No dia 25 de agosto de 2012 iniciamos nossa Expedição Amazônia a partir da Reserva Rio das Furnas com destino ao Parque Viruá, em Roraima. Foram 12.800km com direito a desvios por conta de estradas bloqueadas, caminhos a serem descobertos, atalhos interessantes, dicas dos amigos, curiosidade e muita disposição para conhecer a Amazônia que tanto nos fez sentir pequenos (quando observamos samaumas e castanheiras), quanto impotentes ao presenciar queimadas e derrubadas quilométricas.

Posters são doados para a Escola como incentivo ao conhecimento das aves

Posters são doados para a Escola como incentivo ao conhecimento das aves

 

  • Texto e fotos: Renato Rizzaro, da Reserva Rio das Furnas, uma RPPN localizada em Itajaí – SC
  • Originalmente publicado em: http://riodasfurnas.blogspot.com.br/ em novembro de 2012, transferido para a Virtude-AG em fevereiro de 2013.
  • A Reserva Rio das Furnas produz posters educativos com fotos das principais aves de cada bioma. Os posters são muito bonitos, e estão à venda. Vale a pena conhecer.
  • No segundo semestre de 2012 Renato Rizzaro e sua esposa Gabriela Giovanka, donos da RPPN, fizeram uma expedição para o Norte, para a produção do poster sobre as aves da Amazônia. Eles publicaram relatos da aventura no blog da Reserva, e autorização a reprodução na Virtude-AG. Este post é o primeiro da série.
  • Além dos posters, o casal também executa um projeto educacional chamado Roda de Passarinhos, em que, durante as expedições, eles visitam escolas para divulgar o birdwatching, e a importância de proteger a natureza.

Publicaremos a Expedição tendo como fio da meada a Roda de Passarinho, introduzindo experiências, amigos, visitas e desvios pouco a pouco, homeopaticamente. Afinal, a ideia é tentar transmitir tudo o que sentimos e vivemos nestes 78 dias de estrada.

O objetivo desta Expedição é continuar o trabalho iniciado na Reserva Rio das Furnas, com apoio institucional da SPVS e orientação do Vítor Piacentini, de levantamento fotográfico das aves para publicar uma série de Posters dos biomas brasileiros.

Esses posters também fazem parte da atividade de Educação Ambiental que chamamos de Roda de Passarinho, trabalho voluntário que executamos durante nossas Expedições e na nossa comunidade, em São Leonardo, desde 2001.

O primeiro da série foi o Aves da Floresta Atlântica, o segundo, Aves do Pantanal e o próximo está dedicado às Aves da Floresta Amazônica e deve sair em meados do ano que vem, pois agora iniciamos o trabalho de seleção e identificação das mais de 500 fotos tiradas entre as quase mil que foram avistadas durante a Expedição.

Os mesmos Posters que são doados às escolas também podem ser adquiridos pela internet. Assim, você contribui com a próxima edição e com a Expedição, pois tudo é feito por nossa conta e risco, sem patrocínios, com apoio de quem acredita no trabalho da gente.

Bom, “bóra” reviver a Expedição Amazônica?!

 

A Roda no Vale dos Sonhos

Amanhece ao pé da Serra do Roncador. O sol anuncia mais um dia seco e quente com nuvens baixas, como uma névoa que nos remete aos vales de Santa Catarina. Porém, são nuvens de fumaça provocadas pelas queimadas que nos acompanham desde o Oeste do Paraná, passando por São Paulo, Goiás até a divisa de Mato Grosso. Isso deixa a paisagem embaçada e o sol demora a aparecer, tão denso é o bloco de humo que emana da prática inconsequente da queimada sempre por esta época do ano.

Estacionamos a Toynha no único Posto de Combustível da região e batemos um bom papo com o Genivaldo, iniciante na lida com o combustível mas que já mostrava jeito pra coisa. “Meu pai cuida de uma terra lá pras bandas da Serra do Roncador e por aqui a gente sempre precisa de combustível mas tem que ir até Barra do Garças. Então, meu pai resolveu comprar este posto de um camarada que não gostava muito do que fazia e eu agora estou cuidando e já mudei muita coisa, pintei, dei uma ajeitada pra ficar mais bonito”, conta Genivaldo.

Lá mesmo perguntamos sobre o Maurinho do Roncador, figura conhecida por ter uma história peculiar e ambientalista. “Todo mundo por aqui conhece o Maurinho, mora pras bandas da Pedra Aguda, na ponta do Roncador.” E lá fomos nós.

Numa curva fechada da BR158 entramos numa transversal que leva direto ao sítio do Maurinnho e fomos recebidos por Ninja e Bandite, fiéis caninos que cuidam do local quando o dono sai para ajudar nos bloqueios policiais da BR para apreensão de madeira ilegal e peixes fora de medida, que são doados às escolas municipais. Maurinho é voluntário neste serviço, em conjunto com a SEMA e a Polícia Federal.

Profundo conhecedor do local e das histórias e aventuras misteriosas que atraem cientistas, místicos e curiosos, Maurinho também é guia.

 

Resina e água sagradas salvam sua vida

Maurinho esteve à beira da morte. Conta que foi atingido, quando caminhava pelo acostamento da BR158, por um aro de pneu que escapou de um caminhão e acertou a coluna vertebral e, para complicar, levava um facão na mão que foi cravado em seu rosto.

