Bons indícios de que o Tanquã não será destruído neste ano. E a necessidade de continuarmos mostrando apoio concreto à natureza.

  • Texto e fotos: Claudia Komesu

Dia 30 de maio foi a 2ª Passarinhada de Apoio ao Tanquã. (Se você não sabe o que é o Tanquã, ou por que ele precisa de apoio, pode dar uma olhada na caixa azul deste post). O primeiro evento foi no ano passado. Faço parte da comissão de organização. A ideia veio do Guto Carvalho, que chamou também Luciano Monferrari e Luccas Longo – e o Luccas incluiu o Samário, da Ecoloja, que apoia o evento promovendo um concurso de fotos.

No ano passado até chegarmos ao formato final de como seria o evento foram dezenas de e-mails entre a gente e as mais diversas dúvidas, ideias e receios. Muitos dos receios vindos da minha parte, que ainda pensava demais em termos de responsabilidades, e de menos na linha de “cidadãos podem se reunir para se manifestarem sobre o que quiserem”. Mas o Guto ensinou.

No ano passado reunimos 160 pessoas em março. Agora o evento seria quase no início de junho, época que não tem fama de ser boa para as aquáticas. Como seria a adesão?

Semana toda nublada, e até alguns dias de chuva… eu ficava pensando que se chovesse ia estragar muita coisa. Mas felizmente na sexta a previsão do tempo era de um sábado sem chuva. Fui pra Limeira na sexta à tarde, fiquei com os meus pais, e no sábado saí às 5h e pouco em direção ao Tanquã. Neblina em vários trechos da estrada, e no Tanquã mesmo, um mar de névoa que só foi se dissipar lá pelas 9h.

Os mais corajosos, como o Guto e colegas, já tinham saído às 7h, antes de eu chegar no local. Ele contou que foi uma experiência diferente, viram centenas de aves… no meio da neblina. E passaram bastante frio. Eles alugaram uma casa pertinho do Tanquã, e dormiram lá de sexta para sábado. Fizeram passeio na sexta à tarde, disseram que foi muito bom.

Muita gente acha que só verão e primavera servem para ver as aquáticas. Eu mesma não esperava grande coisa em termos de avistamentos. Fui ao Tanquã pelo compromisso em fazer ações concretas para ajudar na preservação da natureza. Mas não é que estava cheio de aves, e com um monte de oportunidades para fotos boas?

Figuras famosas como marrecão, pato-de-crista (ou padre-cristo, ou paz-de-cristo, como preferir), gavião-do-banhado, paturi-preta estavam lá. Sanãs, socoís e tricolinos não… movimentação demais, e parece que o tricolino está mais difícil de ver.  Ainda que uma sanã-parda tenha pousado em frente às câmeras da TV, pra alegria do Luciano.

Mas também tinha irerês, marreca-cricri, marreca-toicinho, pé-vermelho, asa-branca, marreca-caneleira, pernilongo-de-costas-brancas, garça-moura, socozinho, jaçanãs, biguatinga, colhereiro (um, ao longe), cabeça-seca (uma só também), curutiés, bem-te-vis, freirinha, lavadeira-de-cara-branca, noivinha-branca, chopim-do-brejo, ferreirinho-relogio, garibaldi, suiriri, caracará, carrapateiro, urubu-de-cabeça-preta, gavião-caboclo, martim-pescador-verde, martim-pescador-grande, garça-vaqueira, frango-d´água-comum, frango-d´água-azul, savacu, quero-quero, pombão, anu-preto, maria-faceira, seriema, figuinha-de-rabo-castanho, saí-canário, andorinha-pequena-de-casa.

Dessas que citei, não vi a paturi-preta, cabeça-seca, frango-d´água-azul, sanã-parda (só ouvi os outros contando). E as citadas são apenas o que eu vi e/ou fotografei, com certeza a lista é bem maior.

O Fabio Olmos publicou no ebird a lista de espécies que ele observou: 103 espécies! Você pode ver aqui: http://ebird.org/ebird/view/checklist?subID=S23806431

Você deve ter sentido falta da garça-branca-grande, garça-branca-pequena e biguás. Não falei deles porque merecem um parágrafo à parte. Havia centenas deles, acho que nunca vi tanto, nem naquela vez que baixou um bando na Represa de Guarapiranga quando eu estava passarinhando de caiaque. Eram tantas aves, tantas… eu sei que são espécies muito comuns, mas ver uma profusão dessas aumenta a sensação da importância do Tanquã. Você olha pra elas e fica pensando “se esse lugar for destruído, pra onde vão todos esses bichos?”

Fiquei bem feliz quando os encontramos, porque o Terra da Gente estava lá para cobrir o evento, e aquele bando grande era garantia de boas imagens.

Tinha muitas aves, mas não estavam fáceis de ver. Com a movimentação de barcos, elas ficavam mais recolhidas no meio do capim. Fiz dois passeios: primeiro com o João Marcelo, a Flavia e o Sivonei Pompeo, e depois com o Marcelo e a Flavia. O primeiro com o Mineiro, o segundo depois que o pessoal já tinha se dispersado, com o querido Alemão, que é mais descolado pra saber onde procurar as aves. Ele nos levou em pontos em que sabia onde estavam as aves, a gente não via nada, ele bateu palmas alto, e de repente foi uma revoada (não muito ecológico, concordo, mas logo elas pousaram de novo). Foi graças ao Alemão que vi pela primeira vez o famoso pato-de-crista.

