Sucupira_preta

 

Folhas verdes são pintadas pelo tempo. Passam por uma metamorfose de cores. O verde escuro dá lugar ao verde claro e se torna cáqui, âmbar, açafrão, mostarda, dourado, ferrugem, grená, jambo, laranja, carmim até o vermelho escuro.

Caem então, despidas pelo vento. Planam sob um céu azul anil e pousam sob o chão multicolorido. Secam vagarosamente e as cores se esvaecem. Permanece o cinzento.

Chega a seca e atinge o seu pico em final de agosto e setembro. Há meses que não chove. Os troncos e galhos se tornam nus. A natureza é melhor descrita por Euclides da Cunha:

Árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante…

É a época seca do Brasil Central e muitas áreas do Sudeste. Raquel de Queiroz descreve o sumiço da água na seca do Nordeste:

Na serra, também, o recurso falta… Também o pasto seca… Também a água dos riachos afina, afina, até se transformar num fio gotejante e transparente.

Aqui no Cerrado a seca não é avassaladora como a da Caatinga de Rachel de Queiroz e Euclides da Cunha, mas nem por isso não deixa suas marcas. A grama seca. Vira cinza. A poeira é trazida pelo vento nordeste e se instala em todos os cantos, das folhas que ainda restam nas plantas, do chão, dos telhados, das paredes, das vidraças; invade a casa sem ser chamada e seca seus dedos que borram as superfícies. As noites se tornam secas masmorras que dilaceram as mucosas dos narizes. Os lábios se modificam em meras estruturas sólidas com rachaduras profundas. A umidade desce a níveis abissais e a fumaça de incêndios florestais invade o cotidiano. O céu perde o azul e fica cinza e sujo. Mais uma vez recorro a Raquel de Queiroz para descrever a tristeza da seca:

Parecia, entretanto, que o sol trazia dissolvido na sua luz algum veneno misterioso que vencia os cuidados mais pacientes, ressequia a frescura das irrigações, esterilizava o poder nutritivo do caroço, com tanto custo obtido. As reses secavam como se um parasita interior lhes absorvesse o sangue e lhes devorasse os músculos, deixando apenas a dura armação dos ossos sob o disfarce miserável do couro puído e sujo. Apenas um desejo as animava: beber sem interrupção a água salobra das cacimbas, como se aqueles goles salgados, mornos, densos, lhes restituíssem saúde e vida. As ovelhas se reduziam agora a dez cabeças lamentáveis que marravam e gemiam, sacudindo a lã imunda pela aspereza dos caminhos, roendo famintamente alguma dura casca de marmeleiro que as cabras desprezavam. Morria tudo.

Os biólogos consideram hoje que existem apenas duas estações do ano que podem ser bem definidas na área ocupada pelos cerrados do Brasil Central: uma quente e úmida e outra fria e seca.

O período seco é caracterizado pela pouca quantidade de chuva e alta evaporação, que deixam o solo cada vez mais seco. As árvores do cerrado possuem mecanismos que facilitam sua sobrevivência e reprodução durante este período seco. Elas desenvolvem raízes profundas, que muitas vezes pode alcançar camadas mais profundas do solo, onde há água disponível. Há também os xilopódios, raízes tuberosas que armazenam água. Outra estratégia para atravessar o período seco é se despir de suas folhas. Assim evitam a perda de água pela evaporação através das folhas.

Cores pela polinização

Ao mesmo tempo, e até paradoxalmente, é na época seca que surgem as flores. Milhares de flores violetas das sucupiras contrastam com o fundo cinza da paisagem. As espadas vermelhas ou adagas de tons salmão dos mulungus se lançam para cima em busca de beija-flores famintos. Os ‘cachos de uvas’ repletos de pequenas flores de tom cinza das aroeiras se penduram em finas hastes a grande altura e mostram sua identidade. Todas as orquídeas, selvagens ou não, grandes ou minúsculas, solitárias ou em cachos, soltam suas cores em flores das mais variadas formas. O ipê-roxo explode em botões com ramalhetes densos e majestosos. As buganvílias se enchem de brácteas rosa, vermelhas ou brancas por todos os seus ramos. Os estames brancos das cagaiteiras mimetizam as cerejeiras japonesas em maior esplendor que nos sonhos de Kurozawa. Até mesmo as palmeiras abrem suas brácteas secas e longas e revelam as incontáveis e minúsculas flores amarelas. Ipês-amarelos, ipês-rosa e ipês-brancos deflagram a apoteose do período seco. Toda essa profusão de formas e cores acontece nos meses de julho, agosto e setembro, ápice da época seca.

Na verdade, todas estas árvores e arbustos estão sentindo o que os biólogos chamam de stress hídrico, o déficit de água no solo. Estas árvores, como num último suspiro, congregam todas as suas energias para produzir flores. O máximo de flores possíveis com o máximo de vigor e beleza possível a fim de atrair alguém que as polinize, que as transforme em frutos que possam atrair dispersores que as despejem em local adequado e que assim possam germinar, se transformar em plântulas, enraizar, sobreviver, vencer e se perpetuar por mais uma geração. É a loteria da vida: se reproduzir para se perpetuar, sem razão, sem direção, sem sentido maior algum. Apenas um processo químico, onde ácidos encapsulados no meio de diminutas células tão somente buscam sua transcendência a qualquer preço.

Na maior parte do centro-oeste e sudeste do Brasil a chuva acaba chegando e transformando mais uma vez o cinza em verde. No nordeste nem sempre isso acontece, e o cinza se perpetua por meses a fio, talvez anos. A chegada do equinócio da primavera nos trará o verde novamente e com ele os frutos, os insetos, as pererecas, as aves, e assim tudo recomeçará num eterno retorno.