Para entender este post

Claudia Komesu: em abril de 2018 mandei um email para vários birdwatchers, colo um trecho aqui:

“Vamos fazer e falar coisas pra que o birdwatching diminua o foco de ego-e-vaidade, lifers-likes-fotões, pra que as pessoas passem a se importar mais com preservação da natureza? Não espero que ninguém deixe de ser tarado por lifers e também respeito que algumas pessoas gostem de ser competitivas. Mas a gente tem que dar um passo adiante, certo? A gente tem que fazer as pessoas se sentirem mais responsáveis pela natureza.

Sei que tem muita gente que já vê desse jeito, que já trabalha pela natureza, ou que gostaria de fazer algo, não apenas aumentar a Life List. Acredito que se muitas pessoas começarem a falar disso, a gente consegue realizar o sonho de associar de forma forte passarinhar com preservar. Como podemos fazer isso?”

Algumas pessoas me responderam, e a partir das respostas delas, em especial a resposta do Igor Camacho, mudei para duas perguntas:

1 – Na sua opinião, qual deveria ser a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

2 – O que você tem feito, e que outras ideias você acha possíveis, para incentivar a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

Compartilho abaixo, com a autorização dos autores, as respostas para estas perguntas.

Quem sabe ler sobre o que os colegas estão fazendo e pensam sobre o assunto ajude a inspirar e dar forças para agir pela natureza. Qualquer birdwatcher ou outro amigo da natureza está convidado a participar, basta me mandar um email claudia.komesu@gmail.com. Posso acrescentar neste post, ou se você quiser escrever mais sobre o tema, faço um post só pra você, como fiz pro Geiser Trivelato, que tem ajudado bastante na divulgação e proteção da natureza.

Obrigada!

 

Alessandro Abdala

Acredito que o caminho é mesmo o da informação, ter cada vez mais gente falando e divulgando, e principalmente agindo diferente com relação as questões de preservação e valorização da natureza.

Eu continuo minha luta, procurando dar minha contribuição por essa causa tão importante e infelizmente tão desprezada.

Tenho andado bastante divulgando o livro, feito palestras em escolas, eventos culturais etc, sempre falo sobre preservação, das ameaças que a natureza sofre aqui na região, principalmente do atual modelo de agronegócio (que é a principal ameaça por aqui). Percebo que as pessoas não têm noção de como a alteração no ambiente prejudica as espécies mais sensíveis, então procuro sempre deixar claro que se você tira o campo nativo, e coloca brachiaria, acabou para algumas espécies, o resultado é a extinção naquele local.

Estou trabalhando também na elaboração de um guia de bolso, com as principais aves da canastra. Esse trabalho vou imprimir por conta própria (se não conseguir patrocínio) e distribuir nas portarias do parque e nos principais pontos turísticos por aqui.

Uma outra coisa que estou fazendo é um cartaz, junto com uma pequena cartilha sobre a águia-cinzenta. Tive notícias de que moradores de uma fazenda no entorno do parque teriam envenenado um casal de águias, sob a alegação de que estariam predando galinhas… Não sei se é verdade, mas isso me motivou a visitar as fazendas, deixar um cartaz, um panfleto ou cartilha explicando sobre a importância e raridade dessas águias, tentando mostrar para as pessoas, inclusive, que esse bichos podem render mais financeiramente que galinhas no quintal… Estou trabalhando nesse projeto, e pretendo começar a executá-lo a partir de julho.

Durante muitos anos participei e cheguei até a dirigir uma ONG ambiental aqui em Sacramento, brigamos muito, conseguimos que uma grande usina hidrelétrica que estava sendo construída na época, revisasse o seu projeto de implantação e adicionasse uma escada para peixes, para amenizar o impacto na migração das espécies. Durante muito tempo batemos de frente com os grandes fazendeiros, principais desmatadores, cheguei até mesmo a ser processado, junto com outros integrantes, por denunciar o desmatamento ilegal de áreas protegidas do Cerrado. Mas é uma luta inglória, hoje o grupo se dispersou e o Cerrado segue sendo eliminado.

Acho que cada um fazendo a sua parte, à seu modo, é o primeiro passo para a construção de uma consciência diferente….

Conte sempre comigo se precisar de ajuda nos seus projetos.

