madrugada-beija-flor (1)

É quase inverno, fim de maio, começo de junho, os dias mais curtos do ano, e muitas vezes os mais frios. Mais uma segunda feira onde tenho que acordar antes mesmo do Sol. Aproveito a oportunidade para observar o céu e escutar os sons desse momento do dia, que dura tão pouco. É mágico ver as últimas estrelas se apagando no céu azul petróleo. As aves já gorjeiam, ainda que timidamente no inverno, não necessariamente nas palmeiras como no poema.

O problema é que meu termômetro, localizado na varanda, marca 13 graus Celsius. Isso mesmo: está frio. Sinto a umidade da neblina que sobe pelo vale, penetra por entre as frestas da minha roupa e congela os meus ossos. Estou todo encasacado. Sei também que por volta das três da tarde estaremos sofrendo de calor, e geralmente chega-se a 25 graus. A diferença de temperatura entre a madrugada e o meio do dia é radical: doze, às vezes quinze graus. Pode parecer pouco, mas isso acontece de repente. Essa é uma das características do inverno nas savanas tropicais. Nos desertos é muito pior.

Por curiosidade vou visitar o ninho do beija-flor eremita, construído dentro da casinha de madeira onde dormia minha cachorra (ela já nos deixou e agora a casinha jaz solitária no jardim). Miro a lanterna acesa e lá está ela, a fêmea do eremita sobre os ovos, ainda firme e forte. Como estas aves tão pequenas sobrevivem a este frio?

É uma pergunta pertinente, pois animais endotérmicos, que produzem calor corpóreo a partir da queima de energia retirada do alimento, também perdem esse mesmo calor através da pele. O problema é que essa perda de calor é proporcional ao tamanho do animal. Isso precisa ser explicado, pois se trata de um princípio matemático muito pouco intuitivo. Este princípio mostra que à medida que um objeto ou corpo aumenta em tamanho, o seu volume cresce mais rápido do que a sua superfície. Isso significa que pequenos objetos ou corpos têm uma grande área de superfície em relação ao seu volume. Isto lhes dá uma grande proporção da superfície para o volume. Objetos ou corpos maiores têm pequena área de superfície em relação ao seu volume.

O problema é que o aumento da área de superfície, a pele, significa mais contato com o meio ambiente o que gera maior perda de água e calor. Logo, um elefante perde proporcionalmente menos calor para o meio do que um minúsculo beija-flor.

Além de estarem entre os menores animais endotérmicos, os beija-flores também não possuem as felpudas penas de isolamento, chamadas plúmulas, espalhadas pelo corpo, debaixo das penas de voo. Tamanho do corpo pequeno e falta de isolamento térmico levam os beija-flores a perder calor para o meio ambiente rapidamente. Por isso que durante o dia os beija-flores são extremamente ativos, nunca param de se alimentar de néctar, um alimento rico em açúcares, fácil de ser queimado dentro das células e transformado em energia para a vida.

Mas e durante a noite, neste frio da madrugada?

Torpor nas madrugadas

Beija-flores tornam-se hipotérmicos, ou seja, diminuem drasticamente a temperatura do seu corpo. Este estado fisiológico é chamado pelos biólogos de torpor

Mesmo dormindo, os beija-flores têm enormes demandas metabólicas que devem ser atendidas simplesmente para sobreviver à noite, quando eles não podem se alimentar. Para enfrentar este desafio energético, essas pequenas aves precisam economizar energia suficiente para sobreviver durante as noites frias. Como elas fazem isso?

Beija-flores tornam-se hipotérmicos, ou seja, diminuem drasticamente a temperatura do seu corpo. Este estado fisiológico é chamado pelos biólogos de torpor. Sabe-se hoje que mais de 100 espécies de aves praticam o torpor, entre eles os bacuraus, os andorinhões e as andorinhas.

Torpor é um tipo de sono profundo, onde o animal diminui a sua taxa metabólica. Taxa metabólica é a quantidade de energia utilizada pelo animal num determinado tempo. Esta taxa metabólica reduzida também faz com que a sua temperatura corporal fique baixa. Em geral, a temperatura corpórea de um beija-flor tropical gira em torno de 37 graus. Assim, durante a noite fria, a temperatura corpórea destas aves cai para 19 ou 23 graus. É uma temperatura de cerca de 3 graus acima da temperatura ambiente, em um patamar que é apenas suficiente para manter a pequena ave viva. É como viver numa espécie de melancolia, quando nossas funções motoras e psicomotoras são inibidas. Um período de torpor de 10 horas confere uma economia de energia da ordem de 50 a 60%.

Um beija-flor leva aproximadamente 20 minutos para despertar do torpor. Frequências cardíaca e respiratória aumentam e o beija-flor vibra os músculos das asas durante o acordar. O calor gerado por essa vibração aumenta a circulação do sangue, e voilá: hora de voar e começar um novo dia de trabalho pesado. Ele deve passar o dia todo procurando flores com néctar, caçando pequenos insetos. Não há tempo para refletir sobre as vicissitudes da vida.

Não posso mais reclamar da minha segunda-feira, quando acordo já de mau humor querendo jogar o despertador pela janela. Tenho a sorte ainda de contemplar o brilho das últimas estrelas neste céu azul petróleo, ir até a cozinha e preparar uma bela e quente xícara de café.

Fig 1 a beija flor eremita Foto C. Komesu

Fig 1 b bacurau Foto C. Komesu

Fig 1 c andorinha Foto C. Komesu

Fig 2 Principio do volume X area

Conhecimento (+)