Na verdade eu não sei quantos são bandidos. Sei que há muitos bandidos a ponto de aparecerem notícias no jornal sobre apreensões do Ibama, anilhas abertas, documentos falsos. Mas eu tinha um canário quando era criança. Meu tio e minha prima criam canários. Conheço vários observadores de aves, pessoas ótimas, que antes eram criadores de aves. Sei que há milhões de casas com aves em gaiola, porque há 500 mil criadores cadastrados no sistema do Ibama. Como eu posso dizer que qualquer um que tem ave em gaiola é uma má pessoa?

Texto: Claudia Komesu

Que Deus me proteja e me ilumine, mas aqui vamos nós. Aqui estou eu, vencida pela força dos números.

Se você não é observador de aves, você não imagina a dificuldade dessa decisão. A de que eu não vou dizer que qualquer um que tem aves em gaiola é uma pessoa ruim. A ideia maluca de divulgar birdwatching para criadores de pássaros.

Há uma condenação moral enorme sobre as pessoas que criam aves em gaiola. Para ter uma ideia, já li no site do Ibama, em letras pequenas, numa seção meio escondida, mas estava lá, e esse é a ideia “ter aves em gaiolas é condenar um inocente à prisão perpétua”.

Conheço gente que atravessaria a calçada para não passar perto de alguém que tem aves em gaiola. São expressões tão fortes de repúdio que eu quase desisti da ideia de que a Virtude iria falar com os criadores.

Mas tenho um marido economista. Foi ele que me convenceu.

“Claudia, são 500 mil criadores cadastrados no sistema. Ou seja, com certeza há milhões de casas com aves em gaiolas. Milhões. Gente que já se interessa pelos bichos, e você já me contou as histórias de gente que deixou de criar aves para só observá-las livres. Você vai ignorar esses milhões de pessoas?”

“Tá certo, não posso falar tratar todo mundo como traficante”

“Não, é mais do que isso. Não é só não fazer campanha contra. Você deveria ir falar com eles, mostrar o birdwatching”.

 

Eu nunca gostei das campanhas negativas, as que criticam os criadores de pássaros. Achava que o argumento não era bom, e pouco eficaz para alguém que faz aquilo há anos, que o pai fazia, o avô fazia, os amigos fazem. Sempre pergunto para as pessoas se elas acham que funciona. Já tive como respostas “o mais importante não é funcionar, o que eu quero é dizer que eu não gosto disso”, e “é que nem campanha de cigarro, de tanto martelar uma hora a pessoa muda de ideia”.

Eu acho que não funciona, que pode até atrapalhar, porque pode criar uma aversão ao birdwatching, que comprovadamente faz uma pessoa deixar de ter aves em gaiolas. Temos vários colegas birdwatchers que antes criavam aves, e é comum a história de que um dia eles descobriram que há uma diversidade enorme de aves, que podem ser observadas na natureza. A pessoa passou a se interessar cada vez mais pelo birdwatching, e foi largando as gaiolas.

 

Vejam, não tenho nenhuma ilusão de que é isso que vai acontecer quando os criadores descobrirem o birdwatching. Aprisionar animais é um costume tão antigo quanto o próprio ser humano. A maioria das pessoas que têm aves em gaiolas tem pais, avós, primos e melhores amigos que também têm aves em gaiolas. Isso não é algo que muda de uma hora para outra.

Não gosto de ver aves em gaiolas, e não defendo nem promovo a atividade, pelo contrário, gostaria que isso não fosse algo tão enraizado no Brasil, tão abrangente. Mas o fato é que é. Milhões de pessoas, há gerações. Um interesse que possibilita a existência do tráfico de animais silvestres, que tortura e mata milhões de animais todos os anos.

Você já leu notícias sobre apreensões do Ibama? Desidratação, caixas minúsculas, vários animais mortos, animais apreendidos mas que morrem no pátio do Ibama ou que têm que ser sacrificados porque não há recursos financeiros para os procedimentos de profilaxia que precisam ser feitos antes de soltar as aves, asas cortadas, garras quebradas, animais que foram cegos, receberam bebida alcoólica, ou que tiveram bolinhas de chumbo enfiadas no ânus para ficarem dóceis. É um show de horrores.

E vai continuar existindo enquanto tiver mercado.

É por essas e outras que meus colegas têm repúdio pelas pessoas que têm aves em gaiolas.

 

Se eu pudesse estalar os dedos e todos perdessem o interesse por criar aves, ou se eu descobrisse que as campanhas de crítica fazem a pessoa se sentir envergonhada e imediatamente largar o hobby…

Mas não há solução mágica e não consigo acreditar que a campanha de crítica funciona. E me dói o coração pensar nos milhões de animais torturados e mortos. Só me resta fazer a única coisa que eu sei que funciona. Vou tentar apresentar o birdwatching aos criadores de aves, e torcer para que com o tempo, algumas pessoas mudem de interesse.

 

O desejo de ter um animal cativo alimenta o tráfico de animais silvestres, uma atividade lucrativa e hedionda que tortura e mata milhões de aves e outros animais todos os anos. A polícia não consegue acabar com os crimes, os infratores voltam a caçar. Os animais são transportados em caixas minúsculas sem água, alimento ou ventilação. De cada 10 aves caçadas, 8 morrem na captura ou no transporte. Se sobreviver, para parecer mansa a ave pode ter os olhos cegados, ser forçada a beber álcool, e há até casos em que o traficante enfia bolinhas de chumbo no ânus da ave. A ave também pode ficar com membros atrofiados por passar muito tempo confinada em uma gaiola pequena.

Não contribua para a cadeia do tráfico. Se for comprar uma espécie silvestre, tenha certeza absoluta de que ela veio de um criadouro honesto, e não de um bandido.