(…) A resposta da Nikon tinha a maior cara de mentira deslavada, de gente que acha que o público é burro, e foi aí que eu realmente me senti bem envergonhada por ter câmeras Nikon e pensei que se fosse fácil eu trocaria de marca.

 

  • Texto e fotos: Claudia Komesu
  • Na galeria estão algumas das imagens que eu considero minhas melhores fotos numa linha que não é a tradicional (e sem contar África do Sul, que ainda não comecei a reeditar)

https://estilo.uol.com.br/noticias/redacao/2017/09/19/campanha-da-nikon-sem-nenhuma-fotografa-gera-polemica-nas-redes-sociais.htm

https://www.nytimes.com/2017/09/14/technology/nikon-female-photographers.html?mcubz=0

Uma notícia divulgada em 14 de setembro, mas que só vi hoje pelo Uol, foi a enorme mancada da Nikon em fazer a campanha da nova D850 só com homens. Escolheu 32 fotógrafos pra testarem a câmera e mostrarem os resultados. Trinta e dois homens brancos ou asiáticos. Nenhuma mulher, nenhum negro.

“Ah, não me venha com mimimi”

Bom, senhor mimimi, deixa eu contar uma coisa: as pessoas são diferentes. Homens e mulheres são diferentes, pessoas de diferentes culturas têm visões do mundo e valores diferentes. Sabe por que há tão poucas artistas com obras dentro de museus? Um dos principais motivos: a grande maioria dos curadores são homens. Homens, com valores masculinos, representando o que os homens acham bom, perpetuando a ideia de que só os homens conseguem fazer obras dignas de um museu.

O mesmo vale para qualquer concurso ou seleção. Olhe o grupo de jurados. Se a maioria são homens brancos, não espere diversidade de autores no resultado, aliás, em geral os ganhadores serão outros homens brancos, que entendem o que os homens brancos acham bom.

Não é por mal gente, é simplesmente um fato: nossa cultura, etnia, lugar onde nascemos, nosso estrato social, nossas vivências, o fato de sermos (ou nos sentirmos) homem ou mulher influencia nossa visão do mundo, inclusive nossos valores estéticos.

O pedido por diversidade num corpo de jurados ou curadores ou diretores ou ministros ou deputados não é uma frescura, e sim a única forma de termos uma sociedade que não é dominada em todos os campos pela visão, gostos e valores dos homens brancos – ou, no máximo, asiáticos.

Mas sabe o que foi pior do que fazer uma campanha só com homens, sem pensar que isso seria criticado? O que doeu mesmo foi a resposta às críticas. Todo mundo erra. A diferença é o que você faz frente ao erro. Você assume que foi uma cagada enorme, pede mil desculpas, e diz o que está fazendo pra consertar ou pra não errar mais? Ótimo, pontos pra você. Ou você dá uma desculpa esfarrapada, do tipo “as fotógrafas que convidamos não puderam nos atender”. Aaaahhh, sério? Quantas? Dezesseis fotógrafas profissionais não tinham tempo pra Nikon? Ou as duas com quem vocês falaram, em cima da hora, não podiam? Quantas foram? Quem foram?

A resposta tinha a maior cara de mentira deslavada, de gente que acha que o público é burro, e foi aí que eu realmente me senti bem envergonhada por ter câmeras Nikon e pensei que se fosse fácil eu trocaria de marca.

Resposta vergonhosa da Nikon

 

O artigo do NY Times fala da iniciativa de Daniella Zalcman, que criou um banco de imagens só com o trabalho de fotógrafas mulheres. Não é por discriminação, e sim pra ficar claro que há boas fotógrafas. https://www.womenphotograph.com/ Pelo o que entendi, alguém ligado a esse grupo criou este post, mostrando o exemplo de excelentes trabalhos de fotógrafas mulheres, o que deixa mais claro ainda como a desculpinha da Nikon é uma vergonha. http://mashable.com/2017/09/15/nikon-female-photographers/#l_unSuUNh8ql

Mas sabem o que aumenta a tristeza?

