos carros, traçamos os roteiros, e deu tudo muito certo.

No fim da viagem o Cris teve que voltar antes porque surgiu uma reunião de trabalho no Canadá, mas me senti tão à vontade no país que fiquei sozinha no Kruger por 3 dias. Também fui capaz de esquecer no avião o hd externo com todas as nossas fotos (era um HD com visualização da imagem, um Wolverine, eu peguei pra ver e esqueci enrolado no cobertor, mas não sabia que era lá que tinha perdido). Quase morri. Se eu fosse o Cris teria me matado. Depois de 3 dias, finalmente encontramos um funcionário da cia aérea que sabia do que estávamos falando, e devolveu. Nem quis a recompensa que a gente tinha oferecido pra quem achasse o bichinho.

Nas fotos acima: os leõezinhos que vieram brincar ao lado do nosso carro, no Kgalagadi; African Wildcat e seu olhar hipnotizante na nossa despedida do Kgalagadi; o primeiro leopardo – Etosha; leão tentando afugentar os chacais que queriam um pedaço da zebra morta na noite anterior – despedida do Etosha.

 

2007 – Leopardo Trip. 20 dias só no Kruger.


O Kruger é o parque mais famoso da África do Sul. Estreito, mas com mais de 400 km de extensão. A algumas horas de carro de Johannesburgo, ou a 15-20 minutos de algum dos aeroportos locais. Já descemos em Hoedspruit, Neslpruit, e Phalaborwa. Gostamos muito do Etosha, Kgalagadi, mas estávamos animados com a ideia de muitos dias num parque só, sem precisar pegar voo, estrada.

Tivemos a estranha experiência de passar 20 dias no parque sem ver um leão. Os leões são abundantes, exibidos, folgados até. Mas não vimos nenhum. Em compensação, avistamos uma família de guepardos logo no primeiro dia, arredores de Satara, mas longe, longe… e três encontros com leopardos. Todos exclusivos, ou melhor, começaram exclusivos, aproveitamos, e depois chegaram outros carros. Num dos encontros, o idiota da van buzinou, porque o leopardo estava virado para trás. Claro que o leopardo foi embora. Só não xingamos mais porque já tínhamos curtido quase 1h de contemplação daquele bicho maravilhoso, deitado sobre um tronco, às vezes nos olhava, se espreguiçava, bocejava. A foto de paisagem tem o leopardo no centro, é mais ou menos a visão do leopardo a olho nu. Uma emoção sem tamanho andar pelas estradas devagar, ver sem enxergar essa manchinha amarela, mas fazer um clique na cabeça “pequena ré, acho que vi alguma coisa lá atrás”.

O rabonildo da última foto é um genet, pidão típico das áreas com churrasqueiras dos campos.

 

2008 – início da migração. 9 dias.


Em 2008 fizemos uma viagem mais curta, só 11 noites, 9 dias. Tivemos apenas um avistamento de felinos: um bando de leões se alimentando de um búfalo. Infelizmente esse não foi a gente que achou. Viramos uma esquina e havia vários jeeps parados, com os turistas com cara de tédio olhando os leões. Um bando grande (de leões, não de turistas), espalhado na beirada da estrada, e no meio do asfalto, do lado das rodas dos jeeps. Logo os jeeps foram embora, a gente passou um bom tempo olhando. Mesmo depois que fomos embora, não conseguia tirar a imagem do búfalo da cabeça. Ele era velho? Estava sozinho? Estava doente? Era jovem e lutou com bravura? Era apenas o dia dele.

Começamos a focar a viagem em aves. Passamos vários dias em Punda Maria, vimos 71 espécies de aves em 9 dias. E considere que tudo isso é de dentro do carro, sem guia, sem playback. Você não pode sair do carro a não ser em áreas delimitadas. Imagine os mil motivos para essa regra.

Tínhamos comprado um livro muito bom “Best Birding in Kruger”, que reúne a experiência de birders apaixonados pelo parque, com décadas de visitas frequentes. E começamos a concordar com frases do tipo “O Kruger é uma área prime para observação de aves, com alguns quadrúpedes desengonçados que podem servir de entretenimento quando o birding está menos do que excelente”.

 

2010. 13 dias, foco total nas aves, 122 espécies


201o foi uma viagem passarinheira. Bastante tempo em Punda Maria, o melhor campo para ver aves. 15 noites, 13 dias, avistamos 122 espécies naquele esquema de sem guia, sem playback, sem poder sair do carro. Experimentamos uma noite de turistas ricos, no Pafuri Kamp (caro, mas ainda assim um dos mais baratos da categoria). Maravilhosos baobás, floresta de fever threes, a African Crowned-eagle de longe, mas ela mesma. Nosso guia era muito simpático, e dividimos o jeep só com outro casal birder. Mas olhando as fotos, e fazendo o balanço de tudo, ainda preferimos nosso esquema.

