Durante os meses de setembro e dezembro de 2012 tive o privilégio de trabalhar como guia para observação de aves em um dos principais destinos no Brasil para birdwatchers que vêm ao país, o Cristalino Jungle Lodge em Alta Floresta – MT, com certeza o meu preferido.

Na floresta de igapó, brilha o Coroa-de-fogo (Heterocercus linteatus)

Na floresta de igapó, brilha o Coroa-de-fogo (Heterocercus linteatus)

 

Havia estado por lá como voluntário em 2007, quando ainda era estudante de biologia, e onde tive meus primeiros contatos com essa atividade/arte de se dedicar à observação das aves na natureza, apesar de já procurá-las com o binóculo por toda a parte antes disso. Desde então me dediquei, estudei e me preparei enquanto cursava a faculdade, já alimentando o desejo de um dia retornar para aproveitar melhor a oportunidade, e para observar a infinidade de aves que voam por lá, mas que não havia conseguido observar na minha primeira visita, ainda pouco experiente no assunto.

Digo isso, porque para os visitantes de primeira viagem, desacompanhados de um bom guia, o interior da floresta pode parecer até pouco habitado. A maioria das aves não se mostra com facilidade e deve-se ter paciência e conhecimento para encontrá-las. Muitas aves possuem hábitos e costumes específicos, muitas vocalizam com pouca frequência durante o dia e apesar de toda a diversidade que sabemos existir, às vezes uma caminhada na mata pode reservar poucas oportunidades de observação em meio à imensidão verde da floresta, se não souber como e onde procurar.

Durante o tempo que estive por lá, tive oportunidade de aprender imensamente com os guias de campo, que muito sabem sobre a floresta e onde localizar seus mais ilustres habitantes, além de serem exímios em descobrir a presença de algum animal por perto antes de todos. É necessário lançar mão dos 6 sentidos para observar a fauna na amazônia. Para tanto, sou grato a Sebastião, Francisco e Jorge que muito me ensinaram. Pude também guiar observadores de aves de diversas partes do mundo, uns mais outros menos empolgados, uns apenas com binóculos e outros com enormes equipamentos, mas todos compartilhando o amor e o respeito à floresta tropical e às milhões de formas de vidas que coabitam aquele lugar.


 

Sobre a estrutura do Cristalino Jungle Lodge

Com cerca de 20 anos de atividade, atendendo interessados na natureza e nas aves da Amazônia brasileira, e uma estrutura adequada para receber turistas e pesquisadores, o Cristalino Jungle Lodge pode ser uma excelente opção para quem deseja conhecer a floresta amazônica pela primeira vez, ou mesmo para quem deseja procurar ou fotografar especificamente alguma espécie de ave, das tantas que o local abriga.

Com seus 184.000 hectares localizados no extremo norte do estado do Mato Grosso, o Parque Estadual do Cristalino protege as florestas e ecossistemas adjacentes ao Rio Cristalino, cujas águas negras vêm do alto da Serra do Cachimbo, para desaguar no Teles Pires, que mais adiante se encontra com o Juruena para formar o gigante Tapajós. Pela localização, dizemos que a região se encontra no interflúvio Tapajós-Xingu, ou seja, encontra-se entre esses dois grandes rios, que atuam como barreiras geográficas para espécies estritamente florestais, como é o caso de alguns gêneros encontrados na Amazônia. Trata-se portanto de um centro de endemismo, uma vez que algumas espécies que se encontram na área entre esses dois rios não ocorrem em nenhum outro lugar do mundo.

A Fundação Cristalino, que auxilia na administração do Parque, é administrada por Vitoria da Riva Carvalho, que também possui terras adjacentes ao Parque. Hoje em dia, essas terras formam uma RPPN com mais de 12.000 hectares, e que abriga as estruturas do Cristalino Jungle Lodge, porta de entrada para conhecer esse paraíso.


 

Como chegar

Para chegar lá, é necessário ir até Cuiabá, capital do Estado. Isso faz com que alguns grupos visitem a região do Cristalino em uma mesma viagem em que visitem o Pantanal Norte e/ou a Chapada dos Guimarães, um Parque Nacional bem próximo à Cuiabá e que possui bons fragmentos de Cerrado preservados. Com essas três localidades relativamente próximas entre si, muitos turistas estrangeiros conseguem conhecer três dos principais biomas brasileiros sem se deslocar muito pelo país de dimensões continentais.

