O fato de estar na Amazônia, por si só, já faz brilhar os olhos de qualquer pessoa que aprecie a natureza. Para os observadores de aves então, é uma oportunidade única de ver espécies que, muitas vezes, só vemos em livros e agora, no Wikiaves. Porém, alguns fatores devem ser levados em consideração, como por exemplo, que o calor e a umidade elevada muitas vezes são empecilhos que realmente preocupam alguns ou ainda, que é difícil encontra sozinho, bons locais para observar ou fotografar aves e no caso de fotografar, outros agravantes são adicionados.

Formigueirio-ferrugem (Myrmeciza ferruginea) Ferruginous-backed Antbird

 

 

A Amazônia é exuberante, porém cruel em muitas situações para fotógrafos. Uma das principais dificuldades é o dossel amazônico e por consequência, as aves que lá vivem, como os cotingídeos e thraupídeos e, ainda, a própria umidade que embaça lentes, cansa e faz suar. Outros fatores interessantes são a dinâmica dos rios e a chuva. Essa última, sem dúvida, deve ser analisada com cuidado antes de marcar uma viagem pra cá.

A cidade de Manaus e seus arredores oferecem diversos ambientes e uma infinidade de espécies prá lá de interessantes a quem visita. Começando pela sua localização, às margens do Rio Negro, e muito próxima do Rio Solimões, a variedade de espécies encontrada, a cada vez que se atravessa esses dois rios, é enorme e complexa.

Para quem não é ligado a essas coisas, a biogeografia da Amazônia é um fato único no mundo, onde os grandes rios fazem o papel de barreiras para muitas espécies, como por exemplo, ao norte do Rio Amazonas, temos Pipra eryhthrocephala (cabeça-de-ouro) e, ao sul, Pipra rubrocapilla (cabeça-encarnada), ou seja, espécies que, muito provavelmente, foram uma só, e com o surgimento do rio, após milhares de anos, tornaram-se duas espécies distintas.

Sobre os ambientes, o principal encontrado em Manaus é a floresta de terra-firme, ou melhor dizendo, a floresta amazônica “clássica”. Como exemplo de locais conhecidos, temos a Reserva da ZF-2, onde o INPA é o gestor, e onde existe uma torre de 45m de altura, a Reserva Ducke, também do INPA, as matas de Presidente Figueiredo, lar do galo-da-serra (Rupicola rupicola), além de outros.

Em todas as reservas do INPA, é necessário autorização para acesso. A Reserva da ZF-2, fica a 45km de Manaus, na BR-174, e mais 15km de estrada de terra, onde, de dezembro a julho, o acesso é feito somente por veículo 4×4 e a Reserva Ducke, bem mais próxima da cidade, apenas 15km. Nessa reserva, é possível observar uma pequena mostra da Amazônia, de 10 mil hectares de floresta virgem.

As florestas de terra-firme abrigam uma variedade enorme de espécies de aves, que ocupam todos os estratos, numa teia inacreditável de diversidade. No solo, um dos fenômenos mais interessantes que ocorre, é o das aves seguidoras de formigas de correição, onde um bando misto de aves acompanha as formigas, se aproveitando dos insetos afugentados pelas mesmas. Alguns exemplos de aves com esse comportamento são: diversos thamnophilídeos, como Pithys albifrons (papa-formiga-de-topete) e Myrmotherula´s; dendrocolaptídeos como Dendrocincla fuliginosa (arapaçu-pardo) e Xiphorhynchus pardalotus (arapaçu-assobiador) além de outras famílias.

À medida que o estrato fica mais alto, a avifauna se diversifica e com ela, a dificuldade de se registrar as espécies fica cada vez maior. Um dos locais mais interessantes para fotografia de aves é a torre da ZF-2, onde é possível estar ao mesmo nível de muitas aves que só vemos de binóculos, muito de longe. Da torre, é possível registrar bem, muitos bichos de dossel, como Cotinga cayana (anambé-azul), Xipholena punicea (anambém-pompadora), Notharchus macrorhynchos (macuru-de-pescoço-branco), Galbula dea (ariramba-do-paraíso), Tangara chilensis (sete-cores-da-amazônia), Spizaetus ornatus (gavião-de-penacho), Todirostrum pictum (ferreirinho-pintado) além de uma das visões mais lindas da floresta, ao entardecer, que é quando os psitacídeos se agrupam e passam para os dormitórios.

Nas florestas, existe um tipo de vegetação muito singular, conhecido como campina amazônica, muito semelhante ao Cerrado, e com nítida diferença no solo, que é composto, basicamente, por areia. Nesses locais, é forte o número de endemismo, uma vez que é bastante diferente da terra-firme. Próximo a Manaus, podemos encontrar alguns locais assim e muitas aves restritas a esses locais, como Galbula leucogastra (ariramba-bronzeada), Hemitriccus inornatus (maria-da-campina), Neopelma chrysocephalum (fruxu-do-carrasco) e Xenopipo atronitens (pretinho).

Além da floresta, outros dois ambientes são próximos a Manaus e bastante ricos em aves, o igapó, que é floresta alagada por água “preta” (Rio Negro) e as várzea, que é floresta alagada por água “branca” (Rio Solimões). A diversidade muda significativamente quando se compara esses dois ambientes. Já é de conhecimento, que as águas “brancas” são muito mais ricas em nutriente, o que favorece a manutenção de uma flora e fauna muito mais rica, se comparada com o que é banhado por água “preta”, que é ácida e mais pobre em nutrientes.

Porém, ao mesmo tempo em que podemos ter menos espécies nos igapós, algumas espécies somente não encontradas nesse ambiente, como a exuberante Pipra filicauda (rabo-de-arame). Então, vale muito a pena conhecer esse local, atravessando o Rio Negro e passeando, por exemplo, no igapó do Rio Ariaú, a 35km de Manaus.

Um local bastante legal na várzea é a Ilha da Marchantaria, a 40 minutos de barco, subindo o Rio Solimões. É notável a diferença na composição das aves desse local, onde podemos ver Certhiaxis mustelinus (joão-da-canarana), Knipolegus orenocensis (maria-preta-ribeirinha), Cranioleuca vulpecula (arredio-do-peito-branco), entre outros.

Resumindo, em aproximadamente 10 dias em Manaus, uma infinidade de aves pode ser observada/fotografada, mas são muitas para ficar exemplificando aqui. Basta observas as páginas de espécies dos amigos que moram em Manaus ou os que moram em outros lugares e vieram se divertir por aqui. Qualquer dúvida, é só escrever.

 

 

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