Atualização fev/16: O diretor ainda é o sr. Domingos Rodrigues, que tem se mostrado uma pessoa muito esclarecida. Recebemos relatos de colegas que foram passarinhar no carnaval no Jardim Botânico, e foram muito bem recebidos. Os funcionários se aproximaram, deram boas-vindas, falaram de locais bons para observar aves. Uma grande alegria. Quem sabe daqui um tempo outros parques também tenham essa atitude, e parem de proibir pessoas de fotografar, como acontece no Horto de Campos do Jordão.

Atualização jan/14: Fizemos reunião com Domingos Sávio Rodrigues, diretor do Centro de Pesquisa Jardim Botânico e Reservas e outras pessoas de sua equipe. O assunto do tripé foi esclarecido, não é mais proibida a entrada de tripé – ainda não recebi a informação oficialmente, apenas extra-oficialmente pelo sr. Domingos. Colegas birdwatchers que foram passarinhar no Botânico depois da reunião disseram que havia várias pessoas com tripé no parque. O Centro de Estudos Ornitológicos fará reunião com o Botânico, para falar de possíveis parcerias com o birdwatching.

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  • Texto e fotos: Claudia Komesu
  • Câmera: Nikon D800 com Nikkor 105 f2.8 e 300 f4 com tele 1.4

Mensagem enviada pelo sr. Domingos Sávio Rodrigues em 22/11

Prezada Claudia bom dia

Quero agradecer por se importar e nos ajudar a cuidar do nosso Jardim Botânico de São Paulo.

Aqui no JB aparecem várias pessoas com diferentes tipos de equipamentos para filmagem, fotografias de casamentos, propagandas em panfletos para imobiliárias, etc. muita coisa comercial.

Estamos nos adequando para algumas situações que aparecem aqui no JB, e gostaríamos se possível de ouvir suas sugestões e de mais fotógrafos amadores. você pode agendar?

Abraços

Domingos

Domingos Sávio Rodrigues

Diretor – Centro de Pesquisa Jardim Botânico e Reservas

Instituto de Botânica de SP

www.ibot.sp.gov.br

 

 

Minha resposta (longa, para variar)

Prezado Domingos,

Obrigada por sua atenção. Agora no fim do ano começa a ficar complicado encontrar um fim de semana livre devido a compromissos com a família. Vou expor alguns pontos pelo e-mail e, se o senhor achar interessante, podemos agendar uma conversa para janeiro.

O ponto mais importante é não tentar separar profissionais de amadores pelo equipamento. A fotografia como hobby cresceu muito, e hoje há vários amadores que usam equipamentos de nível profissional.

É a nossa paixão, entende? Direcionamos nosso tempo e recursos para esse hobby. Economizamos, deixamos de gastar dinheiro com outros itens para poder ter uma câmera com mais recursos. Você pode imaginar a frustração que é ser proibido de fotografar num parque público porque nossa câmera não é uma compacta simples, ou porque usamos tripé ou monopé.

Como falei, o Jardim Botânico de São Paulo sempre foi elogiado por ser um lugar onde fotógrafos eram bem-vindos. Seguro, bem cuidado, tranquilo. Eu via muita gente com DSLRs, tripés, grupos que provavelmente estavam fazendo um workshop. Nenhum segurança nos abordava, porque já havíamos assinado o tal termo na portaria. Era um outro mundo!

Infelizmente nunca vi muitas aves no Botânico, mas gostava de ir aí por ser a garantia de um passeio sem aborrecimentos. Nos outros parques, como o Villa-Lobos, Ibirapuera, Tietê, Cidade de Toronto, 9 de Julho, em Campos do Jordão, Americana, Belo Horizonte, sempre somos abordados pelos seguranças, às vezes até de forma rude. Vai desde o segurança dizer que é proibido fotografar porque nosso equipamento é profissional, e não adianta explicar que estamos fotografando aves, que é um hobby, mostrar a ave na tela da câmera, até ser enxotados como criminosos.

O senhor conhece o Wikiaves? www.wikiaves.com.br. O maior site de aves brasileiras. Mais de 880 mil imagens, mais de 16 mil usuários cadastrados, mais de 190 mil visitantes únicos por mês. Alguns poucos profissionais, mas na grande maioria, todos amadores praticando esse hobby apaixonante. Caso precise justificar para alguém, peça para a pessoa dar uma olhada no site, no “Exibir detalhes” de cada foto aparece a câmera usada, leia os fóruns, e ficará provado como o birdwatching é um hobby praticado por milhares de pessoas, com diversos tipos de câmeras, e que os equipamentos de aparência cara e profissional são usados amplamente por amadores, para o lazer.

A aparência da câmera não separa mais o amador do profissional. Talvez fosse verdade no passado, hoje não é. Hoje um amador pode ter um equipamento que custa mais de R$ 12 mil, e usar apenas como hobby, e um profissional pode fotografar com o Iphone ou outro celular e vender aquela foto.