A partir de Cuiabá, pode-se ir por terra ou pelo ar. Há um ônibus que pode ser tomado às 19h na rodoviária de Cuiabá, ou as 19h30 da rodoviária Várzea Grande (mais próximo do aeroporto) e que demoram longas 12 horas de viagem, em ônibus semi-leito com ar-condicionado e banheiro. Custa cerca de R$130.

Existe uma linha área da Trip, que faz o percurso Cuiabá-Alta Floresta em algumas poucas horas. Os horários foram alterados recentemente por conta da fusão com a Azul, então preços e horários devem ser consultados no site da empresa. O que importa é que o tempo de viagem é pequeno, comparado com a viagem de ônibus e é possível chegar a Alta Floresta pegando 2, ou até 3 vôos, no mesmo dia, dependendo da origem.


 

As aves – destaques, e as trilhas da região

Chegando à Alta Floresta você deve ser recebido pelo pessoal do Lodge para então ir ao Floresta Amazônica Hotel, ainda na cidade de Alta Floresta. Trata-se um grande hotel com ampla área de lazer, piscina, muitos quartos e um bom restaurante. Há também um fragmento de mata de cerca de 60 hectares, onde um casal de harpia vêm se reproduzindo com frequência. O casal ficou famoso recentemente através do Globo Repórter e do Programa Terra da Gente, e proporcionou uma ótima oportunidade de estudo a longo prazo da reprodução da espécie. Além de algumas trilhas, o Hotel possui um pequeno lago, onde existem boas possibilidades de avistamentos: psitacídeos tais quais a araras-cangas (Ara macao), anacã (Deroptyus accipitrinus) e a maitaca-de-cabeça-azul (Pionus menstruus), a picaparra (Heliornis fulica), arapaçus e araçaris.

Alguns visitantes optam por seguir direto para o Lodge na RPPN, outros por pernoitar ou mesmo passar um tempo para explorar o Hotel, que pode trazer algumas boas surpresas. Algumas aves são encontradas nesse hotel e não no Lodge, por possuir o limite de distribuição no rio Teles Pires, que temos de cruzar para chegar ao Lodge. É o caso por exemplo, do arapaçu-elegante (Xiphorhynchus elegans). Outros como o formigueiro-de-cauda-castanha (Myrmeciza hemimaelena) são simplesmente mais comuns por aqui do que no Lodge. Também com os macacos acontece algo semelhante. O Rio Teles Pires divide populações de macaco-aranha ( que se diferenciam pela cor dos pelos da cara) e de saguis do gênero mico da região.

Partindo do Hotel rumo ao Lodge é necessário uma viagem de carro de cerca de 1h30 até as margens do Rio Teles Pires. Um barqueiro do Cristalino Jungle Lodge estará lhe esperando nesse ponto, para uma viagem de barco de cerca de 30 minutos, que começa nas águas barrentas do Teles Pires e acabam numa curva do negro e belo Rio Cristalino onde se localiza o Cristalino Jungle Lodge. Uma comida simples e saborosa, quartos confortáveis e uma biblioteca sobre aves brasileiras e a biodiversidade completam o quadro para uma boa experiência na floresta.

Uma vez no Cristalino, o amante da natureza deve se preparar para mergulhar de cabeça na Floresta Amazônica, todas as suas maravilhas e excessos e aprender muito com a natureza. A vida está por toda a parte, se mostrando e encantando. A companhia de guias muito experientes na região, cujo serviço está incluído nas diárias, deverá tornar sua estadia ainda mais proveitosa e rica em termos de observações. Eles sabem sempre os melhores locais para se procurar os principais objetivos de cada expedição, por mais estranhos que sejam.

Para o visitante, o local possui mais de 20 km de trilhas. Muitas delas começam e terminam bem próximo ao Lodge, outras necessitam de barco para serem acessadas. Elas foram planejadas para acessar a maioria dos ecossistemas existentes na região.

A Trilha da Castanheira por exemplo, em uma área repleta de gigantescas Castanheiras centenárias, cruza uma das mais belas matas de terra firme da região, onde existem grandes chances de encontrar e se emocionar ouvindo o canto do uirapuru (Cyphorhinus arada), observar o falcão-críptico (Micrastur mintonii) descrito na última década, e o surucuá-pavão(Pharomacrhus pavoninus) entre outras preciosidades antes de provar uma castanha fresquinha.

Existem boas trilhas, como do Cacau, da Taboca, e a do Dr. Haffer que exploram os bambuzais, onde se espera encontrar aves como o chororó-de-manu (Cercomacra manu), possivelmente um novo táxon, o tímido puruchém (Synallaxis cherriei), barranqueiro-de-colete (Anabazenops dorsalis), maria-de-cauda-escura (Ramphotrigon fusciicauda) entre outras preciosidades.