— resposta a algumas perguntas de Claudia Komesu:

Tenho guiado, mas pouco. No máximo um ou dois passeios por mês, que é o que eu consigo conciliar com minhas outras atividades. Mesmo porque, quando comecei a guiar, há mais de 10 anos, praticamente somente eu e o Zé Maria guiávamos na Canastra, a região era ainda relativamente pouco conhecida, as pessoas queriam vir e não encontravam serviço de guia e eu achava importante poder mostrar minha terra, mostrar paras pessoas quanta coisa legal temos aqui. Hoje o cenário mudou (para melhor) o turismo cresceu muito por qui, temos várias pessoas prestando serviço de guia, então acho que posso me dar ao luxo de passar um pouco a bola para a “nova geração”.

Sempre procuro levar a conversa com os clientes pro lado da preservação, falar da nossa responsabilidade maior, como pessoas que estão sempre em contato e gostam da natureza, mostro e comento sobre os problemas aqui da Canastra… Mas eu “sinto” a pessoa, se é alguém que demonstra sensibilidade pelo assunto, aprofundamos a conversa e debatemos alternativas, se a pessoa não demonstra interesse, também não insisto. Talvez algo que ajudasse seria termos um material impresso tratando do assunto, que pudesse ser usado pelos guias unificando esse discurso, algo que pudéssemos oferecer ao cliente, para que levasse consigo e pudesse replicar para outras pessoas…

 

Claudia Komesu

“(…) Não quero criticar pessoas, quero que a gente pense como comunidade. Tudo que fazemos publicamente repercute e influencia. Tenho certeza de que se várias pessoas começarem a falar mais sobre proteção à natureza, podemos fazer com que isso se torne um assunto importante, talvez tão importante quanto lifers.” Mais em:

Qual deveria ser a relação entre birdwatching e conservação? Maio/18, por Claudia Komesu

 

Fabio Barata

– Na sua opinião, qual deveria ser a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

Acredito que essa relação ainda seja mínima, uma vez que existem poucos projetos atrelando birdwatching e preservação ambiental, mas acredito que involuntariamente muitos observadores de aves acabam ajudando na preservação do meio ambiente a partir do momento que divulgam suas fotos nos seus grupos sociais, familiares, redes sociais, mostrando as lindas aves que a natureza nos oferece e acabam levando esse conhecimento e um sentimento a essas pessoas que devemos preservar mais as nossas matas, rios e meio ambiente em geral. Com essas atitudes acredito que devagar essa relação vem sendo construída.

– O que você tem feito, e que outras ideias você acha possíveis, para incentivar a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

No ultimo mês lançamos uma campanha onde 20% de todo valor de guiada que envolvesse observação do papagaio-de-cara-roxa será doado par ajudar no custeio do projeto de preservação junto ao C.E.B Cara Roxa em Itanhaém. Sei que é muito pouco ainda, mas temos atividades de palestras em escolas e algumas instituições parceiras, fora o trabalho de educação ambiental no Bairro do Guaraú, organizando saídas de campo, convidando a população local por meio de eventos como Global Big Day e Big Day Peruíbe, eventos 100% gratuitos.

 

Geiser Trivelato

“(…) Pois se estamos atrás de alguma espécie em particular, ela só existe e vive ali porque tem todo um meio ambiente propício para ela viver. A natureza é uma rede, como uma teia da vida, onde tudo funciona interligada, todos os seres vivos e o ambiente interligados e em equilíbrio.” Mais em:

Qual deveria ser a relação entre birdwatching e conservação? Maio/18, por Geiser Trivelato

 

Igor Camacho

Sobre a ajuda, doar dinheiro sempre achei suspeito. Ainda que certos projetos tenham sua face honesta, sabemos que se tratando de capital, até nas doações tem alguma margem de lucro para as ONG/empresas e acho podre tal ganho com ajuda. Por isto sou favorável às atitudes em conjunto ao povo e a ONG que não tenham cunho empresarial, como aquelas que foram formalizadas apenas para terem CNPJ para tocar processos judiciais/administrativos contra ações desfavoráveis ao meio ambiente. Quando atuo junto a ONG que tenham este cunho empresarial, ofereço minha mão de obra. Neste caso há o ganho na mais valia, mas aí é ser Marxista demais rsrsrs!

Uma outra alternativa que estou estudando junto a Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA) é converter cada dia de guiada ou pessoa guiada (que pague pelo serviço) em uma muda para reflorestamento (os custos desta, na verdade). Tais mudas poderão ser monitoradas pelos birders.

