Confesso que quando adquiri a Guainumbi não pensava em trabalhar com turismo, muito menos com birdwatching. Na verdade, nem conhecia essa palavra, apesar de, sem saber, já ser um observador de aves por herança. A criação da reserva ecológica é fruto de um sonho de infância, plantado através de uma educação familiar voltada para a honestidade, educação e respeito pela natureza. Devo 90% desse projeto ao meu pai, João José da Costa, que me ensinou os verdadeiros valores da vida e me deu as primeiras inspirações e apoio para que este sonho virasse realidade.

  • Texto: João Marcelo da Costa, dono da Reserva Guainumbi, uma reserva particular de Mata Atlântica prestes a se tornar RPPN – Reserva Particular de Patrimônio Natural. Localizada em São Luis do Paraitinga – SP, entre Taubaté e Ubatuba.

Na minha família tinha caçadores de aves, acho que a maioria das famílias tiveram. Passarinho era para se colocar em gaiola, não era livre, era de quem o pegasse primeiro e para mim sempre foi muito traumático ter que conviver com essa realidade. Desde criança queria ser médico de bicho e dez anos após me formar em medicina veterinária, relativamente estabilizado profissionalmente e com uma boa dose de ajuda familiar, coragem e desprendimento, conseguimos a primeira área da futura reserva, o Sítio Itatinga em São Luiz do Paraitinga-SP e, em pouco menos de um ano, a sua extensão, o Sítio Sapê, as duas áreas que, vizinhas, com 70ha, iriam se unir para criar a futura Reserva Particular de Patrimônio Natural Guainumbi

Meu pai mantinha em uma chácara de família, comedouros e bebedouros para as aves e a primeira e instintiva estrutura que fizemos na reserva foi um pequeno comedouro e um bebedouro para aves. Mal sabíamos que aquilo daria uma nova forma de relação da floresta com as pessoas. No mesmo dia que os instalamos, dezenas de beija-flores invadiram a varanda da casa e não tivemos como dar a reserva outro nome senão Guainumbi, que significa beija-flor em tupi-guarani. Curiosamente, foram através dos comedouros que conhecemos as principais espécies da região e são através deles que sentimos que “formamos” novos observadores de aves a cada novo curioso que visita a reserva.

Apaixonado por animais, a alternativa de sustentabilidade acabou virando consequência. Fotografando aves, plantas e outros animais, com o intuito de fazer o levantamento da fauna e flora da Guainumbi e procurando ajuda nas identificações, acabei conhecendo, pela internet, muitas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu e o turismo de observação e fotografia de natureza, principalmente aves, “caiu como uma luva” para a reserva e, após três introspectivos anos, começamos a receber visitantes aos poucos e nos especializando na atividade.

Com uma pequena pousada, começamos a receber observadores e fotógrafos de aves e da vida selvagem, praticantes de ecoturismo e pessoas que, simplesmente, gostavam de estar em contato com a natureza, de uma maneira segura, tranquila e privada. Em 3 anos e meio de atividade, fizemos mais de quarenta eventos ligados ao birdwatching, recebemos mais de setecentos visitantes, entre estrangeiros e brasileiros, na sua grande maioria, ligados de uma forma ou de outra, ao amor pela aves em liberdade.

Não vou dizer que foi ou está sendo fácil. O sonho de provar que é possível a sustentabilidade de uma área de preservação ambiental exige esforços inimagináveis, antes mesmo da RPPN estar formalmente constituída. Mas cada visitante que recebemos, cada elogio que nos chega por e-mail ou nos é entregue pessoalmente na reserva, nos dá mais força para continuarmos nossa batalha em busca da tão sonhada criação da RPPN e da autonomia da Guainumbi…

 

Participação de João Marcelo da Costa na Virtude-AG