Proibir a entrada de tripés, monopés e rebatedores não impede a prática da foto comercial. Eu nem sou contra, mas sei que existe a lei. Na exigência de cumpri-la, imagino que uma solução possível seria ter o tal termo que costumamos assinar, e ficar explícito que fotógrafo profissional fotografando grávidas, casais, aspirantes a modelo precisa pagar a taxa. E bem que poderia ser uma taxa razoável, que a pessoa poderia pagar na bilheteria. Ou mesmo os fotógrafos de natureza, que queiram registrar insetos, flores, aves, e depois vender essas fotos. Se o valor fosse razoável e o procedimento simples, muita gente pagaria. Não sei quanto custa, nunca fui atrás disso. Tenho uma informação de que alguns anos atrás, falaram para meu colega que era preciso pagar uma taxa de R$ 300 para fotografar. Imagine! Isso só faria sentido se toda fotografia comercial fosse resultar num grande livro ou exposição patrocinada.

Se a escolha fosse minha, eu não cobraria taxa dos profissionais de natureza, e pediria que eles ajudassem a divulgar o nome do parque. Mas como tem a lei, considero R$ 30 / dia um valor razoável para pessoas que estão fotografando sem causar nenhum transtorno ou mudança de rotina do parque, e que poderiam nem dizer que pretendem vender a foto. Poderia também haver uma taxa anual que permitira a pessoa fotografar comercialmente o ano todo: R$ 100. Os valores podem parecer baixos, mas acho que não são. Apesar de não ter dados de uma pesquisa, imagino que a maioria dos fotógrafos profissionais que frequentam o Botânico são do grupo que está lutando pra sobreviver, pessoas para quem mesmo os R$ 30 são algo a considerar. O mercado é extremamente competitivo e o custo de bons equipamentos é alto.

A exigência de fazer um requerimento com antecedência de 5 dias úteis poderia ficar para as situações que podem atrapalhar os outros visitantes, como filmagens de casamentos.

Monopé não ocupa espaço. Tripé ocupa um pouco mais de espaço, mas basta ter essa orientação de não atrapalhar o fluxo de pessoas. O parque é grande. Acredite: é um clima de felicidade estar num lugar em que há muita gente com câmeras e tripés, andando sem medo, é como se fosse uma pequena ilha no Brasil.

O Jardim Botânico tinha essa imagem de lugar bacana, com uma política avançada comparado com outros parques. O senhor tem a oportunidade de fortalecer essa imagem.

Algo que não é comum um parque ter (os parques da África do Sul têm), mas que tenho certeza de que seria um grande sucesso, seria se vocês exibissem no site exemplos de fotos tiradas no parque. Uma das maiores propagandas de um local é ver o que outras pessoas comuns conseguiram registrar lá.

Para ficar claro: nesse caso as pessoas enviariam as imagens voluntariamente, e elas seriam usadas apenas numa galeria de fotos tiradas pelo público. Para qualquer outro uso, inclusive em panfletos, cartazes, mesmo em outras áreas do site, seria preciso combinar com o autor da foto.

Com uma pequena verba, também é possível fazer algo como uma exposição de fotos feitas no Botânico. Ou concurso de fotos: com R$ 380 você compra um HD externo de 2 TB, um item sempre desejado pelos fotógrafos, e atrai muitos interessados.

Senhor Domingos, há várias ideias, e um grande potencial para que o Jardim Botânico seja um parque de vanguarda, elogiando na mídia, querido pelo público, xodó dos fotógrafos. Rende uma boa conversa ao vivo, só não quero me comprometer agora, porque sabe como fim de ano é complicado. Mas em janeiro poderíamos conversar, se for do seu interesse. Por exemplo, penso que eu poderia dar um pequeno treinamento para alguns dos seus funcionários sobre WordPress – uma plataforma barata, que facilita muito as postagens na internet. O Botânico poderia ter um blog, e a tal galeria com as fotos tiradas pelo público. Vocês seriam muito modernos.

Este é o link do meu site pessoal, com uma página sobre os trabalhos voluntários que já realizei nessa área:

http://heart3.me/claudia-komesu-portfolio

Mais uma vez, agradeço sua atenção e abertura para o diálogo,

muito obrigada,

Claudia

O Jardim Botânico de São Paulo, localizado ao lado do Zoológico de São Paulo é um local agradável, bem cuidado, seguro e era tido como um grande exemplo de relação saudável com fotógrafos. Vou lá há anos, e sempre víamos pessoas fotografando alegremente, às vezes em grupos, como se fosse um pequeno workshop.

Como vocês sabem, existe uma portaria que diz ser proibido fotografar em parques públicos sem autorização prévia se for para uso comercial. O Botânico resolvia isso com simplicidade: na hora de entrar, bastava você preencher um papel com seus dados, e dizendo “não é para uso comercial”, e tudo certo. Nenhum segurança vinha te abordar. No Parque Villa-Lobos, por exemplo, é preciso pegar uma autorização na administração, que só abre às 9h, e às vezes eles não se falam direito no rádio e você tem que se explicar para uns três seguranças.

