Nesta parte, registro notas pessoais sobre fundo, movimento, luz, distrações, cenário – tudo o que está lá e não é o bicho, sem uma ordem específica.

Papa-moscas-cinzento (Contopus cinereus) Tropical Pewee

 

  • Texto: Cristian Andrei.
  • Fotos: Cristian Andrei exceto uma das fotos de elefantes
  • Parte 3 do artigo “Notas pessoais sobre as ‘outras coisas’ de uma fotografia artística de aves”. A parte 1 é sobre regulagens em DSLRs e a parte 2 é sobre O fotógrafo.

Fundo: se tem fundo, é retrato. Se é retrato, o fundo simples funciona melhor pra mim. Não precisa ser monotônico, mas gosto de fundos discretos que realcem o assunto. O semidesfocado ajuda, e cores que combinem – prefiro os mais escuros. Se o fundo é um emaranhado, procuro escurecer bem a foto (ou mudar de posição). Gosto de fundo verde, ou de tons cáqui. Céu no geral não gosto tanto para bichos pousados, a não ser um céu bem cinza, ou amarelo. Branco ou azul acho que são fortes demais e uma imagem com o céu de fundo muitas vezes me dá a impressão de que o fotógrafo “invadiu” o espaço do bicho, de que o ângulo de visão é forçado. Não gosto de grama, também reforça que o ângulo é forçado, que estou olhando de cima para baixo, e que talvez aquilo seja um zoológico (se for um besouro, ou borboleta, tudo bem).

Água é um fundo bonito, mas complicado de lidar porque é escuro (a luz é absorvida pra dentro da água) mas tem pontos de reflexos brilhantes. Em geral a exposição automática vai clarear demais para compensar o escuro da água, deixando a foto lavada e com pontos estourados. O jeito é escurecer a imagem. Começo tentando uma exposição matricial -2, e às vezes tenho que escurecer mais. Veja o posthttp://virtude-ag.com/dslr-muita-luz-contraste-can/

Cenário: diferente do fundo, o cenário tem vários planos em foco, portanto muitos elementos que ajudam a compor a imagem (se atrapalham, nem pego na câmera, porque pra mim não dá foto). Gosto muito de fotos de cenário com bichos, são as que mais gosto de tirar. As linhas e o padrão de luz compõem imagens dinâmicas e harmoniosas. Na fotografia de aves pequenas é muito mais difícil ter um bom cenário, mas se a lente tem zoom, podemos sempre tentar recuar e procurar galhos e folhas interessantes.

Ângulo de visão: quase sempre gosto mais da visão horizontal, ou levemente de baixo pra cima para bichos imponentes ou de cima para baixo para bichos frágeis – nunca entendi por que os pais não se agacham quando vão fotografar os filhinhos. Ave lá no alto da árvore pra mim não dá foto, a não ser que a ave seja grande e árvore esteja longe o suficiente para dar um ângulo leve.

Movimento: o que entendo por movimento não é o do bicho, mas o do olho de quem está vendo a foto. Quando tenho uma imagem “com movimento”, ou seja, que guia o movimento do olho, sei que será mais fácil interessar quem vai vê-la. Linhas, brilho, cores, padrões de luz são os elementos de composição que criam o movimento. Um bicho se movendo em geral trará esses elementos para a imagem, mas ele não é essencial. Galhos, folhas, capim, raios de luz, sombras são me ajudam a compor o movimento. Procuro ajustar a direção e intensidade do movimento da imagem pela sensação que quero passar. Diagonais, linhas sinuosas, paralelas, itens que conduzem o olhar ao bicho ou ao ponto de destaque no bicho costumam funcionar (beiras de pedra, galhos, nuvens, ondas). Para envolver o bicho, gosto de linhas mais estáticas, verticais, ou pontos e formas pequenas (como capim, folhas, flores).

Quanto mais centralizado o assunto, menor o movimento dele na imagem. A foto ainda pode ter movimento: uma imagem de uma ave de asas abertas olhando para a câmera e centralizada faz o olhar andar da ponta da asa até a face, os olhos e o bico, criando um movimento que passa uma sensação de força.

Espaço vazio também cria movimento, daí eu gostar de colocar bichos em movimento de um lado da foto, olhando ou se movendo em direção ao espaço vazio do outro lado. Funciona melhor da esquerda para a direita (nosso sentido de leitura). Por mim vale inverter a foto na edição, se não houver elementos reveladores de orientação. Também gosto do bicho andando bem na base da foto, quase sem chão, e um céu grande em cima.

Galhos: troncos, galhos, ramos e capim – posso usá-los para enquadrar e envolver o bicho, criando uma sensação de intimidade, moradia, textura. Ou usá-los como linhas que produzem movimento. Tomo cuidado para não ficar incongruente: grandes formas desfocadas em primeiro plano raramente ajudam, galhos atravessando a frente do bicho tampouco (envolvendo e criando uma sensação de mistério é diferente de atravessando). Galhos atrás também podem atrapalhar, principalmente se emendarem com asas, patas, cauda ou cabeça, ou se cruzarem em foco, criando cansaço e confusão para os olhos.

Capim e talos altos de gramíneas podem ficar bonitos porque são repetitivos, daí não brigam com o destaque.

Pontos luminosos: áreas muito claras normalmente formadas por buracos entre as folhas, ou objetos claros que ficam fora de foco, atraem muito a atenção e o clichê é que são distrações. Tendo a concordar. Gosto quando são pontinhos pequenos e espalhados, que podem criar uma dança de luz. Grandes bolas brancas não me agradam.

Expressão e forma: os bichos têm formas interessantes, e grupos de bichos podem compor padrões geométricos bonitos. Já tirei muitas fotos explorando as formas, e ainda tiro, mas aprendi com as fotos da Claudia que esse olhar quase sempre sacrifica a expressão do bicho, o olhar para o bicho como um indivíduo, a foto como uma narrativa emocional do que está acontecendo. Isso foi em 2008, quando passamos horas fotografando um grupo de elefantes tomando banho no rio – as minhas fotos eram quase silhuetas dos elefantes compondo desenhos na água, e as da Claudia, bem melhores, mostravam a alegria deles se banhando. Hoje procuro decidir antes se quero tirar uma foto “gráfica”com ênfase nas formas, ou uma narrativa, destacando as expressões e climas.

Silhuetas: evito a silhueta total (só a forma preta no fundo luminoso) a não ser que seja uma forma muito interessante, como uma bela árvore com um gavião pousado no topo, ou coqueiros e araras, e o fundo seja especial, como o nascer do sol. Gosto de meias-silhuetas, com partes dramaticamente iluminadas, e de silhuetas em planos, como quando fotografo um cenário brumoso. Procuro lembrar que a silhueta total destaca 100% a forma e 0% o conteúdo – um grupo de elefantes de costas se afastando, ou uma pata e seus filhotes muito juntinhos na água, podem dar boas fotos mas não boas silhuetas. Já uma fila de elefantes de lado ou uma pata e filhotes formando uma linha devem ficar bonitos em silhueta.

Com silhuetas e nascer e por do sol, evito incluir mais que alguns milímetros de chão. Fica uma barra escura que não acrescenta nada.

Pontos de destaque: gosto de procurar um pequeno ponto de forte destaque na imagem. Em bichos, se não estiver contra o sol, não é difícil pegar um brilho no olho. Pode ser o brilho no bico ou nos dentes. Ou uma mancha de luz na face, ou uma flor pequena. Quando o destaque é uma área colorida ou iluminada, ajusto a exposição para esta área ficar boa, não importando se o resto fica escuro – algo como uma exposição pontual (-1/3) na área de destaque.