Por que vale a pena: Sacramento está situada numa área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado. A coexistência desses dois biomas garante uma grande ocorrência de aves. A lista oficial da cidade já conta 403 espécies, só no Wikiaves são mais de 300 espécies publicadas, algumas raras e emblemáticas como o pato-mergulhão (Mergus ocoscetaceos), galito (Alectrurus tricolor), fura-barreira (Hylocryptus rectirostris) e águia-cinzenta (Urubitinga coronata).

Texto e fotos: Alessandro Abdala

Alessandro Abdala mora em Sacramento MG e conhece bem o comportamento e a biologia das espécies que habitam o entorno e interior do Parque Nacional da Serra da Canastra, onde atua como fotógrafo de natureza e guia em viagens exclusivas para observadores e fotógrafos de aves.

Informações enviadas em março de 2012.

Quadro resumo: Região de Sacramento – MG

  • Destaques: águia-cinzenta, codorna-mineira, fura-barreira, águia-chilena, galito.
  • Nível de dificuldade: fácil/médio. A cidade tem boa estrutura, pontos relativamente próximos e de fácil acesso. Para visitas no Parque Nacional, dependendo da época do ano, é necessário veículo 4×4.
  • Infraestrutura do local: boa. Boas estradas, fácil de chegar (tanto de carro, como de ônibus), há boas opções de hotéis e restaurantes. Sacramento é uma cidade turística e há boas opções para quem quer fazer uma viagem não focada apenas em aves mas também em história/cultura/lazer.
  • Oportunidades fotográficas: boas e às vezes muito boas. Como o município tem muitas espécies, sempre é possivel encontrar algo interessante. Espécies como o fura-barreira, bico-reto-azul e limpa-folha-do-brejo podem ser vistos no entorno da cidade. Já no Parque Nacional o galito, águia-cinzenta, bandoleta e ema oferecem oportunidades fotográficas sob uma luz especial.
  • Quando ir: aves o ano todo, mas agosto a dezembro é um período mais ativo para as aves.
  • Como chegar: de São Paulo a Sacramento pela Via Anhanguera são cerca de 500 km. Seis horas de viagem de Carro. De Belo Horizonte pela BR 262 são 450 km. A viação Continental oferece ônibus diários São Paulo-Sacramento.
  • Guia ornitológico: Alessandro Abdala, guia ornitológico especializado na região. www.alessandroabdala.com
  • Agência: Sacramento possui uma agência de Turismo – www.maricataturismo.com.br – que oferece pacotes exclusivos para birdwatchers. Eles cuidam de tudo: transporte, hospedagem, alimentação e guia especializado
Sacramento é uma cidade mineira localizada no antigo Sertão da Farinha Podre, atualmente conhecido como Triângulo Mineiro, uma mesopotâmia banhada pelos ribeirões Borá e Rifaina. O município fica numa região de transição entre os biomas cerrado e mata mata atlântica e constitui-se em um grande repositório de espécies belas e raras da fauna e flora brasileiras.
Na cidade de quase duzentos anos, e que ainda preserva resquícios de sua antiga arquitetura, com ruas de paralelepípedos, palmeiras nos canteiros que dividem as vias, casarões coloniais e população acolhedora, é fácil observar inúmeras espécies mesmo no perímetro urbano.

Em terras sacramentanas encontramos desde o pequeno e delicado beija-flor bico-reto-azul (Heliomaster fucifer) nas florestas úmidas ao longo das margens do Ribeirão Borá, à majestosa e imponente Ema (Rhea americana) -maior ave da América do Sul, e uma das maiores do mundo – correndo livre pelos campos abertos das áreas de cerrado que ainda persistem no município. Ou ainda, a imponente águia-cizenta (Urubitinga coronata) cruzando os céus do município com seu vôo majestoso e onipotente. É comum observar no entorno da cidade espécies como o encantador Soldadinho (Antilophia galeata) que aparece riscando as sombras das matas-de-galeria com seu ‘cabelo’ de fogo; o fura-barreira (Hylocryptus rectirostris) raro endemismo do cerrado brasileiro; o ameaçado galito (Alectrurus tricolor); o andarilho (Geositta poeciloptera) que misteriosamente aparece nas áreas recém queimadas nos meses de agosto e setembro, o cativante campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens) comum nas bordas de cerrado remanescentes no entorno da cidade; e talvez, a espécie mais conhecida por sua raridade, o pato-mergulhão (Mergus octoscetaceos), encontrado nas águas límpidas dos ribeirões encachoeirados da região do Caxambu. Além destes, um sem número de saís, saíras, sanhaços, tucanos, beija-flores de plumagem colorida e exuberante beleza estética.