Também existem bons trechos de matas de igapó nas margens do rio, onde procura-se pelo coroa-de-fogo (Heterocercus linteatus), o cabeça-branca (Dixiphia pipra) e o arapaçu-de-bico-longo (Nasica longirostris).

Outras interessantes formações, são afloramentos rochosos que formam uma serra nas duas margens do Rio Cristalino. Essas serras mais parecem jardins no alto de pequenas montanhas, que exigem esforço para serem escaladas, mas nos retribuem com uma bela vista panorâmica da região e uma incrível diversidade de saís e saíras, periquitos e buconídeos, aves da família do joão-bobo que muito apreciam esses habitats. Dos mirantes com frequência se observam aves de rapina em voo, assim como pica-paus e araçaris trabalhando em busca de alimento em galhos expostos. Diversas plantas em flor chamam a atenção de distintos beija-flores enquanto se caminha por um ambiente totalmente diverso da floresta úmida de terra firme. O habitat também é ideal para procurar por sapos venenosos da família dos dendrobatídeos. Entre eles, uma belíssima nova espécie em tons amarelos e pretos ainda não descrita para a ciência.

Outras aves muito interessantes e muito procuradas por birdwatchers que podem ser encontradas nas matas região incluem o uirapuru-de-chapéu-branco (Lepidothrix nattereri), a tovaquinha (Dichrozona cincta), uma nova espécie de pinto-do-mato (Hylopezus sp.) em fase de descrição, que deve ser separado do torom-pintado (Hylopezus macularis),a mãe-da-lua parda (Nyctibius aethereus), a mãe-da-taoca-de-cara-branca (Rhegmathorhina gymnops).

Também são feitos passeios de barco com frequência, que são ótimos para relaxar descendo em silêncio o rio ao sabor da correnteza, mas também uma grande oportunidade para observação da fauna da região. Na época da seca, costumam se encontrar mais facilmente os mamíferos que vêm as margens dos rios atrás de água. Também são boas as chances de observação de aves aquáticas com a garça-real (Pilherodius pileatus) e o martim-pescador-da-mata (Chloroceryle inda), assim como outras aves que apreciam as margens dos rios como araçaris, e o anambé-preto (Cephalopterus ornatus). Do barco, são boas as chances de fotografias dos animais da região uma vez que muitas vezes a floresta não propicia a melhor condição de luz, quando em seu interior.

Nas primeiras horas do crepúsculo, é hora de procurar o socoí-zigue-zague (Zebrillus undulatus), tímido representante da família das garças, com certeza um dos menos conhecidos da família e que se encontra com certa facilidade no rio cristalino.

O que considero um dos pontos altos de uma viagem à região do Cristalino é a possibilidade de visitar as torres de observação. São duas, uma em cada margem do Rio, acessadas após uma trilha pela mata, que possibilita que o visitante se encontre, uma vez em cima da torre, a 50 m de altura cercado pela imensidão da mata por todos os lados. Mesmo para os desinteressados pelas aves, vale a subida das centenas de degraus para desfrutar do nascer do sol acima do dossel da floresta. Já para os interessados, o alvorecer transforma a mata num fervilhar de vida por todos os lados. Tucanos, araçaris, papagaios, periquitos, bandos mistos de saíras, pica-paus e a vontade de conseguir olhar pra todos os lados ao mesmo tempo. De repente um capitão-de-cinta (Capito dayi) aparece com sua parceira. No outro lado, marianinhas (Pionites leucogaster) passam em sobrevôo com sua voz características, enquanto as sete-cores-da-amazônia (Tangara chilensis) procuram por frutas em outra árvore. As possibilidades são infinitas e pode-se passar dias seguidos visitando a torre sem observar os mesmos animais. Para os menos corajosos, as torres possuem outros níveis intermediários, entre 20 e 30 metros, onde também se observam aves do sub-dossel com mais proximidade. Trata-se também da melhor oportunidade para interessados em fotografia de aves, possibilitando a aproximação de aves que costumam ser observados à distância e contra `a luz a partir do chão da floresta.

Resumindo, a avifauna da região já possui quase 600 espécies de aves registradas, e cada visita revela surpresas e novas descobertas. A diversidade de mamíferos também é grande, apenas de macacos são 7 diferentes espécies.