Hospitalizado, inconsciente por dias, acordou sem os movimentos da metade do corpo para baixo e foi milagrosamente salvo por um sonho. Neste sonho, conta, tirava água de um determinado local da montanha e misturava a uma resina que brotava da rocha. Pediu ao seu pai que fosse até o local do sonho e coletasse a mistura. Até então, imóvel, com diagnóstico que previa a perda total dos movimentos das pernas, poderia voltar a mover-se, porém, com restrições. Meses seriam necessários para arriscar novos movimentos.

Tomada a mistura, para espanto e emoção de todos, um dia saiu andando e não parou mais. Desde então, a noticia se espalhou e muita gente começou a aparecer para tomar a água santa. A coisa ficou tumultuada e Maurinho resolveu dar um basta, porque até romarias já se formavam em sua porta. Hoje, ele usa a água santa em sua casa e na pousada e a resina coleta algumas vezes para quem realmente precisa.

“É difícil administrar a minha terra sozinho, porque sempre tem gente querendo entrar sem autorização, o que faço é receber as pessoas para guiar nas trilhas e fazer meditações na base do Roncador, tudo em silêncio e não admito bebidas alcoolicas na minha propriedade, não fecha com o astral do local.” Maurinho tem ideia de expandir sua pousada e construir mais alguns refúgios ao pé da Montanha, em seu sítio. Possui duas cabanas para hospedar visitantes e pesquisadores.

 

Barra do Garças

O Rio Araguaia é o principal da região, divisor dos Estados de Mato Grosso, Goiás e Tocantins; estrada para os pioneiros, garimpeiros de diamantes e cenário da Guerrilha do Araguaia. As tribos Xavante e Bororo ainda sobrevivem em sua terra-mãe, apesar da discriminação pelo seu modo de vida. Base da Expedição Roncador Xingu, a cidade de Barra do Garças foi a nossa escolha para entrar na Amazônia influenciados por vários livros; Tukani, escrito pelo mestre Helmut Sick, o principal.

 

Cordilheira da Era Plutônica

“A Serra do Roncador sempre foi mistério a desvendar. Bandeiras, desde o século 18, como a de Pires de Campos e Anhanguera, empreenderam tentativas à procura da tão decantada ‘Mina dos Martírios”. É uma imensa cordilheira da era plutônica, divisor de águas do Araguaia e do Xingu. Se estende desde o Centro-oeste, após a travessia do rio das Mortes, e vai até Mato Grosso adentro até o Pará, onde recebe o nome de Serra Pelada. Segundo mitos e lendas, os Atlantes estão soterrados sob seus paredões. O certo é que esta maravilha está sendo ocupada de forma irresponsável e a Natureza está confinada a pequenos espaços mantidos pela iniciativa privada. O que deveria ser patrimônio da humanidade.

 

Em busca de Fawcett

O desaparecimento do Coronel Percy Fawcett foi motivo de várias expedições em busca de respostas que talvez não existam mais. Desaparecido em 1925, veio em companhia do filho Jacks e do Sr. Raliegh Rimeell com o intuito de pesquisar uma civilização pré-histórica. Era considerado o maior geógrafo e explorador britânico. Com seu filho e amigo desceu, em canoas precárias, o Curisêvu, até a confluência com o Kuluene, cabeceiras formadoras do Xingu, onde desapareceram.

A origem da civilização Inca, o paralelo 16, o Templo de Ibez, o Caminho de Ió, Agartha, Shamballah, o chacra do planeta, o Portal de Aquarius, vulcões extintos, fósseis de dinossauros e discos-voadores são atrativos para cientistas, curiosos e místicos de toda parte, segundo o historiador Valdon Varjão.

 

A Lenda da Garrafa de Diamantes

Um lavrador, pai de numerosa família, senil e à beira da morte chama a todos e declara ter enterrado há muitos anos um tesouro; alguns quilos de moedas de ouro e algumas jóias de alto valor. Como o local indicado era entre “aquela serra e este vale”, os filhos iniciaram a busca do tesouro porém sem sucesso. Para não perderem o trabalho com a terra revolvida resolveram cultiva-la, tirando dali uma boa safra. Anos seguiram e o ritual de procura, revolver a terra, etc., repetia-se e aí estava, na metáfora do tesouro, a riqueza que o pai deixara aos filhos.

Outra versão conta de combatentes da Guerra do Paraguai (1870) que foram garimpar no rio Garças e acharam diamantes. Com a chegada de índios, os homens assustados, encheram uma garrafa e enterraram em um ponto do rio. Quando voltaram perceberam que a enchente havia levado o seu tesouro, mesmo assim marcaram o local com uma pedra que está lá até hoje, conhecida como a Pedra do Arraya.

Bom, acontece que lenda é lenda e o povo transforma de tal forma os acontecimentos que ainda tem gente em busca da tal “garrafa de diamantes”.

 

Desmatamento x agricultura

Com muitos incentivos federais na década de 70, Barra do Garças chegou a ser o maior produtor de arroz do país, impulsionado principalmente pelo povo vindo do sul do Brasil. Hoje predominam as pastagens, a soja e o eucalipto que invade, inclusive, o símbolo de maior poder da localidade: a Serra do Roncador.

Maurinho, criador do Instituto Ecológico Roncador é voluntário na fiscalização e apreensão de madeira ilegal na região.

Agradecemos ao Maurinho pelo livro Janela do Tempo de Valdon Varjão, fonte de pesquisa.

 

 

Em breve a Virtude-AG reproduzirá os outros relatos. Se preferir, acesse o blog da Reserva Rio das Furnas.