Sou favorável à esta posição da Tietta de buscar parcerias com RPPN ou Parques, quando possível. Há também que cobrar certas atitudes dessas instituições, como cobrar políticas públicas, mais infraestrutura (principalmente de parques) e agir com honestidade (no caso de RPPN. Neste caso exclusivo, descobri por um acaso, muito acaso mesmo, que um corte seletivo de madeira que encontrei em uma das andanças que fiz no entorno da RPPN era para suprir a demanda da própria RPPN! O cara “protegia” sua reserva, mas detonava a área desprotegida do entorno!!!!).

Gosto também de divulgar trabalhos de artistas relacionados ao meio ambiente (passarinhos principalmente).

Algo que faço e tenho tido um retorno muito legal é o “treinamento” de guias locais. Sempre que encontro um mateiro gente boa (quase todos são) e que vê na observação de aves uma oportunidade de renda e mudança de perspectiva sobre o uso da natureza, os ajudo em tudo o que posso, desde doação de livros-guia (já perdi a conta de quantos que doei Brasil afora rsrs), equipamentos (binóculos velhos, gravadores de mão, MP3 players com cantos…), compartilhamento de conhecimento e até o treinamento de condução de passarinheiros e divulgação / indicação, convidando-os para me acompanhar e os pagar por isto.

Há também a parceria com universidades/instituições de pesquisa, onde você cede diretamente a eles informações sobre espécies. Acho que todo guia deveria ter um “Meu cientista favorito” e ceder seus dados ou formar parcerias para publicações e divulgação científica. Apesar de eu ser biólogo e mestre, larguei a obrigatoriedade da produção científica e passo a bola para amigos mais engajados.

Bem, sempre tem outras ajudas como dar atenção para aqueles que te param no meio do seu trabalho para contar “causos” de passarinhos ou sanar dúvidas, emprestar seu binóculos para as crianças e adultos que ficam curiosos em saber o que você está vendo no alto de uma árvore ou no meio da brenha… rsrsrs

É difícil pontuar tudo o que você faz para ajudar o meio ambiente/ conservação da avifauna quando você faz observação de aves com amor. Tudo o que você faz, no fundo, é para ajudar. Tudo!

Sobre o ego… não dá para esperar nada do outro. As vezes vejo que a motivação egocêntrica vem de berço, de outras atitudes cotidianas e que são refletidas no birding. A procura por lifers e likes talvez seja para suprir “carências Freudianas” e isolar isto para um problema exclusivo à observação de aves é descontextualizar o problema. Essas pessoas precisam muito de carinho, de amor… e talvez com menos ataques aos lifer-like hunters e mais demonstração das diferentes facetas da observação de aves possa mudar uns ou outros. Um certo dia guiei um senhor que me contratou dizendo ser caçador de lifers. Nada mais importava a ele, apenas espécies novas. Os primeiros dias foram difíceis, pois sempre havia “dilemas” como deixar o bicho no limpo ou não achar aquele que ele queria. Mas depois de muita atenção e, mesmo ele não querendo no início, ele adorou as prosas sobre “observar mais que aves” e hoje vive me perguntando coisas sobre conservação e cultura. É fato que ser “intolerante a intolerantes” é uma controvérsia necessária. Mas temos que ter cuidado para neste ciclo não sermos tão contrários ao ponto de sermos tão parecidos. Entende? Você vai pelo caminho certo em seus textos. Quem os lê, percebe que existem “muito mais coisas entre o céu e a terra do que nossas lentes podem captar”. Mas temos que fazer isso na paz, pela beirada. Um dia esse quadro vai mudar e essa febre de lifer vai diminuir e a observação de aves poderá ser degustada, não devorada.

 

Ivan Cesar

– Na sua opinião, qual deveria ser a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

Existe total relação! Acabei de dar uma entrevista para o site “Terra da Gente”, do G1, onde procuro mostrar como a observação de aves faz nascer em cada praticante um instinto forte e uma necessidade de contribuir para a preservação da natureza. Não existe birdwatching sem natureza preservada, simples assim! No início achamos importante a preservação dos nossos biomas para que tenhamos aves para fotografar. Depois, esse sentimento vai crescendo, passamos a ver a importância da manutenção dos mananciais, na proteção do solo, no ciclo das chuvas, na prevenção da poluição, no controle da temperatura, na subsistência de comunidades rurais, ou seja, na manutenção do ciclo de vida do planeta!