E por que eu estava passeando em vez de estar com o Luciano e o Guto? Porque foi um evento mais tranquilo do que no ano passado. Não parecia ter muita coisa pra fazer, então perguntei pro Luciano se podia fazer um passeio. Fomos passear, estouramos muito nosso limite de tempo apesar de termos pedido mais de cinco vezes pra irmos voltando. O Mineiro é uma alma gentil que estava numa mission from God, meio chateado por estarmos vendo poucas aves, querendo nos mostrar algo legal, a gente sem noção do rio, sem saber que ainda não estávamos indo de volta pro píer, e daí no final do passeio topamos com aquele bando enorme, o que atrapalhou ainda mais o timing. Eu sei que o Luciano tinha razão em querer comer nossas cabeças.

De cobertura da imprensa tinha o Terra da Gente, que com certeza fez ótimas gravações, ainda mais com a ajuda dos incríveis drones do Aluisio Bertalia. Havia umas meninas entrevistando os caras do Terra da Gente, o Fábio Olmos, o Luciano, o Guto.

O Instituto Aimara estava colhendo assinaturas para transformar o Tanquã em Unidade de Conservação… eu sei, eu sei, eu também tenho medo. Medo de virar Unidade de Conservação e passar a ficar regido pelas regras idiotas que inibem em vez de incentivar fotografia. Mas o problema é que pro Tanquã entrar pra Convenção de Ramsar, ele precisa ser Unidade de Conservação. No momento o risco do Tanquã ser destruído parece ter baixado, graças ao fato do Governo Brasileiro estar sem dinheiro pra nada. Mas quando a crise passar, voltará a pressão pelas obras, então não podemos achar que a batalha está ganha.

Acho que não havia mais imprensa… o que interpreto como um bom sinal, sinal de que a pressão pelas obras realmente diminuiu, e os jornalistas não estão considerando o assunto algo quente por enquanto.

A sensação era de haver menos gente do que no ano passado. Nossa lista de presença tinha 67 assinaturas, mas o Instituto Aimara colheu 100 assinaturas, e disse que ainda assim nem todos assinaram, então temos certeza de que havia mais de 100 pessoas. No ano passado tivemos quase 140 assinaturas, e estimamos uns 160 participantes.

O Luciano Monferrari foi um guerreiro. Cuidou de todo contato com o pessoal do Tanquã, organizou os barqueiros, recebeu a imprensa, conversou com todo mundo. Comparado a ele, me sinto um organizador de meia tigela. O Luccas não pode ir, mas deu entrevista pra rádio, fez contatos diversos. Não sei com detalhes as ações do Guto, mas ele estava na fogueira do Avistar São Paulo, e só dele estar lá já era bastante coisa. Eu cuidei de páginas e alguns banners no Facebook e no Virtude, mas só postagens, uma inútil pra fazer oba-oba e social.

Queria deixar sempre explícito que não achamos que a barragem não pode ser construída, ou que o Tanquã não pode ser destruído de jeito nenhum. Só queremos duas coisas:

  1. A certeza de que essa obra pública, feita com o dinheiro dos cidadãos, é realmente algo bom, importante e necessário para uma boa parcela da população. Por enquanto o clima é de muitas incertezas. Viabilidade econômica – algo que vai se pagar em 300 anos é justificável, não tem algo absurdo nessa conta? Viabilidade estrutural – com essas crises hídricas, os rios simplesmente não têm mais nível para ter hidrovias. Vai piorar a qualidade da água do Rio Piracicaba? Vai causar enchentes em bairros de Piracicaba? Construir barragens não é algo que está na contramão da historia, vide a tragédia de Santa Tereza? E essa historia do Plano B do Consórcio, de agora dizer que a barragem trará garantia de fornecimento de água para toda a região, eles podem mesmo falar isso? Porque barragens sem proteção a nascentes e mata ciliar não garantem nada, vide o exemplo de São Paulo. Sei que são várias perguntas, mas o fato é que qualquer obra que vai trazer um grande impacto precisa ser muito bem avaliada ANTES de ser executada.
  2. Compensações justas. Se a obra for válida e for mesmo sair, a compensação pela destruição do Tanquã e da vila de pescadores precisa estar à altura dessa destruição. Por enquanto não estão. O consórcio menosprezou a importância ambiental do Tanquã, entregou relatórios que indicavam intenção mínima de executar as ações de compensação ambiental – que além de serem insuficientes (a maioria das ações descritas não passava de obrigação), ainda tinham descrições superficiais e orçamentos escandalosamente insuficientes. Para os moradores da vila, não havia garantia de que todos receberiam novas casas, ou como seria o sustento deles enquanto não se formar um novo ecossistema em que eles possam pescar.

Achamos que o Tanquã está a salvo pelo menos até o final do ano, mas é por causa da falta de dinheiro do governo. Se quisermos aumentar as chances dele continuar sendo avaliado com atenção e importância por Cetesb e promotores públicos, não podemos deixar de fazer visitas frequentes, fotografar, divulgar, panfletar, participar de petições e ações presenciais.

Uma grande parte da natureza brasileira é destruída sem que nem saibamos, ou então ficamos sabendo da destruição, mas não conseguimos evitar. O Tanquã é um dos poucos casos em que temos poder real de chamar atenção para que ele seja avaliado com justiça, e não com o típico menosprezo que os burocratas dedicam às questões da natureza. Mas só conseguimos isso se fizermos pressões visíveis e que repercutem na imprensa.

No ano que vem provavelmente faremos uma nova passarinhada. Não importa o nível de risco do Tanquã: programe-se para participar, escolha participar, e sinta a alegria de fazer parte das pessoas que estão fazendo ações concretas pra ajudar a natureza.

Muito obrigada a todos que participaram e apoiaram! Ficamos muito felizes de ver vocês no sábado, em meio a um clima tão bom de valorização da natureza. Obrigada mesmo. Tenho certeza de que nossas ações a favor do Tanquã têm feito cada vez mais pessoas conhecerem esse local incrível, e se importarem com a preservação.

 

Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)

Relatos de passeios feitos no Tanquã