Apesar do foco estar nas aves, tivemos o prazer de ter nosso primeiro bom avistamento de guepardo, um adulto muito estranho que andou exibido pra lá e pra cá, na frente de todos os carros. Um dos jeeps tinha italianos, e a gente nunca esquece do “éhh o guepaaaarrduu”.

Em Punda Maria, um fim do dia, cruzamos com um carro, acenamos como costumamos fazer, o carro fez sinal para a gente parar. Era uns 3 homens negros, sorridentes, simpáticos, perguntaram se a gente já tinha feito a trilha … esqueci o nome, uma das trilhas ao redor do campo. Falamos que não, eles disseram que valia a pena. Como sou o tipo de gente que acredita em sinais e mensagens, no dia seguinte fomos fazer essa trilha, e tive a imensa alegria de ver meu primeiro filhote de leopardo, algo que eu tinha mentalizado a viagem toda. Viramos uma curva, um animal tinha acabado de cruzar a estrada, vimos de relance, podia ser um felino mas não tínhamos certeza. De repente passa o filhote. Quando chegamos no ponto em que cruzaram a estrada, eles já tinham entrado numa trilha, mas o filhote ainda virou para trás, para nos olhar, para me dar de presente esse olhar de filhote lindo e curioso.

 

2011 – Guepardo trip. Alguns dias com a família no Kruger, e depois 11 noites no Kgalagadi.


Não sei dizer há quanto tempo o Kgalagadi virou a festa do caqui para ver guepardos. Em 2006 não era, não vimos nenhum. Não sei se fomos muito sortudos. Vimos 12 em 2011. Um dos avistamentos parecia ser a mesma família, mas nos outros casos tínhamos certeza de que eram outros grupos porque os filhotes tinham tamanhos diferentes. Vou pegar os textos que tinha escrito para o photorats:

“Contigo aprendi a perder e achar graça
Pagar e não dar importância
Contigo a trapaça por trás da trapaça
É pura elegância” (Chico Buarque)

Homenagem a esses felinos trapaceiros, assassinos de springboks grávidas, de filhotes, de velhos, e dos doentes. No excelente livro do Hannes Lochner (que não tem um site à altura do livro), uma foto de dois guepardos despedaçando um feto de springbok, o terceiro guepardo deitado no chão, a cabeça enfiada na barriga da mãe morta. É claro que eu sabia que é isso que eles fazem: matam animais, e tentam pegar primeiro os mais frágeis. Mas ver a foto é diferente.

Ainda assim, o que dizer da visão de uma família de cinco guepardos? A mãe com o colar de rastreamento, dois jovens do mesmo tamanho, dois outros menores, um deles ainda brincalhão o suficiente pra andar saltitando e correndo atrás de aves.

O momento mais emocionante da viagem. O Cris viu as orelhinhas no meio do capim, demos ré, e passamos pela emoção de ver as outras orelhinhas surgindo e caminhando em nossa direção. Cruzaram a estrada na nossa frente, ainda tenho dentro da boca a sensação de pasmada, pensar por que fazia tanta diferença ver de perto ou de longe, um ou cinco, de sermos quem achou em vez de apenas parar ao lado dos outros carros. Acho que era tudo isso, mais a comoção daquela foto do springbok não nascido e destroçado.

Um, dois, três, quatro, cinco. Naquela luz da manhã, perto do nosso campo favorito, Urikaruus. O jeito manso de caminhar como quem passeia no Leblon, a ponta do rabo curvada como um gancho.

“Vocês são uma gangue de assassinos sem piedade. Mas são tão bonitos, tão bonitos, que eu nem sei o que fazer com tanta lindeza. Simplesmente não cabe nos meus olhos. Transborda”.

A foto do grupo de 5 cruzando a estrada é do Cris. Eu não tinha ângulo, e mesmo que tivesse, provavelmente só conseguiria ficar panacamente olhando.  Também tivemos o prazer de ver a mãe arrastando um springbok recém-caçado para perto dos filhotes. Por volta das 15h30, isso no não é horário de caçada. Era um ângulo difícil para observar, parecia que os guepardos estavam apenas descansando, movemos o carro quando a mãe se levantou, e por uma janela entre as moitas vimos a cena, igual a milhares de fotos e filmes, mas ao vivo saiu um “Meu Deus!” da minha boca.

Sabem por que o colar de rastreamento? Eles precisam estudar as famílias. Há uma hipótese de que os guepardos correm risco de extinção, por falta de variedade genética. Vários indivíduos que nasceram deformados. Foram tão caçados, mas tão caçados, principalmente pelos fazendeiros de gado que não entendiam que o erro era deles de colocar os bois tão perto das áreas naturais dos bichos, que quase extinguiram os guepardos. Os guepardos. Essa máquina elegante assassina, capaz de ir de 0 a 100 km em 3 segundos.

Além dos guepardos, vimos uma leoa descansando no meio da estrada, perto de Nossob.

E esta é só a parte dos felinos. Acho que o próximo post pode ser sobre as aves de rapina, que também é outro tema de encher o coração.