– O que você tem feito, e que outras ideias você acha possíveis, para incentivar a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

Acho que precisamos encontrar formas variadas de comunicar a importância de preservação. Seja na postagem das nossas fotos ou através de outras atividades / ações. Por exemplo, durante um tempo eu fazia palestras sobre observação de aves e preservação da mata atlântica em Parque Municipais do Rio de Janeiro. Acredito que precisamos de um alcance maior, levando palestras desse tipo para as Escolas Públicas e Particulares. Acredito que as crianças são antenadas e incentivadas podem contribuir para uma mudança e mentalidade.
Em parceria com orgãos ambientais e empresas privadas poderia ser lançada a campanha “Vamos ao Parque”, com dias especiais divulgados nas mídias onde haveriam  atividades para crianças e adultos, com a participação de observadores de aves, biólogos, ornitólogos, agentes ambientais, etc, com atividades e palestras sobre nossa biodiversidade e a importância da preservação e do convívio pacífico com a natureza.

Entrevista ao G1: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/vc-no-terra-da-gente/noticia/observador-usa-fotos-da-natureza-para-disseminar-conhecimento-sobre-as-especies.ghtml

 

João Sérgio Barros

A convite da querida amiga Claudia Komesu resolvi escrever um pouco sobre um assunto que já andei matutando há um tempo atrás e que vai ao encontro do tema proposto.

Hoje em dia não há como negar a grande influência das redes sociais na vida das pessoas. Graças à internet nunca estivemos tão conectados! E influenciados…Vejamos…  Nada é mais importante numa democracia que a opinião pública, ela dita os rumos de uma nação verdadeiramente democrática. É a opinião pública que diz quem será o governante de uma nação. Numa democracia madura os políticos se baseiam na opinião pública para legislar.

Também sabemos que a propaganda exerce uma forte influência na formação da opinião pública. Alguém duvida da importância dos marqueteiros numa eleição? Recentemente um escândalo envolvendo o facebook comprovou o grande poder do marketing político nas redes sociais. Propaganda sempre foi a “alma do negócio”, e quantas vezes já ouvimos “uma imagem vale mais que mil palavras”. Quer acabar com o meu dia? Compartilhe comigo o sofrimento daquelas pobres crianças sírias vítimas da estupidez humana.
E quão deprimente é ver tanto lixo, de toda espécie, circulando na internet?

As redes sociais podem te jogar pra baixo, podem te levantar, te instruir ou ludibriar, dar esperança ou desesperar, tudo depende do que você compartilha. Somos todos influenciáveis, uns mais, outros menos, mas todos somos, ao menos em nível subconsciencial.
Todos já ouviram falar: nós somos o que consumimos. Se consumirmos muita gordura, ficaremos gordos, se consumirmos livros de filosofia, filosofaremos, se consumirmos lixo nas redes sociais certamente isso não fará bem para nossa mente. Mas aonde quero chegar?

Não devemos menosprezar ou subestimar o compartilhamento de nossas fotos nas redes sociais. Tal compartilhamento certamente ultrapassa as fronteiras da vaidade humana. Muito além das curtidas que podem ou não massagear nossos egos, nossas fotos podem impactar o estado de espírito das pessoas e, creio eu, até influenciá-las em suas opiniões. Quantas vezes, desenrolando minha linha do tempo, me pego de saco cheio com tantos debates políticos apaixonados (que quase sempre são irracionais) ou entristecido com as misérias humanas, até que, em mais um curto movimento do indicador, contemplo, já com outro estado de espírito, uma bela foto de um bicho massa?

Nessas horas a arte serve como um bálsamo para as agruras da ignorância humana que hodiernamente se escancaram na palma de nossa mão.Um dia um amigo me contou que sempre que está estressado ou entristecido ele acessa o Faceaves (grupo no facebook que tem como lema “Conhecer para Prese rvar” e que conta com cerca de 22 mil internautas) e encontra alívio imediato nas belas fotos que os usuários cotidianamente postam. Relatos assim não são raros, recebo-os com certa frequência. E com muita satisfação! Outra vez recebi uma mensagem de um garoto de um país vizinho pedindo-me que nunca parasse de tirar fotos. Aquilo me comoveu e comprovou-me o que trago aqui hoje para reflexão.

Nossas fotos são como sementes pulverizadas pelas redes sociais. Dependendo do terreno elas podem brotar como contemplação, prazer, conscientização, um despertar vocacional etc. Divulgando o que a natureza tem de mais belo, nossas fotos são também imagens publicitárias em prol de sua preservação, pois não se tem consciência, sem ciência. Enfim, você pode até plantá-las com objetivos egocêntricos, não importa, continue! Suas fotos têm vida própria, um grande potencial de gerar bons frutos e tornam as redes sociais um lugar muito melhor de se viver.

