(…) Para nossa surpresa, começaram os comentários de que não seria um Spizaetus ornatus (gavião-de-penacho), mas um Leptodon cayennensis (gavião-de-cabeça-cinza), numa fantasia fantástica do primeiro. Vários colegas do site ponderaram tal afirmação, baseando-se em dados como o tamanho do bico, a posição do olho, a proporção das asas e da cauda, o tamanho das garras, etc.

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Gavião-de-cabeça-cinza juvenil com a plumagem que imita o gavião-de-penacho.

 

Em 20 de março deste ano eu, juntamente com os amigos Anselmo D’Affonseca e Eleonora Pinheiro, resolvemos dar uma passarinhada na região de Santarém, oeste do Pará, mais precisamente na Flona do Tapajós, poucos quilômetros ao sul de Alter do Chão, um distrito de Santarém muito famoso aqui na região norte devido às belíssimas praias ao longo da margem direita do rio Tapajós. Nesse ponto do rio, as margens podem ficar até cerca de 30km de distância uma da outra, não sendo possível ver o outro lado. Parece um mar, realmente.

Em Alter do Chão fomos recebidos pelo Edson Lopes, responsável pela Flona do Tapajós, e que nos concedeu as devidas autorizações para visitar a área, além de explicar os acessos aos vários pontos de interesse.

Chegamos na Flona no final da manhã, e já no início da tarde fomos em direção a uma das duas torres de observação que existem por lá. No caminho, pudemos observar a exuberância da floresta primária que domina o local. Uma quantidade absurda de árvores de grande porte, tanto no quesito altura quanto no quesito diâmetro. Lá do chão, a impressão que se tinha era de que várias árvores superavam facilmente os 40 metros de altura.

Depois de alguns quilômetros floresta adentro, chegamos na trilha que leva à torre, e esse trecho teve que ser percorrido à pé. Muitas árvores em volta da torre, quase não se consegue vê-la, exceto quanto se está bem próximo. Ela tem cerca de 45 metros de altura, toda feita em alumínio, o que evita a corrosão. É totalmente desmontável e sua estabilidade é mantida por vários cabos presos ao chão. À medida em que vamos subindo os degraus, podemos admirar a beleza desta floresta, em seus vários níveis, até chegarmos à copa. Lá em cima só há lugar para 4 ou 5 pessoas no máximo, mas o visual é incrível. Mais incrível ainda é vermos que apesar da altura em que estávamos (40 metros), vimos muitas árvores ao nosso redor passar com folga da altura da torre, entre 50 e 60 metros de altura. Aquela sensação que tínhamos no chão era, afinal, verdadeira. Poucas vezes presenciei tantas árvores gigantes tão próximas umas das outras.

Talvez pelo horário, não estávamos vendo nem ouvindo muita coisa, quando a amiga Eleonora comentou:

– Acho que chegou algo grande aqui em cima.

Ficamos os 3 tentando ver o que havia pousado na copa acima de nós, quando a ave resolveu voar para a outra árvore na nossa frente. Nessa hora, todos viram o que nos pareceu ser um gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus). Havia vários galhos entre nós e o gavião, e o pouco espaço na torre dificultava a obtenção de fotos boas, além do bicho estar bem na sombra, de costas, e com um contraluz forte.

Poucas fotos depois a ave voou para longe e não mais reapareceu. Eu ainda consegui uma foto dela começando o voo, onde é possível ver o padrão das penas do peito de dos calções.

Para um primeiro dia de observação, foi muito proveitoso.

Como é de costume, à noite demos uma olhada nas fotos feitas durante o dia, e reparamos nesse gavião, no próprio visor da máquina fotográfica. Ainda que o jeitão dele fosse meio estranho, ninguém supôs que não se tratava de um Spizaetus. Na pior das hipóteses, um Spizaetus esquisito mas, ainda assim, um Spizaetus.

Ainda ficamos por mais 2 dias na Flona, onde pudemos fazer vários registros interessantes, embora esse gavião nunca mais tenha retornado àquele ponto. Voltamos para Manaus no dia 24 e dias depois estávamos publicando as fotos feitas por lá, inclusive as desse gavião.

Para nossa surpresa, começaram os comentários de que não seria um Spizaetus ornatus, mas um Leptodon cayennensis (gavião-de-cabeça-cinza), numa fantasia fantástica do primeiro. Vários colegas do site ponderaram tal afirmação, baseando-se em dados como o tamanho do bico, a posição do olho, a proporção das asas e da cauda, o tamanho das garras, etc. Até que não tivemos mais dúvidas de que se tratava mesmo de um Leptodon, Já se sabia que esta espécie imitava alguns gaviões de grande porte, como Spizaetus ornatus e Spizaetus melanoleucus, na fase jovem da sua vida, mas nenhuma dessas variações de plumagem chegou a tal nível de precisão, a ponto deste indivíduo apresentar um longo penacho ( coisa que o adulto não tem ), o padrão da face completo, e o peito e ventre riscados horizontalmente de preto. Parecia ter, até mesmo, uma quantidade maior de penas no tarso, quase chegando aos dedos.

Este achado agitou ornitólogos e observadores de aves em geral pela raridade do conjunto e, provavelmente, vai desencadear pesquisas mais detalhadas sobre a espécie. A despeito do que se possa descobrir no futuro, fico muito satisfeito em poder colaborar desde já com novos conhecimentos, sejam imagens ou informações. O fato em si mostra, também, a importância que tem a atividade de observação de aves na natureza, para a ciência. Muitas novas descobertas e registros foram feitos por pessoas que não faziam parte da comunidade científica. Eram simplesmente observadores apaixonados pelo que faziam, e que estavam no lugar certo e na hora certa.

Quem frequenta nossas matas com regularidade, de vez em quanto é brindado com uma surpresa dessas. Além dos meus amigos que partilharam dessa aventura comigo, quero parabenizar a todos os milhares de observadores de aves pelo Brasil que ajudam de forma contundente a conhecermos cada vez mais as nossas aves. E quanto mais as conhecermos, melhor as protegeremos.
Robson Czaban, de Manaus/AM

Gavião-de-cabeça-cinza junivel com a plumagem que imita o gavião-de-penacho.

Gavião-de-cabeça-cinza juvenil com a plumagem que imita o gavião-de-penacho.

 

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