fogo wwf luiz fernandes

 

A paisagem é sublime. Campos de altitude nas belas serras mineiras. No meio do capim, no Parque Nacional Serra do Cipó, vários ninhos de tico-tico-do-campo, caminheiro-zumbidor, codornas, perdizes e outras aves. É primavera, e por causa disso o zumzumzum é intenso. Pais zelosos chocam seus ovos até que os filhotes nasçam. Aí começa o árduo trabalho de alimentar os pequenos insaciáveis que precisam crescer e aprender a voar rápido. Olhares atentos procuram possíveis predadores por perto. E eles estão por perto. A coruja-buraqueira e o gavião-caboclo também estão com ninhada. Os da coruja, dentro da toca embaixo do cupinzeiro nos campos do Parque Nacional Serra da Canastra, observam o tamanduá-bandeira se aproximando em busca de cupins. Tem um filhote nas costas dele que ainda se alimenta apenas do leite materno, mas logo aprenderá a comer larvas também.

Na Reserva Biológica Serra do Japi, em São Paulo, um sabiá-laranjeira voa no meio da mata, desconfiado, buscando insetos. Embora sua dieta seja rica em frutas, precisa de proteína para alimentar seus vorazes filhotes, e o casal se reveza para encontrar alimento para os três insaciáveis. Na Serra da Cantareira os bugios passeiam silenciosamente por entre as copas das árvores, ensinando seus filhotes a reconhecer os brotos comestíveis. O mesmo faz o bicho-preguiça na mata amazônica. Nem todos os brotos são alimento, e a mãe ensina o pequeno a comer o broto da embaúba, nutritivo e abundante na floresta.

Assim é a primavera no Brasil, uma explosão de vida em todas as paisagens. Uma diversidade enorme de animais estão em pleno período reprodutivo. Filhotes emplumados nos ninhos, jovens mamíferos peludos nas costas dos pais ou escondidos em tocas, répteis camuflando seus ovos. Todo ano a vida se renova.

Mas este ano não.

Um barulho crepitante se aproxima. O vento torna-se mais quente e o céu tinge-se de cinza, cinza escuro, negro, vermelho! O ar fica denso e tóxico, e o calor, o fogo, vem rápido e voraz, devorando a paisagem seca. O terrível som do fogo.

O tico-tico-do-mato está aflito. Seus filhotes ainda não sabem voar. Estão protegidos no capim, que o fogo consome rapidamente. Não há o que fazer e, nos segundos de indecisão, acabam os pais também sendo consumidos pelas chamas. E o caminheiro-zumbidor, e a codorna, e a perdiz. As corujas se escondem na toca e conseguem sobreviver no abrigo, mas mesma sorte não tem o tamanduá. Seus passos lentos não são suficiente para escapar, e o fogo queima sua cauda, atinge a pele e a dor o faz correr desesperado, espalhando mais fogo no capim seco. O fogo também atingiu o filhote. Os dois morrem carbonizados num último abraço.

O lobo que correu e conseguiu pular as labaredas, mas ao preço de queimaduras terríveis nas patas e no focinho, impedindo-o de se alimentar. Talvez sobreviva, ou morra lentamente de fome, sede, infecção. Também não tiveram sorte os filhotes do sabiá, consumidos pelo fogo que engoliu a floresta. E nem os bugios, cercados pelo fogo de todos os lados. E nem a preguiça. E nem os lagartos, cobras e tantos, tantos outros animais.

Aqueles que escaparam do fogo, das queimaduras e da intoxicação terão pela frente um longo período sem comida e água. Alguns conseguirão migrar para áreas não queimadas, mas muitos não terão a mesma sorte. Aves florestais não voam fora da mata, ficarão deslocadas durante a fuga e serão presas fáceis para predadores. Apenas uma pequena parcela sobreviverá.

Este ano, as florestas estão mais tristes. E os campos. E o Cerrado. E a Caatinga. E o Pantanal. Este ano o som e o calor das labaredas transformam nossa diversidade em florestas flutuantes na fumaça cinza que encobre todo o país. Este ano mais e mais filhotes morrem queimados, de fome, de sede, de queimaduras.

Fogo na Serra do Cipó/MG. Fonte: Aves Gerais

Fogo na Serra do Cipó/MG. Fonte: Aves Gerais

Fogo na Serra do Cipó/MG. Fonte: Aves Gerais

Fogo na Serra do Cipó/MG. Fonte: Aves Gerais

Este ano temos mais de 20.600 focos de incêndio só na primeira quinzena de outubro. Todos os locais citados estão queimando. Este ano mais de 20 mil paisagens estão morrendo, nesse instante, queimados pela ignorância, estupidez, ganância, irresponsabilidade, incompetência e ação criminal de alguém. Este ano, mais que nunca, estou de luto, após saber que metade da biodiversidade do planeta desapareceu nas últimas quatro décadas. Me envergonha ser testemunha desse crime universal, mas me escandaliza mais ainda que meu país, um dos mais ricos em biodiversidade do planeta, consome inconsequentemente seus recursos. Seca seus rios, mata seus bichos, elimina paisagens por ganância e ignorância.

Sem Título-1

Brasil em chamas. Fonte: INPE

O fogo é renovador em alguns ecossistemas e pode ser natural em períodos e locais alternados. Pode ser ferramenta para prevenção de incêndios maiores. Mas o que vemos ano a ano é um crime ambiental de proporção nacional. Me acalma a alma angustiada saber que ainda tem gente capaz de lutar pela continuidade da vida silvestre. Gente e instituições que ainda acreditam, que ainda lutam pelo pouco que resta de tudo o que esse planeta já foi. Minha singela forma de contribuir é traduzir nestas linhas o grito silencioso daqueles que não conseguem pedir socorro quando veem seus filhotes morrendo no meio do fogo. E mesmo silencioso, esse é o grito que mais fere meus ouvidos e minha alma…

Fogo em Americana/SP, em área de ninho da ameaçada mocho-dos-banhados. Nem a placa de aviso intimidou o criminoso. Foto: Gustavo Pinto

Fogo em Americana/SP, em área de ninho da ameaçada mocho-dos-banhados. Nem a placa de aviso intimidou o criminoso. Foto: Gustavo Pinto

 

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