PS: óbvio que podemos e devemos fazer muito mais pela natureza! O objetivo do texto foi incentivar a maior divulgação possível de nossas aves pelos birders, pois acredito que esse gesto simples, se multiplicado, aproveitando a força das redes sociais, é um mínimo que já pode fazer alguma diferença.

 

Marco Crozariol

Questões de ego-vaidade e preservação da natureza:

Eu acredito que antes do AvesBrasil, e depois o Wikiaves, poucos eram os fotógrafos de aves no Brasil. Quando os sites surgiram, de início a maioria eram biólogos e/ou observadores e só depois que o WikiAves se tornou realmente grande é que as coisas começaram a ir para o lado mais competitivo (isso é o que eu acho, claro). O próprio ranque do site incita diretamente esse tipo de competição. Eu particularmente não vejo problemas diretos com isso, cada um encontra sua felicidade de uma forma, muitos é com super lifers super bem fotografados. Particularmente acho muito difícil mudar a cabeça dessas pessoas sendo que são os números apresentados no site que importam pra elas. Então acho que a sua questão é: como “usar” essas pessoas para a preservação? Confesso que não sei, se eles gostam de competição talvez para realmente ter efeito tenha que ser pensado em algo desse tipo também. A conservação de aves hoje é muito mais eficiente por conta do número de pessoas andando por ai atrás de aves, feeders, guias regionais, já são uma excelente contribuição para isso. Nenhum guia quer que uma área desapareça e ele não possa mais trabalhar lá, o mesmo para um fotógrafo que tenha predileção por determinada área ou espécie. A preservação já acontece como consequência ao meu ver. Quantas denúncias, quantos crimes fotografados e divulgados na mídia que não seriam vistos ou divulgados no passado e hoje são? As próprias criações das ONGs como você citou no exemplo, mesmo se arrastando pela falta de verba, possuem seus olhos voltados para as áreas e espécies e fará o possível para evitar o pior. Além do mais, falar de preservação é algo muito complicado, pois qual seria a real definição da palavra na prática? É não modificar? É não deixar que desapareça? A teia da vida é bastante complexa e estamos aqui olhando basicamente para uma ínfima parte dela (Aves).

Acho que eu mais filosofei do que ajudei em algo, rss. Mas a verdade é que eu não sei bem como mudar isso com a velocidade que queremos, embora eu já veja mais vantagens do que desvantagens nisso tudo. Eu sempre que posso faço minhas postagens no Face ou Instagram, é nada, mas é um pouco da minha contribuição para tentar mostrar como é legal unir a ciência, observação de aves, história e um pouco de conservação.

– Na sua opinião, qual deveria ser a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

O birdwatching em si deixaria muito de ser interessante sem as áreas preservadas e sua biodiversidade.

– O que você tem feito, e que outras ideias você acha possíveis, para incentivar a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

Acho que a maioria dos observadores (com exceção, claro, daqueles que não possuem limites e não respeitam os seus objetos, que deveriam ser, de admiração) já contribui para a preservação da natureza de forma indireta ou direta. Evitar prejudicar a ave para se obter um registro sobre qualquer custo, ajudar na divulgação de locais de observação, ONGs e projetos de pesquisa e denunciar possíveis problemas ambientais encontrados pelas áreas visitadas.

 

Tietta Pivatto

Essa sempre foi a linha do meu trabalho. Desde os tempos da Photo in Natura eu já destinava uma parte do lucro com atividades de turismo para uma OnG de Bonito, e preferencialmente meus roteiros eram feitos em RPPNs. Agora, com a Maritaca, o foco é o mesmo, com apoio a OnGs na região da Serra da Canastra e também somos uma empresa Amiga da SAVE há mais de um ano, destinando parte do valor pago pelos passeios à OnG e também vamos fazer o lançamento do Projeto Aves Raras, em parceria com a Simone Fraga e suas marchetarias. Dá uma olhada no blog da Maritaca (maritacaturismo.blogspot.com.br), tem algumas publicações sobre isso. E sempre que isso é possível, procuramos trabalhar com parceiros que têm os mesmos princípios que a gente. Minhas postagens no blog sempre enfatizam conservação e ecoturismo (aquele de verdade, rs), o mesmo em minhas palestras e cursos.

Vejo muita gente fazendo coisas legais por aí, gostaria que tivesse mais, mas também sei que nem todo mundo tem o gostinho do ativismo. Mas podem apoiar de outras formas, como você faz ao doar valores para entidades que botam a mão na massa.