Sentir-se a minoria da minoria da minoria.

O post e o site mostram lindas fotos feitas por fotógrafas mulheres. No tal post “Ei, Nikon, veja aqui o trabalho de 32 fotógrafas que arrebentam” todas as fotos são de fotojornalismo. E no site womenphotograph quase todas as fotos também são fotojornalismo.

Sei que a fotografia de natureza é um nicho pequeno. Mas não deixa de ser triste pensar como há pouco espaço pra gente. É muito difícil mesmo. Todos os fotógrafos de natureza mais famosos são homens. Há vários motivos pra isso. Em geral pra ser famoso você faz coisas que gente comum não está fazendo, inclusive lugares longínquos e/ou perigosos, isso já tira muitas mulheres da jogada. Se a pessoa tem família, é normal o pai se ausentar por semanas, mas não a mãe. E mesmo se não houver a questão do filho, tem a de segurança. Qualquer um pode ser assaltado, mas devem ser poucos os homens que pensam que se forem pra um lugar ermo, com gente que mal conhecem, eles correm o risco de serem estuprados.

Fora as questões práticas, temos os valores do que é considerado uma boa foto. De novo a perpetuação dos valores masculinos, em geral é proximidade do objeto fotografado, super nitidez, cores saturadas, algo inusitado, arriscado, difícil, que você pense “putz, esse cara é incrível, como ele conseguiu isso?”. Falando assim, é fácil pensar “mas não é óbvio que esse é um dos principais valores da fotografia de natureza? Ser difícil, ser único?” Atualmente é. Mas existem outros valores.

Eu, por exemplo, me sinto entediada com as fotos de fundo limpo, super nítidas, bem de perto, que podiam ter sido feitas em qualquer lugar, que não têm referência do ambiente. Pra mim elas não têm alma. Valorizo muito mais questões de luz, delicadeza de cores, cenário, pose, olhar do bicho – mesmo que não seja com penas ou pelos super-definidos e bem de perto. Pra mim a história da foto, do fotógrafo, faz diferença. Na verdade, nem busco fotos que me impressionem, que me façam pensar “esse cara arrebenta”. Em geral me interesso mais por um álbum que me mostra uma história. Não quero uma foto única-incrível-que-arrebenta. Gosto de ver o olhar fotográfico das pessoas.

É triste o quanto não temos um espaço para pensar em visão feminina. O que vejo em geral são as mulheres tentando fotografar e fazer o que os homens fazem. Não é errado, você pode fazer o que quiser, mas será que alguma vez já pensou se é disso mesmo que você gosta? Sobre os seus valores estéticos, artistas plásticos e fotógrafos profissionais que te inspiram, você já pensou que talvez os gostos de homens e mulheres sejam diferentes e não é só porque uma estética é a dominante que ela precisa ser a sua?

Também reparei que aparentemente as mulheres que fotografam natureza, principalmente aves, podem ser divididas em dois grupos: as que fotografam no estilo masculino, com as viagens pra lugares longínquos, espécies difíceis etc, e as que não. E as que não, em geral não se levam a sério como fotógrafas, e eu me incluo nesse grupo. Faço algumas viagens pra lugares longínquos, mas não é meu foco. Não gosto da estética dominante. Não costumo postar fotos pra receber likes. Me vejo como uma pessoa com muitas falhas e defeitos como fotógrafa, e nem me chamo de fotógrafa. Ainda que há 12 anos quase todas as minhas viagens sejam pra fotografar natureza, pra mim estou passeando e aproveitando pra fotografar.

Faz poucos meses que comecei a mudar essa visão, a levar mais a sério meu acervo. Tenho reeditado fotos e sentido muito orgulho delas. Quem sabe daqui a um tempo eu não faça algo pela minoria da minoria da minoria. Mulheres fotógrafas de natureza que buscam um outro olhar. Se você tiver interesse no assunto, me escreva. claudia.komesu@gmail.com

 

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