Continuo as notas pessoais sobre as “outras coisas” de uma fotografia mais expressiva de animais abordando os elementos mentais. A busca aqui é por imagens artísticas, não por imagens de aves importantes, lifers, ou raras, que requerem outras atitudes e técnicas.

 

  • Texto: Cristian Andrei.
  • Fotos: Cristian Andrei, exceto guarás.
  • Parte 2 do artigo “Notas pessoais sobre as “outras coisas” de uma fotografia artística de aves”. A parte 1 é sobre regulagens em DSLRs.

A cena é tudo aquilo que vejo pelo visor, certo? Errado. A cena é aquilo que visualizo no olho da minha mente antes de olhar pelo visor, antes de pegar na câmera – aí está mais uma importância do tripé, que permite separar os momentos de Olhar e de pegar na câmera. Olhar com O, no sentido de visualizar, de imaginar. Pra mim é uma atitude interior, reflexiva, bem diferente da atitude de caçador que adotamos instintivamente quando estamos com a câmera na mão e o bicho aparece na nossa frente. No meu modo de sentir uma perturba a outra, e por isso tento separar os momentos de observação e registro de aves dos momentos de fotografia. Pra observar muitas vezes prefiro o binóculo. Essa de “olho da mente” eu tirei do Galen Rowell, gosto muito das fotos e ainda mais dos textos dele, pena que já morreu.

A decisão básica sobre a cena, portanto, é se há uma imagem para fotografar. Vai dar foto? É a pergunta que aprendi nos workshops de fotografia que cursei. O que eu acho mais difícil, ainda perco muita oportunidade, é antever uma cena. O bando de dezenas de guarás entrou voando no mangue bem na beira do rio, mas fora da vista. Tem dois ou três pousados à mostra. Estamos no barco, chegando perto das árvores aonde os guarás se esconderam. Onde está a foto? Fiquei fotografando um dos três, e perdi a verdadeira foto: quando o barco chegou perto demais, o bando voou de novo, de uma vez, na nossa direção. Óbvio. A Claudia pegou porque estava com zoom e sacou o que significava aquele barulho farfalhante, eu com a lente fixa não peguei – e eu estava com outra câmera no colo, com a 70-200 pronta. (Observação da Claudia: não saquei nada, eu apenas tento fotografar tudo que eu posso. É o FOFA, mais o Lado B, e o poker de rua… logo escrevo sobre isso).

Com bichos, sabemos que a foto pode aparecer sem aviso, e portanto é importante ficar concentrado, grudado no visor, esperando um momento – mais um ponto pro tripé. Não sou muito bom nisto – muitas vezes o bicho voou ou pulou justo quando eu ia ajustar de novo alguma regulagem ou posição da câmera. Talvez nem seja por coincidência – o bicho pode ter um comportamento defensivo de congelar diante de uma ameaça e fugir quando vê que a ameaça está distraída.

Eu uso o disparo contínuo, em velocidade alta, mas com um propósito. Assim como a atitude de caça, o abuso do disparo contínuo me parece embotar a visualização da cena. Quando espero uma imagem que acho que vai ser rápida demais, como o momento de uma ave levantar voo, aí sim a metralhadora tem propósito. Por falar em voo, às vezes eu lembro de abrir um pouco o zoom (ou me afastar) para deixar mais espaço em volta da ave que quero pegar (inteira) voando.

Prefiro fotografar sozinho. Não significa estar sozinho no passeio, mas na hora de procurar as fotos eu gosto de me afastar. Quando estou num grupo costumo ficar pra trás.