 

Tomaz Nascimento de Melo

1 – Acho que a observação de aves tem de ser parte da conservação da natureza. Não faz sentido alguém que sai para observar aves (ou no caso do Brasil, colecionar fotos) que não se importe com os problemas de cada região ou procure saber um pouco mais das espécies que fotografa. Nesse sentido os “gringos” que tenho guiado sabem mais sobre os lugares que visitam, conhecem melhor nossas espécies e tem mais vontade de aprender do que nós. Na minha opinião, alguém que observa aves ou a natureza deveria nutrir uma curiosidade e um desejo de conhecer aquilo que procura (as aves, no caso) e tentar entender qual a melhor forma de passarinhar, sem interferir muito na vida das aves. Ao invés de clicar e pensar beleza, mais um número na minha coleção, porque não pensar, puxa, essa espécie é rara e eu encontro só aqui. O que será que tem sido feito para que essa espécie continue aqui? Esse tipo de visão, menos centrada no ego/lifer/topo do ranking do WikiAves e mais quero conhecer as aves que tanto amo melhor e apreciar cada momento da passarinhada independente do que encontro.

2 – Atualmente mantenho uma conta no Instagram como um meio de divulgação científica, incluo em cada foto alguma curiosidade ou informação sobre as fotos, em textos curtos, focando no publico que não é biólogo e tampouco pratica alguma atividade na natureza. Vários amigos que não são da área já falaram que gostam das informações que coloco nas fotos e a ideia de fazer isso no Instagram ao invés do WikiAves é justamente o alcance, no WikiAves só quem já faz isso vai ver, no Instagram qualquer pessoa, mesmo aquelas que não mantém um pendor pela natureza vão ver e podem se surpreender com a biodiversidade que existe bem perto delas.

Antes de entrar no doutorado estava fazendo o Vem Passarinhar no Museu da Amazônia, aos moldes do Butantã, e o foco sempre foram as pessoas comuns, que nunca imaginaram que tinham tantas espécies incríveis em Manaus e muito menos que tem malucos que acordam cedo e viajam atrás desses bichos. Foram dois anos fazendo isso todo sábado e várias pessoas participaram, inclusive 6 delas se tornaram observadores de aves, com perfis no WikiAves e tudo, depois que foram no Vem Passarinhar. Uma pena que o projeto parou por falta de recursos. Há algum tempo, quando descobrimos um sítio no ramal do Pau Rosa, aqui em Manaus, com várias árvores frutíferas que atraíam muitas aves, conversamos com os proprietários a receber os observadores. Em algum tempo eles começaram a cobrar R$25,00 por pessoa e abriam os portões sempre que aparecia um passarinheiro. Se tornaram curiosos e aprenderam a reconhecer as espécies que visitavam o sítio, avisando os guias quais estavam aparecendo e quais tinham sumido. Isso durou mais de 2 anos, mas infelizmente os donos mudaram e não voltei mais lá para ver como tudo ficou.

Enfim, isso é pouco, mas acredito que essas mudanças são aos pouquinhos mesmo. Por fim, quando passarinho com alguém, sempre tento mostrar como é bom ter um estilo relaxado e como é bom conhecer os lugares que andamos, mesmo que não role foto de um tão aguardado lifer.

 

Vinicius Neves

– Na sua opinião, qual deveria ser a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

O birdwatcher é, antes de mais nada, um agente múltiplo de preservação da natureza. É o birdwatcher que contribui para a ciência, enriquecendo importantes bases de dados sobre a ocorrência de espécies nos mais variados biomas. Além disso, fomenta uma indústria de turismo limpa, sustentável e que garante a preservação de unidades de conservação e RPPNs. Por passar grandes períodos no mato, também consegue identificar abusos e crimes ambientais, bem como denunciá-los. É um amigo e contribuidor dos gestores dos partes, passando informações, curiosidades, ocorrências e novidades vistas em suas expedições.

– O que você tem feito, e que outras ideias você acha possíveis, para incentivar a relação entre birdwatching e preservação da natureza?

Sempre acreditei que o birdwatcher é o vigilante extraoficial da natureza, pelas próprias razões que comentei acima. Desta forma, é necessário um trabalho para conscientizar os próprios birdwatcher de que nós não somos meros “colecionadores de figurinhas de passarinho”. Somos gente que está no mato, que sabe observar os detalhes da natureza, e que tem a responsabilidade em não se omitir a abusos e crimes ambientais observados. Se todos passarem a ter essa consciência, certamente nos tornaremos agentes de mudança, em prol de uma maior preservação do meio ambiente.

Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)