Por sugestão do colega Vinicius Neves, escrevi para Bruno Covas, tentando explicar por que o birdwatching deveria ser incentivado e não reprimido. Vamos ver se conseguimos alguma coisa. Quem tiver outros contatos políticos, sinta-se à vontade para usar esta carta ou trechos dela.

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Prezado sr. Bruno Covas,

Não sei se o senhor tem informações sobre o crescimento do birdwatching no Brasil. Esse hobby de origem europeia cresce com velocidade em nosso país, impulsionado pelas câmeras digitais e redes sociais. Para ter uma ideia, o www.wikiaves.com.br, o maior site de aves brasileiras, conta hoje com mais de 880 mil fotos cadastradas, mais de 16 mil usuários cadastrados e uma média de 190 mil visitantes únicos por mês.

Sou birdwatcher desde 2009 e gerencio um site dedicado à divulgação do birdwatching, o www.virtude-ag.com. É um site pequeno, sem comparação com o porte do Wikiaves, mas nele há espaço para falar de preservação e assuntos diversos, como a forma que os fotógrafos de natureza são tratados em parques públicos.

Quem carrega uma câmera grande, principalmente se for com tripé, é sempre abordado, às vezes tratado como criminoso, impedido de fotografar e, num caso mais grave no Parque Estadual Encontro das Águas, no Mato Grosso, o grupo teve até as câmeras confiscadas (mas depois recuperadas).

Sabemos que há uma portaria que diz que a fotografia comercial em parques públicos é taxada. Isso faz com que diversos gestores ajam de forma equivocada: eles não sabem que há milhares de amadores portando câmeras que anos atrás seriam exclusividade de profissionais. E vários concluíram que se a pessoa carrega tripé, só pode ser profissional, então tem que ser proibida de fotografar. Tomaram essa decisão no Jardim Botânico de São Paulo, em parques de Belo Horizonte.

Qualquer um que tenha uma pequena familiaridade com mundo da fotografia sabe que tripé não é exclusividade de profissionais. Pior: sabe que uma medida como essa, além de não separar profissionais de não-profissionais, discrimina pessoas cujo equipamento não tem estabilizador ou ISO alto. Ou seja – quem tem dinheiro para ter uma câmera mais moderna e com estabilizador, sem problemas. Os outros são impedidos de obterem prazer com seu hobby.

Prezado sr. Bruno. Eu, e muitos dos meus colegas nos preocupamos com a situação do meio ambiente no Brasil, em especial a irreversível destruição de habitat. Queremos muito ajudar de alguma forma. Rita Mendonça e Zysman Neiman escreveram “Podemos saber tudo sobre a Natureza, mas isso não é suficiente para querermos preservá-la. Para preservarmos temos que ter com ela uma relação afetiva, de amor, que gera o desejo de que ela continue existindo. O amor é o que dá um sentido maior às coisas. Mas isso é algo muito delicado de se introduzir nesse mundo objetivo, ou melhor, pretensamente objetivo.”, e concordo totalmente. Eu vi como a minha relação com a natureza mudou depois que me tornei birdwatcher.

Acreditamos que imagens bonitas são uma forma eficaz de chamar a atenção das pessoas. No nosso caso, melhor ainda: podemos dizer “qualquer um pode fazer fotos assim”, e esse é o convite para a pessoa se envolver com o birdwatching, e quem sabe mudar sua relação com a natureza.

Sei que o senhor tem a sua lista de prioridades. Mas se em algum momento for possível, peço que considere como o apoio ao birdwatching poderia fazer bem para a natureza. Temos tido problemas nos parques, principalmente quando carregamos câmeras que parecem caras, mas a atividade é democrática e abrangente. As pessoas usam câmeras compacta simples, ou binóculo e, na verdade, com a ajuda de comedouros e bebedouros, pode-se ver as aves a olho nu. Há várias histórias de como a pessoa ficou encantada por ver aves lindas e coloridas de perto num comedouro e se tornou birdwatcher. Comedouros em parques públicos teriam um grande impacto na educação ambiental, no interesse pela natureza.

Deficientes físicos também podem apreciar a atividade por meio dos cantos das aves (um mundo vastíssimo), pessoas de qualquer idade podem participar, inclusive gente com restrição de locomoção.

Por causa do birdwatching vemos muito mais beleza no mundo, nos importamos mais com preservação, e gostaríamos de compartilhar isso com outras pessoas, convidá-las a ver o mundo assim também. Um grande passo seria se os parques públicos conseguissem nos ver como aliados na promoção da natureza, em vez de criminosos tentando burlar a tal portaria que institui o pagamento de taxas.

Somos aliados na proteção da natureza. Não somos criminosos.

Estou à disposição para qualquer outra informação.

Muito obrigada,
Claudia