 

Quando ir

A melhor época para visitar o Cristalino, depende do interesse do visitante. Em relação às aves, elas normalmente estão mais ativas, cantando, durante a época das chuvas, na primavera, com o pico de atividade em novembro, que por outro lado é um mês em que chove muito, em alguns anos todos os dias. No período da seca, as aves cantam menos, se ouvem muitas cigarras pela mata, e pode ser difícil caminhar em silencia na mata, sem pisar em folhas secas. No entanto, nessa época, os guias costumam construir pequenas coleções de água escondidas dentro da mata. Aguardar o dia se encaminhar para o seu fim, escondido próximo a uma dessas coleções pode ser uma experiência incrível, uma vez que algumas das espécies mais difíceis de encontrar em uma caminhada, se unem nessas coleções para beber e se banhar nas águas remanescentes no interior da floresta antes do anoitecer.

O Lodge vêm se modernizando, e com a estrutura que possui, tem tudo para ser ainda por muito tempo o principal destino para observadores de aves no sul da Amazônia brasileira.

Quem quiser saber mais sobre o local e a região pode se informar no site do lodge e da Fundação Ecológica Cristalino, que auxilia na administração do Parque Estadual e desenvolve importantes projetos sócio-ambientais na região d e Alta Floresta:

http://www.cristalinolodge.com.br/

http://www.fundacaocristalino.org.br/br_index.php

Estou à disposição para dúvidas e mais esclarecimentos sobre a avifauna, estrutura e dicas de viagem. No endereço abaixo você encontra mais informações sobre outros destinos em que guio:

http://www.guilhermebattistuzzo.com/   guilhermesbtz@gmail.com

Tel: (11) 3819-6304
Cel: (11) 9 9553-2275

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Amazônia (+)

 

Após uma chuva torrencial, um encontro emocionante com a azulona (Tinamus tao), maior tinamídeo da floresta amazônica brasileira.

Após uma chuva torrencial, um encontro emocionante com a azulona (Tinamus tao), maior tinamídeo da floresta amazônica brasileira.

O araçari-mulato (Pteroglossus beauharnaesii) costuma ser um dos ilustres visitantes das torres de observação, as vezes em grandes bandos

O araçari-mulato (Pteroglossus beauharnaesii) costuma ser um dos ilustres visitantes das torres de observação, as vezes em grandes bandos

Um dos mais interessantes tiranídeos, a maria-leque (Onychorhynchus coronatus) constrói seu ninho próximo a uma das torres

Um dos mais interessantes tiranídeos, a maria-leque (Onychorhynchus coronatus) constrói seu ninho próximo a uma das torres

Voltando de barco para o lodge no crepúsculo, ouve-se o mugido alto e rouco do Socoí-zigue-zague (Zebrillus undulatus)

Voltando de barco para o lodge no crepúsculo, ouve-se o mugido alto e rouco do Socoí-zigue-zague (Zebrillus undulatus)

O papa-formiga-de-sombrancelha (Myrmoborus leucophrys) é uma das  46 espécies de ‘Antbirds’que vivem no Cristalino.

O papa-formiga-de-sombrancelha (Myrmoborus leucophrys) é uma das 46 espécies de ‘Antbirds’que vivem no Cristalino.

Um novo táxon de pinto-do-mato (Hylopezus sp.) pode ser observado nas trilhas próximas ao lodge

Um novo táxon de pinto-do-mato (Hylopezus sp.) pode ser observado nas trilhas próximas ao lodge

Com sorte, é possível ver um bando da curica-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi) nas embaúbas  ao fim da tarde.

Com sorte, é possível ver um bando da curica-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi) nas embaúbas ao fim da tarde.

Surpresa na torre! A raríssima cotinga-de-garganta-encarnada (Porphyrolaema porphyrolaema)

Surpresa na torre! A raríssima cotinga-de-garganta-encarnada (Porphyrolaema porphyrolaema)

Na floresta de igapó, brilha o Coroa-de-fogo (Heterocercus linteatus)

Na floresta de igapó, brilha o Coroa-de-fogo (Heterocercus linteatus)

A mais linda das garças brasileiras, vive às margens da água em locais florestados. Garça-da-mata (Agami agami)

A mais linda das garças brasileiras, vive às margens da água em locais florestados. Garça-da-mata (Agami agami)

Marianinha-de-cabeça-amarela (Pionites leucogaster), observado com frequência de cima das torres.

Marianinha-de-cabeça-amarela (Pionites leucogaster), observado com frequência de cima das torres.

O tempo para por um instante, quando o uirapuru (Cyphorhinus arada) escolhe o seu palco para um canto melodioso e profundo.

O tempo para por um instante, quando o uirapuru (Cyphorhinus arada) escolhe o seu palco para um canto melodioso e profundo.