No feriado do Dia da Consciência Negra fomos eu e o Cris passear lá. 13h30. A gente não esperava ver aves nesse horário, e sim fotografar insetos, mas levei a 300 f4 e o tripé só pro caso de. O moço do estacionamento olhou pra gente e falou “isso é um tripé? Não vão deixar entrar”, eu pensei “imagine, sempre entrei com tripé”, e levei mesmo assim. Não é que ele estava certo?

A moça da entrada foi muito simpática e educada, mas estava cumprindo ordens. “não pode entrar tripé, monopé ou rebatedor em fim de semana. Durante a semana pode, se você pedir autorização com 5 dias de antecedência, e eles vão avaliar se deixam. Veja, está escrito ali”. A gente foi ler o cartaz, que dizia ser necessário autorização prévia e pagamento de taxa se fossem fotos de eventos, casamento, uso comercial. E dizia que era permitido fotografar para uso pessoal. Nenhuma menção a tripé ou monopé.

O Cris perguntou se eu queria discutir, falei que não, que ela só estava cumprindo ordens, que a gente deixaria meu tripé na bilheteria, não ia me atrapalhar. Quando eu estava entrando, vi um casal, uma moça bem grávida, vestido branco lindo, o marido com uma maletinha de equipamento fotográfico e um pequeno tripé. E a moça da bilheteria tendo que dizer pra ele que o tripé não podia entrar. Aquilo foi demais pra mim.

“Moça, usar tripé não significa que a pessoa é um fotógrafo profissional trabalhando”. “Eu sei, já tentei explicar pra eles, mas eles não me ouvem…” “Tem algum e-mail de contato para quem eu possa escrever?” “Tem um livro de sugestões e reclamações, meu chefe olha todo dia. Se vocês escreverem, eles vão ver”. “Ninguém reclamou disso até hoje?” “O pessoal reclama, mas ninguém quer escrever e deixar o nome no livro”. Combinei que escreveria na saída.

O parque estava cheio. Caminhamos um pouco. Nos laguinhos perto dos brejos, junto com os copos-de-leite, vários insetos e aracnídeos interessantes. Eu lá, naquelas poses ridículas de quem está fotografando macro. Uma hora ouvi “Priscila, vem pra cá, senão vai sujar o pé. Priscila, vem pra cá”, e uma voz de criança “Mas eu quero ver os bichinhos pequenos” – devia ser alguma criança interessada nos meus temas, eu teria mostrado as aranhas, os besouros, pena que os pais se preocupam demais em sujar pés ou roupas.

Já no caminho da saída, bugios com filhotes, passaram rápido mas ainda deu alguma foto.

De aves, só vi periquito em voo, bem-te-vi, suiriri, sabiá-laranjeira, sabiá-barranco, quero-quero, pé-vermelho, vocalização que talvez fosse da viuvinha. O Botânico é um lugar muito agradável, e apesar de uma área relativamente extensa de mata, não parece ter uma grande diversidade de aves. Pelo menos não as que querem ser eternizadas em fotos.

 Se você tem poder de decisão nessas questões:

– tripé ou monopé, mesmo rebatedor, não são exclusividades de profissionais. Qualquer pessoa tem o direito de levar seu hobby a sério e ter acessórios que melhoram o resultado.

– sei que essa é uma decisão de uma instância maior, mas preciso dizer: a pressão negativa sobre qualquer coisa que pareça equipamento profissional, e mesmo a proibição de profissionais fotografarem é um grande tiro no pé. A fotografia digital e a internet mudaram tudo.

– Quando você toma medidas que coíbem as pessoas de fotografarem bem, você está dizendo “só quero fotos de aparência bem amadora divulgando meu parque. Não quero imagens chamativas e impactantes”. Isso faz algum sentido?

– os amadores oferecem a possibilidade de divulgação gratuita, em alguns casos de qualidade e entusiasmada. Multiplicada para amigos, familiares, redes sociais. Os profissionais? Mais ainda. Se coubesse a mim decidir, eu buscaria formas de atrair os profissionais para fotografarem no meu parque, em vez de afugentá-los com taxas. Vocês têm ideia do alcance das imagens bonitas?

– entendo que fotografia e filmagens de casamento não combinam com parque lotado no final de semana. Mas proibir a pessoa de usar um tripé para fotografar uma flor, um inseto, o namorado, a mulher grávida? Qual o problema? Atrapalha o caminho? Basta as pessoas ou um segurança pedirem licença, ou no cartaz estar escrito “atenção para não atrapalhar o fluxo das pessoas”.

– Não seja antiquado. Entenda que essa regra sobre o tal uso comercial das fotos até podia fazer sentido no passado, mas que hoje com as câmeras digitais, internet e redes sociais, as fotografias deviam ser incentivadas.

 

Sobre a luta pela liberdade de fotografar a natureza