Sacramento é, ainda, porta de entrada para o Parque Nacional da Serra da Canastra, abrigando em suas terras a parte mais desconhecida do parque, mas talvez a mais interessantes para aves, já que conta com vastas áreas de cerradão, diferentemente dos campos limpos que caracterizam o restante do parque.

Criado em 1972, o Parque Nacional da Serra da Canastra tem uma área de 197.797 ha e na divisa entre três importantes regiões do estado de Minas Gerais: Alto Paranaíba, Centro-Oeste de Minas e Sul de Minas. Abrange os municípios de Capitólio, Delfinópolis, Sacramento, São João Batista do Glória, São Roque de Minas e Vargem Bonita. O relevo acidentado e a vegetação rasteira produzem uma paisagem única, com grandes vistas panorâmicas e muitas cachoeiras que favorecem também a observação de animais silvestres, como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará, o veado-campeiro e o pato-mergulhão.

O grande objetivo da criação do Parque foi a proteção das nascentes do Rio São Francisco, o curso d’água mais conhecido que brota no chapadão em forma de baú ou canastra. A Serra da Canastra é uma espécie de berçário de rios situado bem no divisor de duas bacias hidrográficas: a do rio Paraná e a do rio São Francisco.

Neste vasto território ainda é possível encontrar pessoas especiais, comidas e sabores inigualáveis, estórias fantásticas carregadas de mitos e originalidade.

Assim é a Serra da Canastra, cultura, folclore, arte e natureza convivem em um espaço onde o tempo parece passar mais devagar. A sensação de cruzar o chapadão da Azagaia e contemplar a imensidão dos campos rupestres nos remete a uma era primitiva, quando a interferência do homem ainda era mínima e a vida selvagem reinava livre e soberana. Este santuário ainda é um dos poucos redutos no país que guarda tesouros raríssimos como o mundialmente ameaçado Pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) uma ave extremamente sensível às alterações ambientais e que encontra nas águas encachoeiradas do São Francisco as condições necessárias para a perpetuação de sua espécie, hoje, estimada em torno de 200 indivíduos em todo o mundo.

Com um pouco de sorte, podemos vislumbrar ainda espécies como o imponente mocho-dos-banhados (Asio flameus) um tipo de coruja de porte grande e imponente, com pouquíssimas ocorrências registradas em território brasileiro e que ocorre nas planícies descampadas dos chapadões, na parte alta da Serra da Canastra, onde caça presas como pequenos roedores e répteis.

A possibilidade de encontrar espécies de aves raras como o galito (Alectrurus tricolor), a bandoleta (Cypsnagra hirundinacea), de avistar animais como o Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) e o Tamanduá-bandeira (Mymercophaga tridáctila) aliadas a cultura preservada pela gente autêntica que vive nas encostas da serra, fazem do Parque Nacional da Serra da Canastra um genuíno santuário natural e cultural brasileiro.

O Parque Nacional da Serra da Canastra seria a última cidadela do Brasil central a preservar criaturas maravilhosas em comunhão com o ambiente preservado e protegido. Promessa de esperança no futuro e na eterna luta do homem para preservar a sua cultura, a fauna, flora e as tradições imateriais que permitem a existência de seres fantásticos que habitam os vales e as montanhas encantadas da serra da canastra.

As melhores épocas compreendem os meses de agosto a dezembro, quando é possível ver o maior número de espécies e com maior facilidade. Entretanto, como se trata de uma região com grande número de espécies, durante o  restante do ano sempre é possível sermos surpreendidos por  agradáveis surpresas.